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As minas do longboard dancing estão ressuscitando o estilo livre do skate

Por Eduardo Ribeiro -

A modalidade longboard dancing vem se destacando cada vez mais no cenário do skate, e o Brasil é um dos países mais bem representados nesse rolê, principalmente pela visibilidade do coletivo Guanabara Boards, fundado pelo skatista de longa-data Alex Batista. O que se vê no Rio de Janeiro, onde nasceu o coletivo, e em outros lugares do mundo, é um resgate do freestyle dos anos 1980 transposto ao longboard. Nas antigas, nomes como Bruce Walker já faziam isso, e parecia mesmo que eles estavam dançando balé sobre o skate em movimento. Mas aí o street skate se popularizou, nos anos 1990, e o lance deu uma miada. Com a evolução tecnológica recente, porém, a angulação maior dos eixos de longboard, feitos para suportarem violentos carves em curvas de ladeira, deu mais qualidade também à performance no flatground, ressuscitando a prática. Foi a combinação das tricks do freestyle dos anos 1980 com o jogo de corpo do downhill slide e a plástica do footwork que deu origem ao dancing atual.

O vídeo The Girls of Guanabara, dirigido pelo americano fera dos vídeos de skate Brett Novak e a inglesa Teresa Madeline, com lançamento previsto para até o final do ano no canal da Guanabara Boards no YouTube, retrata justamente a evolução do longboard dancing nacional em seu melhor momento. E com um recorte único (assista aqui, aqui, aqui e aqui algumas cenas raws que estarão presentes no filme). A produção estrelará especificamente as mulheres integrantes do coletivo, num retrato inspirado pelo conceito do clássico vídeo de skate Public Domain, da Powell-Peralta, em que Stacy Peralta abre a narrativa dentro de um casarão com uma decoração bem louca, vai até a varanda, dá um 360º e sai pra desbravar o concreto da cidade com os amigos. Aqui, acontece a mesma coisa. Ana Maria Suzano, Sara Watanabe e a própria Teresa surgem explorando com habilidade e fluência impressionantes picos do Rio que parecem até desenhados para o long dance.

Longboard Dancing Guanabara Boards Rio de Janeiro
A partir da esq., em sentido horário: Beatriz Gavelak, Teresa Madeline, Sara Watanabe e Ana Maria Suzano
Fotos: Divulgacão/Guanabara Boards

“Quisemos fazer o vídeo só com meninas porque achamos que as mulheres precisam ter representatividade no skate. Minha esposa [Teresa] veio com o lance do empoderamento feminino”, diz Alex, “pra mostrar que as meninas têm muita habilidade além da beleza. Por isso o vídeo foca mais nas manobras e na paisagem e momento do Rio de Janeiro durante o qual produzimos o vídeo, durante o carnaval de 2017.” Segundo ele, não só o Brasil, mas também a Coreia do Sul, França, Espanha, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Holanda e China, contam com praticantes desse desdobramento do freestyle.

Quem tem vivência na remada de skate pelas ruas e pistas sabe que na cena do long rolam menos dogmas em relação a estilo e combinação de manobras. Tal receptividade, acredita Alex, está entre os fatores mais importantes para o crescimento de interessados. “Mas posso afirmar”, chama a atenção, “e não por ego, que foram os vídeos que andamos fazendo desde 2013, principalmente os da Ana Maria Suzano.” O que ele diz é verdade. Ana surgiu aos 14 anos num panorama em que as pessoas só mandavam carving em cima do pranchão e introduziu os pivôs e giros, e o footwork, o cross step, o Peter Pan [cruzando as pernas de frente], flips, backwards, g-turns e shove-its. A galera ficou de cara. Os vídeos dela já ultrapassaram a soma dos 80 milhões de visualizações. O mais famoso é o que a mostra de vestido branco fazendo um balé descalça sobre o skate. Com sua notável desenvoltura, ela influenciou a cena da Coreia inteira. “As minas de lá só andam de vestido ou saia, em razão de terem sido influenciadas por esse vídeo”, relata Alex.

