Lifestyle

O mundo cabe aqui: a moda democrática e diversa da Cë

Por Fabiana Corrêa -

Tudo junto é misturado pode ser um clichê, mas a expressão cabe bem demais na vida do casal Emerson Brandão, 34 anos e Chico Santinho, 44 anos, pra não usar agora. Um é professor de história, o outro é designer de produto. Um cresceu na periferia de São Paulo, o outro no interior do estado. Um é mais magro, o outro mais gordinho. Trabalham e moram juntos (com casamento marcado para dezembro). E, há pouco mais de um ano, criaram - juntos, claro - a Cë (cujo perfil no Instagram chama [@cejuntos], marca que produz roupas para gente como eles, diversa e fora dos padrões, embolando trabalho e vida pessoal, com araras de roupas no meio da sala de jantar e conversas sobre os rumos da empresa durante o café da manhã. “A gente tem um guarda-roupa com as peças da marca que é usado pelos dois sem separação”. Emerson e Chico criaram a marca com uma vontade bem simples. Queriam usar seu gosto por moda a favor de gente que não consegue usar as roupas de lojas tradicionais por não se encaixar nos padrões. “A gente não queria fazer roupa pra um único tipo de gente mas, principalmente, para quem quer se vestir bem e não encontra nada nas lojas do shopping”, diz Chico.

E assim começaram a costurar kaftans, camisas, saias masculinas - e a vender para os amigos com a ajuda da mãe de Emerson, que é costureira profissional. A coisa cresceu e, nesse ano, participaram de vários dos bazares de produção artesanal da cidade, berço de muitos novos artesãos e criadores de moda slow, como o Jardim Secreto e a Feira Alma. Até que colocaram suas peças nas araras da loja colaborativa Endossa e, mais recentemente, e no coletivo Little House, aberto em setembro, na Vila Madalena, em São Paulo. Mas a produção continua no Tatuapé, onde os dois vivem. “Estamos com todos os finais de semana tomados desde outubro até dezembro, só fazendo feiras. A gente adora ir e conhecer as pessoas que estão vestindo nossas peças”, diz Emerson. Nos últimos meses, a produção precisou de mais duas costureiras e os rolos de tecido se multiplicaram pela casa da dupla. “A gente não tinha ideia da proporção que ia tomar, começamos como algo paralelo e está virando nosso negócio principal.”

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Emerson (esq.) e Chico vestidos com roupas da marca | Fotos: JP Faria

A demanda cresceu por um motivo bem claro: as roupas da Cë são de fato sem gênero (não apenas peças de moletom que vestem qualquer um) e muito democráticas no tamanho - coisa que não se acha em lojas comuns, onde o 44 passou a ser o maior tamanho possível e hoje serve em quem antes usava 42. “Teve uma cliente que chorou porque, pela primeira vez, encontrou uma roupa que a deixava bonita”, conta Emerson. E, pra ir um pouco mais longe, os criadores da Cë queriam ver os meninos da periferia usando as saias que produzem também. “Queríamos fazer uma saia masculina pois a gente vê que a galera quer usar, mas nem todos podem pagar R$ 700 numa roupa. Tem que ser democrática no preço também”, diz Chico. E por isso as roupas da Cë giram em torno dos R$ 150.

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“Roupa é expressão e se vestir pode ser um ato político. Se eu compro uma roupa que dura cinco lavagens, estou contribuindo pra poluir o planeta”, diz Chico. Por isso os dois investiram em modelagens duradouras, que não têm muito a ver com moda, tecidos de alfaiataria e cortes clássicos, mas com um ar bem moderninho, como uma calça inspirada nas de terno, mas cheia de amarrações, usada por Chico nas fotos. "A gente não usa tecidos ecológicos porque ainda não dá, não temos acesso, ficaria caro. Mas fazemos uma roupa que tenha um estilo duradouro, assim ela não vai para o lixo daqui três meses", diz Chico. Fazer roupa, para os dois, é levantar uma bandeira. Ou muitas, que podem ser hasteadas por causas diversas como as modelagens das roupas feitas pela Laura, a mãe do Emerson.