Coluna

Cecil, the king: uma juba black-tie

Por Sérgio Roveri -

No Zimbábue, o sol brilha praticamente o ano todo. Mas ao contrário dos seus vizinhos badalados, Moçambique e África do Sul, o Zimbábue não tem praias. Na corrida pelos dólares dos turistas, o país africano, que figura entre os mais pobres do mundo, acena com seus vastíssimos parques nacionais, a exuberância das cataratas Victoria, no rio Zambeze, e o gigantismo do Kariba, um dos maiores lagos artificiais do planeta. À disposição dos rostos suados dos visitantes há também sete quilômetros quadrados de ruínas que compõem a Cidadela do Grande Zimbábue, a mais antiga edificação deste tipo em todo sul do continente africano. Convenhamos que não é pouco.

Porém, nenhuma destas belezas, naturais ou maquiadas pelo homem, parecia fazer frente a um popularíssimo leão de 13 anos batizado de Cecil, que até semana passada desfrutava feliz de sua condição de macho alfa no parque Hwange, um dos maiores e mais visitados do país. A vida de Cecil se resumia, ao que parece, a comer, dormir, procriar, zelar pela prole e exibir orgulhoso uma raríssima juba negra, que fazia dele um leão em trajes black-tie. Se não tivéssemos sido expulsos do paraíso, provavelmente levaríamos hoje uma existência parecida com a que Cecil levava. E, desconfio, talvez pudéssemos ser, se não mais felizes, ao menos mais tranquilos.

Mas, da mesma maneira que houve uma serpente para nos empurrar para este vale de lágrimas, houve um cirurgião-dentista americano, mais letal e desalmado que qualquer vilão dos filmes de 007, a mostrar para Cecil que, quando o assunto é aniquilação, a natureza ainda não produziu nenhum artefato mais daninho que o ser humano. O dentista viajou milhares de quilômetros de sua Minnesota natal e pagou o equivalente a R$ 170 mil (pense só na quantidade de coisas realmente bacanas que poderíamos fazer com esta grana toda) pelo simples e macabro prazer de matar Cecil, o leão mais querido da África e, desde a semana passada, o bicho mais pranteado do mundo.

Porque, sejamos sinceros, Cecil não era apenas um leão – e ainda que fosse, sua morte cruel nas mãos de um caçador inescrupuloso seria igualmente condenável. Ocorre que Cecil era um símbolo da luta de várias entidades sérias em prol da preservação da vida animal, era um símbolo do próprio Zimbábue, era uma prova viva e peluda de que, depois de milhares de anos de convivência conflituosa, o ser humano estava finalmente começando a compreender que este planeta não é apenas nosso e do nosso infindável apetite: ele pertence igualmente aos leões, aos gorilas, aos rinocerontes, aos cachorrinhos que temos em casa, às águas-vivas que queimam a nossa perna na praia, às abelhas que caem nos nossos copos de Coca-Cola e às baratas que nos atazanam nas noites quentes de verão. Somos apenas uma parte de tudo isso, uma espécie que sabe se revelar tão deslumbrante quanto a cauda de um pavão e, em outros momentos, tão dolorida quanto a imagem de uma criança faminta. E, se nada disso parece fazer sentido, vamos direto ao ponto: Cecil era, acima de tudo, um pai de família que merecia respeito, caramba. Seus atuais filhotes, algo em torno de 12 a 20 leõezinhos agora órfãos, podem ser mortos a qualquer momento por outros machos da espécie que já estão de olho no trono que Cecil deixou vago.

Enquanto finalizo este texto, que de alguma maneira deveria abordar o verão, ainda que fosse para espinafrá-lo, me vêm em mente a imagem de algumas musas de verão que o Brasil já reverenciou: Luma de Oliveira e sua irmã Ísis, Luiza Brunet, Vera Zimmermann, a maconha da lata que apareceu boiando no litoral do Rio, o surfista Pepê, a vilã Odete Roitman, o turbante e o biquíni de crochê. Todos símbolos ou da beleza, ou da descontração ou mesmo do deboche que ganham ainda mais vigor à beira-mar. Agora é calor no hemisfério norte. Agora faz sol no Zimbábue. Agora Cecil reina solitário como a musa trágica de um verão de tempos sombrios. E longe da praia.