Coluna

Inverno no armário

Por Sérgio Roveri -

Não é que eu odeie o verão. Não exatamente. Meu problema com o verão é que ele dura muito, é muito intenso e ocorre todos os anos. Se qualquer uma dessas constantes pudesse ser eliminada, tenho certeza de que eu seria capaz de manter uma relação muito mais harmoniosa com a mais famosa das estações do ano.

Não é implicância minha, mas a verdade é que o verão, de uns tempos para cá, também está se tornando cada vez mais espaçoso. Sem pedir licença, ele vem, ano a ano, avançando impiedosamente sobre o que, pelas leis da natureza, ainda deveria ser a primavera: sem piedade, ele incinera em poucos dias as flores da paisagem urbana para, no lugar delas, abrir espaço a uma profusão de axilas manchadas e pescoços empapados de suor.

Vai chegar o dia, e tenho certeza de que vai ser logo, em que o verão vai se estender até maio ou junho para dar as caras novamente lá pela metade de setembro, permitindo que cachecóis, gorros e meias de lã possam circular livremente pela cidade por no máximo dois meses do ano.

Minhas diferenças com o verão se manifestam muito antes do início oficial da estação. E elas revelam seu lado mais cruel naquela manhã, normalmente lá pelo fim de outubro, em que me vejo obrigado a dobrar o edredon, que foi a mais fiel e constante das companhias das semanas anteriores, para devolvê-lo ao compartimento mais alto do guarda-roupa, de onde ele só será resgatado, com alguma sorte, seis meses depois.

É um doloroso ritual de despedida, algo como ter um filho fazendo um intercâmbio de meio ano em algum país distante: a gente sabe onde ele está, sabe que está bem cuidado, mas mesmo assim morre de saudade e não vê a hora do reencontro.

Embora os dias por aqui continuem muito quentes, na minha cabeça a contagem regressiva já começou: em breve, e ainda que o mundo inteiro esteja contra mim, vai chegar a hora de pegar a cadeira da cozinha, arrastá-la até o quarto, subir em seu assento com a alegria de um atleta olímpico que sobe ao pódio, abrir as duas portas superiores do guarda-roupa, agarrar o meu edredon e exibi-lo com os braços erguidos como se fosse um troféu.

Meu querido amigo, vou dizer a ele, parabéns: sobrevivemos a mais um verão.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas