Coluna

"Há um consenso sobre o inverno: todos nós ficamos mais elegantes. Menos eu!"

Por Sérgio Roveri -

Há alguns dias o jornal Folha de S.Paulo publicou uma matéria sobre o aumento no consumo de vinho e a consequente queda nas vendas de cerveja na cidade – prova de que o verão está se despedindo também das prateleiras dos supermercados. Tenho um amigo, produtor de teatro, que gosta muito de externar suas teorias envolvendo álcool e erotismo. Para ele, cerveja é uma bebida descompromissada, de turma, e tem a ver mais com balada do que com romantismo. Já o vinho, segundo ele, é dono de um caráter mais social, mais elegante, embora sua função não vá muito além do blá-blá-blá. Quando o interesse é que a conversa chegue logo aos finalmentes, a bebida indicada seria o uísque, que não estufa, ao contrário da cerveja, não entorpece como o vinho e ainda faz um bem danado para a libido. A conferir.

Mas como este não é um espaço dedicado à discussão das propriedades etílicas, chega de divagações. Fiquei feliz com a notícia publicada na Folha porque gosto mais de vinho do que de cerveja, e mais do frio do que do calor. Porém, depois de já ter passado por tantos invernos, posso afirmar que nem tudo é alegria nesta estação. O frio traz várias provações e até alguns riscos. Tenho dois gatos em casa, o Pirulito e a Ritinha. O sumiço deles é o primeiro sinal da chegada do inverno. Grandes e incansáveis companheiros no verão e na primavera, no inverno eles me abandonam aparentemente sem nenhuma culpa. Eu estendo uma manta sobre o sofá da sala e ali eles armam sua cabaninha. Abandonam o esconderijo rapidamente algumas vezes por dia, para comer, beber e usar a caixa de areia. Nada mais de brincadeira, nada mais de corrida pela casa, nada mais de tardes modorrentas na janela. Só os verei de novo em sua plenitude doméstica em setembro – até lá, um peixe, uma tartaruga e até mesmo uma boneca inflável seriam companhias mais afetuosas.

Agora vamos aos riscos. Tenho dois amigos que sofreram queimaduras consideráveis enquanto comiam fondue. Juro. Não estou brincando. Um deles se queimou na casa da namorada e precisou até de intervenção cirúrgica. O outro perdeu uma blusa para as chamas em um restaurante bacana de Pinheiros. Mesmo em meio à labareda, o staff do local manteve a compostura. O garçom se aproximou dele e disse elegantemente: “Me desculpe senhor, mas o senhor está pegando fogo”.

Parece haver um consenso sobre o inverno: todos ficamos mais elegantes. Há alguns anos, passei 15 dias de férias no Chile e trouxe de lá um gorro de lã bem supimpa. Não via a hora de os termômetros despencarem por aqui para que eu finalmente pudesse usá-lo. E o dia chegou. Era um sábado e eu tinha programado um teatro. Botei a cara para fora da janela, me certifiquei de que a orelha congelou em poucos segundos e então corri para o guarda-roupa. Vesti o gorro e saí do apartamento com o orgulho de quem acaba de comprar um carro novo. No elevador, entrou uma vizinha que imediatamente elevou o olhar para a minha cabeça. “Gorro é uma delícia, não é?”, disse ela. Eu concordei com o mais sincero dos meus sorrisos. “Pena que a gente fique tão ridículo”, completou. Silêncio de três andares. O elevador parou no térreo e ela se foi. Quando eu desci, no segundo subsolo do prédio, já estava sem o gorro. E juro que até hoje não sei aonde ele foi parar…

Queimaduras e humilhações… o inverno sabe ser cruel até com quem gosta tanto dele.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Suacoluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas