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A designer brasileira Mari Giudicelli faz os sapatos do momento em NY

Por Fabiana Corrêa -

Em 2015, ano em que lançou sua primeira coleção, recém-formada no Fashion Institute of Technology, Mari Giudicelli chegou em casa e viu seu apartamento no Brooklyn, NY, pegando fogo. Esperou por três horas do lado de fora, até que os bombeiros a deixassem entrar, e foi conferir o que havia restado. Procurou logo por fotografias, documentos, um anel que havia ganhado de presente de sua avó e a câmera que foi do avô - mas livros, roupas e móveis tinham ido embora. “A partir daí, entrei no modo de sobrevivência. Vi que precisava de pouco para viver e pude focar no que era realmente importante. Me dediquei 100% ao meu trabalho”.

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Manter o foco teve resultados. No ano seguinte, os sapatos da grife que leva seu nome entraram para a lista de desejos das editoras de moda de NY, seu perfil no Instagram ganhou milhares de seguidores (hoje são mais de 63 mil) e seu nome figurou no New York Times, na W, Kinfolk, Vogue. Todo mundo queria a elegância despretensiosa de suas criações, aquele ar clássico com uma certa displicência contemporânea, a mesma qualidade que Mari desfila nas passarelas durante a NY Fashion Week, já que atuou como modelo para designers independentes como Ulla Johnson, Ekhaus Latta e Maryam Nassir Zadeh.

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Maryam, aliás, virou sua mentora e revende os sapatos em sua loja super descolada no Lower East Side, em Manhattan. Agora, a antiga pupila se prepara para lançar sua parceria com a Zerezes, que faz os óculos de madeira reciclada mais desejados da orla do Rio de Janeiro. “Conheci o Hugo [Galindo, um dos fundadores da Zerezes] em uma das vezes em que voltei pra lá. Sou fã do trabalho deles e temos muito em comum”, diz Mari, que nasceu e cresceu no Humaitá, na zona sul carioca, deixou a faculdade de design para estudar moda nos Estados Unidos e por lá ficou. "Tenho saudade da natureza, preciso ver céu azul e mar de vez em quando", diz. No mês que vem, os óculos devem chegar às lojas. “São três modelos bem clássicos”.

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Clássicos também são os sapatos de Mari Giudicelli. Mas, se você olhar de perto, logo vê que eles não têm nada de antigo. Fazem um estilo contemporâneo mas conservam algo daquela época em que as mulheres idealizadas pelos estilistas eram nada menos que muito chiques. Algo de Chanel ou Dior. Do mesmo jeito que Mari combina jeans vintage comprados em brechós da vizinhança de Williamsburg com casacos de designers descolados, calça uma de suas mules e você percebe que há algo além do básico ali, mas não sabe explicar o quê.

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Suas mules, scarpins e loafers são feito para mulheres que andam. Parece óbvio, mas nem todos os designers de sapatos têm essa noção em mente. E esse é um dos motivos pelos quais os pares são tão disputados. “Eu priorizo o conforto e materiais que durem. Eu encontrei um buraco no mercado e investi em sapatos clássicos e confortáveis, que não seguem tendência”, diz. Infelizmente os modelos ainda não chegaram por aqui.

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Desenhados no ateliê que fica na esquina de sua casa, os sapatos assinados pela designer são feitos em uma fábrica em Franca, no interior de São Paulo. Mari rodou o mundo, mas acabou desembarcando aqui para buscar um parceiro que entendesse o que ela queria fazer. “Procurei fornecedores em diversos lugares do mundo e vi que fazia mais sentido fabricar no Brasil. Eles abraçaram o projeto”, diz.

No Brasil também são feitos os saltos de madeira de reflorestamento esculpidos e as peças em couro macio ou seda. Vira e mexe, Mari responde em seu Instagram às pessoas que questionam o uso de pele de animais na fabricação. "Eu já pesquisei materiais alternativos, mas o plástico estraga mais rapidamente, demora mais para se decompor, não respira. E eu faço um sapato para durar muitos anos, se for bem cuidado. Não é algo para trocar toda estação."

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Um dos modelos mais vendidos é a mule Leblon (de camurça marrom). Sim, seu Rio de Janeiro Natal está também no nome de seus sapatos. "Amo morar em Nova York e vi que teria mais futuro por aqui, gosto de rodar o mundo para buscar inspiração, mas acho que me mudei para o Brooklyn [ela morava no Lower East Side] procurando um pouco mais de céu, de horizonte, algo que preciso pois cresci perto na natureza. Volto ao Brasil para me alimentar disso também."

Apesar de ter rodado pelo Japão, Itália e Novo México, para citar algumas das últimas viagens em que buscou inspiração para suas coleções, vira e mexe, Mari está andando pelas areias de Caraíva, na Bahia, ou de alguma outra praia do nordeste. Descalça.

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