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Florianópolis e arredores: um dia de costura com as rendeiras da Lagoa

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Por Fernanda Nascimento -

“Esse para cá, para cá, para lá. Um em cima do outro, para cá, para lá”. Com a destreza de quem faz isso há 60 anos, a rendeira Maria de Lourdes de Jesus torce linhas de um lado para o outro debruçada sobre uma almofada. Para formar as rendas que se transformam em toalhas, colchas e roupas, ela movimenta nas mãos os bilros, pedaços de madeira conectados às pontas das linhas – para fazer desenhos mais complexos, é possível trabalhar com 26 pares ao mesmo tempo. “A renda de bilro é uma cultura muito bonita que tem um significado muito grande”, diz. “As pessoas ficam encantadas com o trabalho e querem aprender”.

Duas vezes por semana, ela se encontra com outras 20 rendeiras no Centro Cultural Bento Silvério, conhecido como Casarão, na Lagoa da Conceição. O espaço cedido pela Prefeitura para perpetuar a tradição da renda de bilro está aberto a quem quiser tomar aulas para aprender os primeiros passos do trabalho. “A renda é uma coisa bem antiga: as avós faziam, as bisavós faziam. Tem uma história que diz: aonde há rede, há renda. Enquanto os maridos pescavam, as esposas ficavam em casa fazendo renda”, conta Maria, que nasceu na Lagoa em 1951, quando ali ainda era um bairro pacato de pescadores. “A menina, quando fazia 7 anos, tinha que aprender porque era a única profissão que tinha”.

Maria ensina as técnicas da renda de bilro no Casarão | Fotos: Diego Lajst

Antigamente, ela conta, as meninas aprendiam a fazer renda para costurar trilhos de mesa, toalhas para bandejas, colchas e outros enfeites para casa. Hoje, ela ensina a fazer detalhes para roupas, bolsas e até adornos para o cabelo. “É muito bonito essas meninas que se formam na faculdade e querem aprender a cultura”, diz. “Já tive alunos da Colômbia, da Espanha e de tantos outros lugares. Hoje até os homens estão aprendendo, o que não existia na nossa época porque o homem era para a rede”. Não é preciso ter qualquer material para experimentar a técnica com Maria ou com as outras rendeiras que se encontram todas as quartas e sextas-feiras no Casarão da Lagoa. A almofada, as linhas e os bilros são emprestados até que o aluno decida comprar seu próprio material.

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“A renda de bilro é um trabalho manual como o crochê e o tricô. A gente ensina várias técnicas: a tramoia, a maria morena, a tradicional... Primeiro a gente começa com 4 bilros, para formar uma trança, aí vai acostumando com o movimento das mãos de trocar os bilros”, explica Maria, que ensina o passo a passo aos alunos enquanto conta as histórias de Florianópolis de outros tempos. “É bom ver a tradição da gente indo para outras pessoas. Porque é como diz a história: não se dura uma vida inteira, ninguém é eterno nessa vida. Se a gente for passando o que a gente sabe vai ficando na cultura e nas pessoas”.

Centro Cultural Bento Silvério (Casarão da Lagoa)
Rua Henrique Veras do Nascimento, 50, Lagoa da Conceição
(48) 3232-1514