Coluna

Um jovem coração a 43 graus

Por Sérgio Roveri -

Esta história, inspirada em fatos reais, é ambientada em Islamabad, capital do Paquistão, onde os termômetros esta semana devem atingir os 42 graus – e creio ser impossível esperar por um final feliz quando se está na antessala do inferno. Em todo caso, vamos aos fatos.

Rajid era uma menino paquistanês que não sentia dor. Até aí, nada demais, porque Rajid tinha nascido em uma família portadora de uma raríssima anomalia genética que os impedia de sentir dor física. Quando alguns cientistas britânicos começaram a estudar o caso, o garoto vivia nas ruas de Islamabad, onde ganhava alguns trocados exibindo o que de melhor sabia fazer: caminhar sobre brasas, perfurar o corpo com facas e rasgar a pele com lâminas afiadas.

Um dia, em meio eterna balbúrdia das ruas sujas de Islamabad, apareceu Ashala, garota de cabelos negros e olhos pequenos que fora atraída pela pequena fama que já cercava Rajid. Tão logo a viu, o garoto decidiu que naquele dia iria se mutilar e queimar seus pés apenas para o deleite da menina, num misterioso show de masoquismo privê. A garota acompanhou atenta os suplícios indolores de Rajid até o final – mais ou menos 50 minutos de um espetáculo que ela não sabia ao certo se estava gostando. Ainda assim, na tarde seguinte, quando a temperatura tinha atingido impensáveis 43 graus, Ashala apareceu de novo, e Rajid percebeu o quanto era prazeroso ter alguém especial a quem ele pudesse dedicar todas as suas escoriações.

No terceiro dia, a garota voltou, mas apenas para se certificar de que não gostava de Rajid e muito menos do que ele fazia. Ela fora alertada de que Rajid era fruto de um desatino da biologia, e que um filho dele estaria provavelmente condenado a vagar pelo mundo sem saber o que era uma enxaqueca ou uma crise de ciático. Daquele dia em diante, Ashala passou a ver Rajid apenas como mais uma das inúmeras aberrações que poluíam as esquinas escaldantes da cidade.

Porém, além da dor, Rajid desconhecia também a prudência. Depois de muito empenho, ele descobriu onde a garota vivia e começou a se apresentar na frente do seu portão. Em vão. Ela nunca apareceu para vê-lo. Em um ato de desespero que só os amantes são capazes de compreender, Rajid incluiu um novo número em seu espetáculo:ele passou a se perfurar com os espinhos das flores que ela nunca aceitou de presente – os curiosos, achando este número romântico demais, recusavam-se a atirar moedas na bolsinha de Rajid.

Depois de um mês de cortes que não doíam, brasas que não queimavam e perfurações que não sangravam, Rajid subiu no telhado de uma casa e saltou para a morte. Os cientistas ingleses, que ainda estudavam seu caso, concluíram que o garoto estava apenas testando seus limites para ganhar um pouco mais de dinheiro nas esquinas. Mas Rajid, e somente ele, sabia que o motivo era outro: lanças, chamas e espinhos eram um nada diante daquela inexplicável dor que ele começou a sentir no coração assim que conheceu Ashala, a garota de cabelos negros e olhos pequenos. E, com aquela dor inédita, para a qual não havia explicação genética e nem mesmo a possibilidade de conforto familiar, visto que seus pais também desconheciam o sofrer, o pobre Rajid, tão inexperiente diante dos sofrimentos do corpo, viu que não daria para conviver.

P.S.: o garoto paquistanês que não sentia dor realmente existiu. E pulou do telhado de uma casa no dia em que fez 14 anos. Ashala, a garota de cabelos negros e olhos pequenos, esta nunca existiu, mas conforta mais pensar que Rajid, numa tarde de 43 graus em que a própria alma anseia por fugir do corpo, dedicou a ela sua última peripécia.