Inspiração

Bianca Bosker: a jornalista que virou a maior nerd do mundo dos vinhos

Por - 8/06/2017

Em 2014, a vida de Bianca Bosker (@bbosker) mudou da água para o vinho. Literalmente. Aos 27 anos, a jornalista trocou seu cargo de editora executiva de tecnologia no “Huffington Post” por um emprego de cellar rat – uma espécie de almoxarife de vinhos – em um restaurante em Nova York. Substituiu as reuniões de pauta às 9h da manhã por degustações matinais de 6 a 12 taças e abriu mão de usar perfume e Listerine, de escovar os dentes com frequência, de ingerir líquidos acima da temperatura ambiente e, claro, de estar sóbria durante o dia. “Reorganizei toda minha vida em torno dos meus sentidos”, contou em entrevista exclusiva para a gente.

A americana nascida e criada em Portland fez tudo isso para aguçar o olfato e o paladar e se tornar uma sommelier certificada pela The Court of Master Sommeliers. E conseguiu, após 18 meses de imersão num mundo povoado por pessoas que dedicam suas vidas à enofilia: os “cork dorks” (algo como ‘esquisitões de rolha’) que a fascinaram, que a fizeram largar tudo para adotar sua obsessão, e que também dão nome ao livro que ela lançou nos EUA este ano – “Cork Dork: A Wine-Fueled Adventure Among the Obsessive Sommeliers, Big Bottle Hunters, and Rogue Scientists Who Taught Me to Live for Taste” (Penguin Books, US$ 9,88), ainda sem tradução para o português.

Esses “dorks” (ou “somms”, como ela também os chama) estudam e tentam decorar os milhares de tipos de uvas, economizam cada centavo para gastar com garrafas premiadas, catalogam cheiros, lambem pedras e experimentam terra para, apenas pelo aroma e sabor de um vinho, conseguirem descrevê-lo e identificá-lo do modo mais específico possível… Específico no nível de: “Este é um blend com predominância de Merlot proveniente da Vila de Saint-Émilion na margem esquerda de Bordeaux, safra de 2010, com qualidade Grand Cru Classé.”

“Há certos vinhos que têm cheiro de verão, como os produzidos no Vale do Rhône, no sul da França, com suas uvas muito aromáticas que recendem flores e luz solar, ou os brancos feitos com uvas Grillo, na Sicília, que lembram a refrescância da brisa do mar”.

Em pouco mais de 350 páginas, Bianca – no melhor estilo de jornalismo gonzo – narra sua trajetória por adegas geladas, degustações cegas, orgias de vinho (spoiler: não tem nada a ver com sexo) e restaurantes disputados; descreve os personagens excêntricos que encontrou pelo caminho; ensina ao leitor a degustar a bebida e o informa sobre diversas curiosidades do líquido que só perde em complexidade para o sangue humano; investiga o porquê do olfato e o paladar serem o sentidos mais menosprezados pela sociedade ocidental (outro spoiler: remonta à época de Aristóteles) e questiona essa negligência sensorial.

“Atualmente, na cultura americana, há uma fixação absoluta por comida: milhões de fotos de pratos no Instagram, chefs que se tornaram celebridades, reality shows… E, ao mesmo tempo, há um paradoxo: nós gastamos muito tempo e dinheiro na busca de coisas saborosas, mas não nos ensinamos a saboreá-las”, filosofa a autora. “O resultado disso é o que eu descreveria como um “gosto de segunda mão”: algo só é delicioso porque é caro ou porque nos foi servido num restaurante supercool com mobiliário escandinavo”.

Ela conta que, durante o período que trabalhou como sommelier em um restaurante nova-iorquino, toda noite aparecia algum cliente que lhe dizia: ‘Me traga uma taça de qualquer vinho branco/tinto/rosé que você tenha, não consigo sentir diferença’. Quando estava com tempo, retornava à mesa com duas taças de vinhos completamente diferentes e mostrava ao comensal que ele tinha, sim, capacidade de diferenciá-los.

“Aprender sobre vinhos é também aprender sobre nós mesmos. E isso começa com nossos narizes e línguas – precisamos conhecê-los melhor”, explica ela, que vê no livro que escreveu uma oportunidade de repetir em grande escala a explicação que costumava usar no restaurante.

De fato, Bianca relata que, desde que começou a identificar com facilidade cheiros dos mais variados tipos – como ameixas, pimentão, lavanda, couro, trufas negras, etc. – ao inalar e provar o suco de uvas fermentado, ela também ficou mais consciente de seu gosto para outras coisas, como música, arte e comida; seu nariz também ficou mais sensível ao buquê de aromas ao seu redor, algo que até então ela havia ignorado. Ela chama esse estado de atenção sensorial plena de “sensefulness”, variação de outro termo muito em voga atualmente, o “mindfulness”.

“Moro em Nova York, mas neste momento estou em Los Angeles divulgando o livro. Nunca estive tão alerta ao meu entorno, aos aromas incríveis desta cidade que está em pleno estado de florescimento”, relata. “O processo de entrar em contato com nossos sentidos começa com uma taça de vinho, mas o mundo continua muito além disso: é quando informações ignoradas se transformam em conhecimento, experiência e prazer”.

Para a jornalista-sommelier, o verão tem um cheiro específico: o de uma “brisa marinha lepidamente salgada que, vez ou outra, traz consigo um aroma cálido de flores”. Durante os dias quentes de férias, ela consegue encontrá-lo “in natura” em Nantucket, uma ilha na costa de Massachusetts onde costuma veranear com o marido.

Quando está frio ou não pode sair da cidade, Bianca recorre às versões engarrafadas: “Há certos vinhos que têm cheiro de verão, como os produzidos no Vale do Rhône, no sul da França, com suas uvas muito aromáticas que recendem flores e luz solar, ou os brancos feitos com uvas Grillo, na Sicília, que lembram a refrescância da brisa do mar”, conta. “Com eles, mesmo no inverno em Nova York, consigo escapar mentalmente para lugares onde há Sol. E, nossa, esta conversa está me deixando animada para os fins de semana de verão!”, conclui, rindo.

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