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A vida não é tão ruim quando se está abaixo da linha da miséria em L.A.

Por Eloá Orazem -

A pobreza é a mãe da criatividade. Na falta de grana, a gente inventa de tudo: receitas, roteiros e desculpas. Chegamos cedo para não pagar entrada, vamos ao cinema às quartas-feiras e esperamos pelo chope duplo do happy-hour – não ter dinheiro nos ensina muito sobre paciência e cupons de desconto.

Aqui na Califórnia não é diferente, quando a conta bancária tá mais vazia que o volume morto do Sistema Cantareira, a gente tem que improvisar para não perder a sanidade. Tá certo que não existe essa história de nome na lista ou pedágio para ir à praia, mas tem (quase) sempre o bom e velho estacionamento, que é quase a mesma coisa.

Na minha última visita à pindaíba, descobri o Rosenthal Wine & Tasting, em Malibu – não sei exatamente como defini-lo, então vou usar a palavra “bar”, que me parece a mais próxima da realidade. Às margens da Pacific Highway, na esquina com a estradinha que corta o Topanga Canyon, esse bar não tem vista pro mar, mas é tão bacana que a gente esquece e nem sente falta.

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O dono desse lugar, aliás, foi um gênio: em vez de investir fortunas na construção hipster blaster cool, ele não construiu porra nenhuma. Sério! Deixou tudo granado e colocou lá umas mesas e cadeiras de madeira. Tem uns sofás bem disputados também. Na parte da frente, uma pequena casinha está repleta de vinho, e você pode fazer uma minidegustação por 14 dólares – e aqui vai tudo a gosto do freguês: mezzo tinto, mezzo branco ou só vinho e só branco. Para acompanhar as delicias fermentadas, os visitantes podem comprar ali queijos, bolachas, torradas e frutas com preço pobre friendly. Gastei 9 dólares em uma torradinha de gergelim e um pacotinho inteiro de queijo brie.

Mas se você é um daqueles abaixo da linha da pobreza, a melhor parte é que você pode levar o seu próprio piquenique. Uma galera leva, então não é vergonha alheia chegar lá com sacolas de coisa.

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Não é cobrada entrada e dependendo do dia e da hora, você ainda ganha de brinde um showzinho intimista a céu aberto, nesse jardim/quintal. Durante a semana é mais provável conferir uma performance de jazz na pequena área onde rola a degustação – também na faixa.

Aos famintos, aviso logo que o lugar NÃO vende comida elaborada, só os queijos e frutas mesmo. Talvez um patêzinho, mas é só. Mas não precisa se jogar num rodízio antes de ir pra lá, porque tem sempre um food truck estacionado na cerquinha próxima ao quintal, onde geral faz esse piquenique gourmet. Cada dia pinta por lá um truck diferente, mas geralmente são muito bons e muito caros – eu comprei um hambúrguer vegano por 11 pratas americanas, o que é bem salgado pruma pobre.

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Voltando ao nosso espírito de pobre, aqui vai uma outra dica: confira o banheiro! Não tem nada de absolutamente sensacional, mas é que, quando você vê que o toilet fica num trailer, no fundo do jardim, você já vai esperando encontrar aquele troninho la estádio de futebol e prende a respiração uns sete passos antes da chegada. Aí você sobe as escadinhas da “morte” e voilá, o banheiro é lindinho, GRANDE e mega limpo. Parece coisa de restaurante mesmo, com sabonete de alguma qualidade e tudo bem organizadinho.

Tá certo que não é finesse curtir todo esse playground pagando nada. Ninguém vai te obrigar a consumir uma água sequer – e talvez nem percebam que você já trouxe tudo de casa, mas, sei lá, divide com seu amigo que seja o queijo brie. Cada um vai gastar dois dólares e curtir um lugar bem bacana ao sol de Malibu.

E o estacionamento é na faixa!