Quando começou a andar de skate, Ana foi gradualmente abandonando os outros esportes que praticava, no caso, vôlei e handball. “O skate me conquistou de primeira”, conta. “Era o único momento em que eu tinha um tempo só pra mim e podia relaxar, curtir sozinha e pensar nas coisas que estavam acontecendo. Foi isso que mais me atraiu na modalidade: poder me expressar com toda a singularidade que o longboard permite.” Atualmente, ela mora em Vitória, Espírito Santo, mas cresceu na orla de Camburi, no Rio, e foi lá que aprendeu a manobrar. “Quando vou ao Rio, a orla continua sendo o meu pico preferido, mas também gosto de andar no espaço do MAM e na Praça Mauá.”

Longboard Dancing Guanabara Boards Rio de Janeiro
Teresa Madeline e Ana Marina Suzano

Na opinião da skatista, o mais legal do vídeo em fase final de edição é que mostra a beleza da paisagem carioca em harmonia com os movimentos da dança no skate. “O vídeo conseguiu, com todo o talento e a originalidade das lentes do Brett, traduzir o clima que vivemos naqueles dias de gravação”, comemora Ana Maria Suzano. “Além disso, tenho que admitir que o skate me ensinou a ser mais malandra, principalmente porque gosto de andar à noite, quando os lugares ficam mais vazios.”

Sara Watanabe concorda, e frisa que a mensagem mais importante da produção é o empoderamento feminino. “Queremos mostrar o poder do long dancing”, diz ela. “Acho importante, já que, às vezes, rola um certo preconceito em relação às mulheres no rolê ou mesmo em campeonatos. A premiação nunca é igualitária, por exemplo. Juntas somos mais fortes e podemos conquistar mais espaço.” Entre as minas da crew, Sara é reconhecida pela perfeição de manobras como as variações de nose manual (equilibrar só com as rodas da frente), principalmente o swedish nose manual. No momento, ela treina para acertar o shove-it 360º (fazer o skate dar um giro completo sob os pés), entre uma variedade de novas manobras, mas nada com intenção de competir. “Levo o skate como algo pessoal e de puro lazer. Há quem leve para um lado competitivo e técnico, o que eu não curto, pois deixa de ser divertido”, opina.

Longboard Dancing Guanabara Boards Rio de Janeiro
Longboard Dancing Guanabara Boards Rio de Janeiro
Brett Novak registra Ana Maria e Sara em ação no Rio

Para a inglesa Teresa Madeline, tudo começou no surfe. Ela descobriu o esporte aquático na Austrália, onde morou por um ano, mas, de volta a Londres, não pôde mais praticar. A solução foi passar para o snowboard em visita a regiões montanhosas, até que, novamente morando na cidade, descobriu no longboard a melhor opção para sentir aquela mesma boa vibe na rotina urbana. “Enquanto curtia de skate, no entanto, percebi o quanto era raro ver mulheres andando também. Tanto, que quando saia por aí com o skate debaixo do braço no trem, as pessoas ficavam com os olhos pregados em mim”, recorda-se. “Então, decidi usar meu conhecimento profissional para começar um projeto de vídeo e blog para contar histórias de outras mulheres praticantes de esportes de board.”

As pesquisas da fotógrafa, filmmaker e escritora a trouxeram ao Brasil, onde começou a apurar pautas para um vídeo sobre mulheres skatistas daqui e acabou conhecendo o Alex, hoje seu companheiro, e a turma toda do coletivo Guanabara Boards. Foi assim que ela acabou entrando para a crew. Quer dizer, na verdade foi de um jeito mais doloroso. “Cheguei pra conhecer o pessoal e, ao descer uma ladeira, caí de cara no chão. O Alex me acudiu, me levou para o hospital, e este foi o nosso primeiro encontro [risos]. O resto é história”, brinca. Embora já mandasse bem no long, foi por aqui que ela descobriu e aprendeu o dancing. “Quis fazer este filme porque nunca existiu um registro do tipo que mostrasse o alto nível de habilidade e criatividade das mulheres no longboard. Faz parte da minha missão profissional e pessoal colaborar para uma mudança no discurso sobre representação feminina nos esportes radicais”, defende a idealizadora.

Foto de abertura: Da esq. para a dir., Ana Maria Suzano, Teresa Madeline, Beatriz Gavelak e Sara Watanabe | Crédito: Divulgação/Guanabara Boards