Coluna

MUSA, o maior museu subaquático do mundo

Por Carol Reymundez -

Apesar do impulso extra que os pés de pato me proporcionam, avanço lentamente por entre as ondas. Venta muito e o Caribe está revolto. Neste momento, nado sobre uma enorme bomba-relógio. Redonda e com um pavio em uma das pontas, me lembra as do Tom & Jerry. Está a uns cinco ou seis metros de distância, no fundo do mar. Me tranquiliza saber que ela não vai explodir.

A bomba-relógio é uma das 500 esculturas que integram o MUSA, o Museu Subaquático de Arte, criado alguns anos atrás em Cancún. Ele ainda está em construção e já é o maior do mundo: a cada verão submerge um novo lote de esculturas – o objetivo é chegar a mil delas.

 Museu Subaquático de Arte

O Colecionador de Sonhos Perdidos, O Homem em Chamas, A Jardineira da Esperança, A Última Ceia… As esculturas têm escala humana, são de cimento e estão distribuídas em várias galerias submarinas: o Parque Marinho Nacional Costa Ocidental da Isla Mujeres, Punta Cancún y Punta Nizuc.

 Museu Subaquático de Arte

Por quê? Para que?, me pergunto, enquanto passo por um homem afundado que parece ter comido todos os hambúrgueres do Mc Donald’s. Ele assiste TV deitado em um sofá, com uma lata de refrigerante na mão e um raminho de coral tapando os olhos. Tudo menos o coral é de cimento, e o objetivo do museu é esse: que tudo se transforme em corais.

Segundo estatísticas das Nações Unidas, nas décadas passadas foram perdidos mais de 40% do corais naturais – e cientistas estimam que, até 2050, haverá uma perda permanente de 80% deles. As pescas, o excesso de visitantes e os efeitos das alterações climáticas e os furacões são os principais responsáveis pelo enfraquecimento dos recifes de corais. Através dessas esculturas pretendem criar recifes artificiais que atrairão esponjas, corais e outros microorganismos.

 Museu Subaquático de Arte

O artista inglês que construiu essas esculturas, Jason deCaires Taylor, e que já havia criado outro museu submarino na ilha vulcânica de Granada, deve ser alguém sem muito ego. Pois a medida que a flora submarina avança, as obras de arte tendem a desaparecer. Vão perdendo suas características, trocam de cores, começam a serem cobertas de corais e estrelas do mar.

 Museu Subaquático de Arte

Raias rodeiam as peças, cavalos-marinhos as atravessam e cardumes de pequenos peixes-espadas zanzam ao redor. Segundo deCaires, trata-se de uma simbiose entre o homem, a arte e a natureza.E também serve para mostrar a ameaça que nossos oceanos estão enfrentando. Com a atenção concentrada nos novos recifes artificiais, o Recife Mesoamericano, o segundo maior do mundo, já pode descansar e se regenerar sem a pressão dos visitantes.

Nas diversas galerias no fundo do mar podemos ver um Fusca ou vários habitantes de Cancún que Taylor usou como modelo. Como Rosario, que foi a sua primeira professora de espanhol; Joaquín, um pescador local; ou Lily Chacón, em quem ele se inspirou para esculpir A Mulher Grávida.

 Museu Subaquático de Arte

Além da jornada artística, durante a excursão de snorkel é fundamental estar atento para descobrir os olhos negros de uma raia camuflada no fundo do mar, a boca de um peixe-papagaio que parece pintada de tão vermelha ou uma lagosta agachada em uma pedra, por exemplo.

Depois de um tempo nadando na água quente, volto ao barco onde continua tocando música latina enquanto marinheiros me oferecem uma margarita e me dizem que logo menos todas essas esculturas poderão ser vistas no Google Earth. Mas não será o mesmo.

Carolina Reymúndez é jornalista argentina especializada em viagens. Conhece 57 países e acaba de publicar El Mejor Trabajo de Mundo(SüdPol), seu primeiro livro de crônicas. Formada em ciência da comunicação, escreve para jornais, sites e revistas de toda América Latina e Espanha, e é fundadora do site Viajes Libres.