Coluna

Gina, a vergonha da casa

Por Sérgio Roveri -

Desde pequena – embora nunca tenha crescido muito – que Gina se sentia um pouco perdida no mundo. Ao contrário da maioria das suas vizinhas, principalmente as da sua idade, Gina não achava a menor graça nos dias quentes, abominava as intermináveis tardes modorrentas e sempre trazia na ponta da língua uma desculpa fresquinha para recusar os incontáveis convites para passear no lago, pular poças d’água, se esconder atrás de vasos ou brincar com pneus abandonados – ela nunca entendeu que tipo de prazer poderia haver nisso.

A mãe de Gina, ainda que sempre tivesse feito vistas grossas para o comportamento cada vez mais estranho da jovem, chegou a um ponto em que não aguentou mais ficar calada. “O verão já está acabando e você ainda não reproduziu, minha filha”, disse a mãe, já às portas do desespero. Gina, encarando aquela figura piedosa à sua frente, recorreu a Machado de Assis para alicerçar sua resposta: “Não quero ter filhos. Não vou transmitir a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Com medo de tornar pública sua ignorância nos assuntos de literatura, a mãe de Gina foi procurar consolo nos braços do marido. Este, que também não conseguia mais disfarçar sua aflição diante do temperamento arredio da filha, resolveu tomar uma atitude radical. Naquela mesma noite, enquanto Gina dormia, ele iria vasculhar os poucos pertences da filha, na esperança de encontrar ali a resposta para suas angústias – que poderia vir na forma de um diário, de algum amuleto, de algum verso satânico ou, tudo menos isso, no formato de um pequeno embrulho de papel alumínio…

“Eu sempre desconfiei, mas não queria acreditar?”, disse o pai de Gina, numa voz quase inaudível, à companheira que havia decidido acompanhá-lo naquela imperdoável transgressão. O pequeno embrulho que o pobre coitado tinha nas mãos revelou, depois de aberto, uma quantidade significativa de um pozinho escuro e completamente desconhecido para o velho casal. As lágrimas acorreram aos olhos da mãe de Gina antes que qualquer palavra saísse de sua boca. Em que momento ela tinha descuidado da educação da filha, ela pensava. Em que momento tinha errado. Que vergonha, que vergonha. Invadido pela cólera, o pai sacudiu a jovem Gina até que ela acordasse assustada.

“O que é esta porcaria que você anda escondendo nas suas coisas? É isto que te deixa assim, é?” Gina sentou-se, respirou fundo para se acalmar, acarinhou o bracinho fino e poroso da mãe chorosa e confessou a verdade. “Faz muito tempo que eu queria contar para vocês, mas nunca tive coragem. Isso é quinoa. Eu sou vegetariana”. Devastado pela revelação da jovem mas ao mesmo tempo cioso de que jamais poderia abrir mão da autoridade paterna, até para que os outros filhos não seguissem pelo mesmo caminho, o pai expulsou Gina de casa naquela mesma noite.

A literatura científica afirma que, desde que seus antepassados chegaram ao Brasil no século 18, a bordo de navios negreiros vindos da África, Gina foi a primeira fêmea de mosquito Aedes Aegypti a ser banida de casa por odiar o verão e mostrar-se avessa a sangue. A última vez em que foi vista, segundos relatos não comprovados, Gina repousava feliz na gôndola de uma loja de produtos orgânicos da Vila Madalena. Nunca teve filhos.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas