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Falemos de lagostas

Por Carol Reymundez -

A sequência a seguir se passa em uma das 365 ilhas do arquipélago de San Blas, na costa do Panamá. Trata-se de um território indígena autônomo da tribo kunas.

A ilha não tem nome, é repleta de palmeiras e do tamanho de uma pequena praça de uma cidade do interior.

O guia turístico se chama Blanco. É encorpado e compacto como um boxeador, a pele tostada do sol e o cabelo repleto de gel. De repente, ele veste os pés de pato, máscara de mergulho e um snorkel. Vou atrás dele em direção às águas mornas do mar do Caribe.

Avançamos rapidamente. Em pouco tempo, calculo, nadamos mais de 1 quilômetro. Começo a ficar inquieta. “Não vou pensar em tubarões, não vou pensar em tubarões, não vou pensar em tubarões”.

Descansamos um minuto em um banco de areia. Ao redor, dezenas, centenas de peixes coloridos: barriga amarela e cabeça azul, camuflados, bicolores, arco-íris, uma gangue de peixes-espadas com focinhos que parecem afiadas facas de cozinha e uma tartataruga preguiçosa.

Os corais vão e vêm para frente e para trás, como se alguma força invisível os penteasse constantemente. Blanco está entretido com outra coisa. Vira e mexe afunda em mergulho de apneia, se aproxima de uma caverna, olha – caso encontre ouriços pontiagudos, me avisará – e mete o braço até a altura do cotovelo.

Quando não aguenta mais, volta à superfície para respirar. Aproveito para perguntar o que está fazendo, no que ele me responde: “procuro lagostas!”. A maneira de caçar (ou seria pescar?) lagostas em San Blas é rudimentar: um pau com um laço de arame na ponta. Mas Blanco não o trouxe, tampouco se preocupa com isso: usa as próprias mãos.

Para ele, é um jogo que aprendeu ainda criança e se transformou em fonte de alimento e renda – uma lagosta custa 6 ou 7 dólares.

Mas hoje Blanco não está com sorte. O máximo que consegue capturar são as antenas de uma que lhe escapou nos recantos de uma caverna escura. Lagostas são uma raça valente e escorregadia.

“Há que vir à noite, com lanterna. Aí elas não escapam”, diz ele.

Custa voltar a calçar sapatos depois de tanto tempo usando chinelos, mas é hora de partir. Chego de bote até a pista de pouso e aterrisagem, uma faixa ridiculamente estreita no meio da selva. O avião é um Britten-Norman Island para nove pessoas. Me acomodo próximo à janela. O copiloto trepa em uma das asas para checar o nível do combustível e um nativo se aproxima com um saco como se algo ou alguém o arranhasse pela parte de dentro. Não são gatos. São lagostas, as que Blanco não pode capturar, e viajarão vivas rumo aos restaurantes da Cidade do Panamá.

O piloto sobe com a bolsa no avião, enquanto comenta, irônico, ao nativo:

– Diga ao saila (o chefe dos kunas) que o comandante também come lagostas.

Na cena seguinte o nativo lança um olhar amistoso ao piloto, abre outra bolsa, saca uma lagosta e lhe oferece. Com um enorme sorriso – seguramente pensando no jantar que teria aquela noite – o piloto a guarda e leva cabine.

Alguns minutos mais tarde decolamos: três passageiros, piloto, copiloto e algumas lagostas.

Carolina Reymúndez é jornalista argentina especializada em viagens. Conhece 57 países e acaba de publicar El Mejor Trabajo de Mundo (SüdPol), seu primeiro livro de crônicas. Formada em ciência da comunicação, escreve para jornais, sites e revistas de toda América Latina e Espanha, e é fundadora do site Viajes Libres (www.viajeslibres.com).