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Saia de sua bolha

Por The Summer Hunter Staff -

Por muitos anos, fiquei presa num território pequeno do Rio de Janeiro. Não andava de ônibus ou metrô; achava táxi nojento. O divórcio furou minha bolha. Coincidindo com a revitalização urbana, foi ele que me levou a conhecer outros lugares, pessoas e modos de transporte. Num sábado de 2010, fui com amigos conhecer o Cadeg, mercado português em Benfica. Esbarrei com amigos da zona sul. Confessamos uns aos outros que era a primeira vez que havíamos entrado no Túnel Rebouças para conhecer os encantadores azeites, vinhos, bacalhau, cordeiro e danças típicas.

Hoje sabemos que o Rio ainda sofre perigos e dificuldades. Mas a experiência dos últimos anos serve para nos lembrar de que as cidades existem para que as pessoas possam trocar bens, serviços e informações – e que, se todos nós fôssemos parecidos, os nossos encontros e as nossas trocas seriam inférteis. Por isso, fiquei apavorada quando o assessor de marketing do empreendimento de apartamentos Ilha Pura (que vai abrigar os atletas dos Jogos), no Recreio dos Bandeirantes, me disse que era para o morador chegar em casa na sexta-feira, estacionar na garagem e pegar no volante apenas na segunda de manhã. Sei que muitos cariocas buscam segurança e liberdade para seus familiares.

Se todos nós fôssemos parecidos, os nossos encontros e as nossas trocas seriam inférteis

Ao se trancar em prédios e condomínios fechados, esquecem o que perdem. Por acaso, no mesmo dia em que fui cobrir o lançamento de Ilha Pura, para meu site, segui, com um amigo estrangeiro, para o metrô, que nos levou até a Praça XV e sua história colonial. Dali, passamos por baixo do Arco de Teles, onde um grupo, vestido de branco, jogava capoeira ao som de um berimbau. A Rua do Ouvidor, domínio de nosso Machado de Assis, estava cheia de mesas ao ar livre e comensais almoçando enquanto músicos alegravam o ambiente. Demos a volta, cruzamos o instigante novo espaço deixado pela retirada da Perimetral e entramos numa barca, que zarpou pela Baía de Guanabara, passando por baixo da ponte de Niterói, nos levando para uma ilha de verdade: Paquetá, resquício mágico de tempos sem muros altos. Lá, sambamos, tomamos cerveja e comemos pastéis. O estrangeiro disse ter passado uma tarde e começo de noite inesquecíveis. Eu, que moro aqui há 20 anos, concordei.

Eu pergunto ao carioca que lamenta a situação atual da metrópole e sonha em ir embora: onde mais pode-se desfrutar da diversidade cultural verdadeira que o Rio de Janeiro oferece? Em vez de fugir, agora é a hora de trabalhar para diminuir nossos problemas e buscar a sustentabilidade de tudo que tem valor único aqui.

** Julia Michaels é escritora norte-americana. Mora no Brasil há mais de 20 anos. Atualmente, escreve um livro sobre o Rio de Janeiro e acompanha a metrópole no seu blog, o riorealblog.com*