Coluna

Campos do Jordão: não sei quem vai, mas vive cheio

Por Sérgio Roveri -

Restaurantes lotados. Filas nos supermercados e nos postos de combustíveis. Hotéis e pousadas com inacreditáveis taxas de 98% de ocupação. R$ 7,50 por um expresso. R$ 9 por dois pães de queijo um pouco maiores que bolinhas de gude. Miami? Paris? Tóquio? Que nada, é Campos do Jordão, aqui pertinho, o sofisticado playground das montanhas que, ao contrário de todo o resto do País, está adorando este período de crise brava.

Já que ficou impossível ver a neve em Bariloche ou o sol em Ibiza, a gente se contenta mesmo com os aquecedores a gás nos restaurantes e bares do agitado bairro de Capivari, o melhor lugar para ver e ser visto em Campos – e depois, como nada neste mundo é perfeito, voltar para o hotel cheirando a queimado porque a cumbuca do fondue soltou mais fumaça do que o previsto. Eu não conheço a Áustria, mas sempre achei que Capivari é uma Áustria em miniatura, um pouco mais fake, é verdade, e também com um risco bem maior de encontrar o Luciano Huck na mesa ao lado.

No meu imaginário infantil, Campos do Jordão sempre foi uma espécie de paraíso com lugares limitados. Passar alguns dias das férias de verão na praia sempre foi OK, mas subir para Campos em julho não era para qualquer um, não. Prova disso é que não me recordo sequer de uma redação escolar, daquelas que a gente era obrigado a fazer quando voltava das férias, em que algum aluninho confessasse ter passado o inverno em Campos. Eu me lembro de uma visita que fiz a Campos a convite da querida empresária Ede Cury, que na época trabalhava com a cantora Sula Miranda, aquela que gostava de tudo cor de rosa. A Sula, juro, tinha um Volvo cor de rosa na garagem – e o teto da casa era de telhas pintadas todas elas em tons de rosa. Naquele dia eu dei razão para as minhas suposições de menino que diziam que Campos era para poucos.

Depois de adulto, Campos do Jordão, para mim, passou a ser sinônimo de galera. Quem consegue ir para lá sozinho, afinal? E, também, sinônimo de vinho, polenta com molho de carne moída, galinha na panela, conhaque, pão de queijo de saquinho, vidraças embaçadas, roupas de cama congeladas e do terrível e sempre presente boato de que a qualquer momento a água quente vai acabar.

O mais estranho, contudo, é tentar entender por que Campos vive lotada se ninguém que a gente conhece vai exatamente para lá. Sempre que pergunto aos amigos se eles estão indo para Campos do Jordão mesmo, ouço que não. Eles sempre ficam numa cidadezinha 20 quilômetros antes de chegar lá, ou numa pousadinha meia hora depois de lá, ou num sitiozinho escondido já do lado de Minas Gerais, ou num hotel fazenda que é uma graça mas que, para falar a verdade, parece que nem é muito pros lados de Campos, ou num camping super charmosinho de onde é possível avistar Taubaté mas… nenhum sinal de Campos… Ou seja, depois de tantos anos, continuo acreditando que Campos é para poucos e que aquelas milhares de pessoas que superlotam a cidade devem ser figurantes de alguma campanha publicitária.

Na penúltima vez em que estive em Campos (faz tempo, hein), o PC Farias, ex-secretário do Collor, foi assassinado junto da amante no Nordeste. E na última vez, e agora pode ficar triste, morreu o Tim Maia. Depois destes dois episódios, passei a evitar um pouco Campos, por achar que, sempre que eu subo as montanhas, tem algum famoso, do bem ou do mal, que sobe para um lugar muito mais alto e distante.