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Em Los Angeles, ser pobre dá um puta trabalho

Por Eloá Orazem -

Tinha espaço para uma escola de samba inteira desfilar (com direito a área de recuo da bateria e tudo), mas o bração que pilotava o Lexus novinho, duas portas, não conseguiu fazer a baliza entre a Cherokee capenga e o Honda Civic velho de guerra.

O cara até insistiu: foram duas tentativas antes de jogar a toalha – ou de se envergonhar diante do meu olhar de reprovação. Deixou o vai e vem para alguém como eu, duranga e desesperada, e comprou o seu conforto num estacionamento pago, no quarteirão seguinte.

Ser pobre não é para amadores, minha gente. E se não aguenta, pede pra sair (brinks, eu mesma já pedi pra sair mil vezes e continuo aqui, como prova viva de que não funciona). Ninguém foge de graça da rua da amargura, lugar bem mais casca grossa que o BOPE.

A primeira coisa que a gente aprende quando não tem grana é que não se deve desperdiçar nada, e que reciclar a cara de pau é uma das melhores alternativas para se fazer um bom negócio.

Deixei uma confortável vida brasileira para me lançar na guerra americana da sobrevivência. Trocar de país é tipo voltar pro final da fila, sabe? É a vida dando um peteleco naquele castelinho de cartas que você levou anos para construir.

Mas eu não me arrependo, e sei que o processo leva tempo e muita disciplina. Existe toda uma ditadura em ser pobre que as pessoas não fazem ideia.

Você deixa de almoçar às 13h, por exemplo, e se educa a ter fome só lá pelas 15h, para aproveitar o horário de Happy Hour dos restaurantes, onde diversos pratos e drinques são vendidos pela metade do preço. Aí você aproveita a o desconto e come o suficiente pra não ter fome no jantar também! Heheh

Só recomendo guardar um pouco do apetite nas noites de terça, porque é Taco Tuesday e casas mexicanas vendem tacos a um doleta. Pode comer a vontade e ainda levar uns pra casa.

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Às quintas rola a Thirsty Thursday, então se organiza pra convidar @s gatinh@s do Tinder pra sair nesse dia, que dá pra afogar as mágoas sem declarar falência.

Cinema também é caro, mas sai pela metade do preço se você for em horários alternativos, tipo 10 am. Então, ó, quando você acordar com aquela larica brava e tá totalmente sem grana para o tradicional brunch, invista em um bom filme que o distraia da fome – e que, de quebra, ainda te deixa por dentro das novidades do mundo da sétima arte, pra você poder pagar de cult no meio da galera.

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Aos sábados não tem pra onde correr. Quer dizer, tem sim: pra lavanderia, onde você vai gastar suas últimas moedinhas lavando os lenços para chorar em paz (e higiene) pelo resto da semana.

Para não dizer que o fim de semana é uma desgraça para todo pobre, vale lembrar que aos domingos, a partir das 18h, alguns boliches fazem caridade e vendem uma hora do jogo por cerca de 3 dólares por pessoa. Uma pechincha!

Nos demais dias da semana, seja legal com aquele seu amigo dono de uma conta no Netflix e devore o catálogo de filmes e séries da empresa. Eu já zerei até Meu Pequeno Pônei e agora tô atrás de uma amizade sincera com alguém que seja membro do Hulu <3

Entre um episódio e outro, a gente segue fuçando o Craigslist pra ver se abocanha outro frila que nos garanta os tacos de terça e o boliche de domingo.

Ser pobre dá um puta trabalho.