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ONG empodera artesãs e oferece o melhor tour da capital de Ruanda

Por Bruna Tiussu -

A reação é quase sempre a mesma: turistas de todas as partes do planeta ficam boquiabertos diante dos vestidos estampados, das bolsas ultracoloridas e das cestas de sisal espalhadas pelas araras e prateleiras do Nyamirambo Women’s Center. Misto de loja e ateliê de costura, o espaço é também o “bunker” do mais famoso grupo mulheres de Kigali, a capital de Ruanda.

Tudo começou em 2007, quando 12 amigas moradoras do bairro Nyamirambo se juntaram para tentar monetizar o que sabiam fazer de melhor — artesanatos. Receberam a ajuda de profissionais do mercado, organizaram-se como ONG e conquistaram seu espaço no mundo dos negócios. “Próximo daquele ano, havia sido aprovada uma lei que permitia mulheres obterem crédito. Daí a coisa andou. Mas eu nunca imaginei que estaríamos deste tamanho depois de dez anos”, conta Mary Nyangoma, 41 anos, uma das fundadoras do projeto.

Mulheres-artesãs em Kigali, Ruanda
Detalhe de uma artesã trabalhando e Mary Nyangoma, uma das fundadoras do centro | Fotos: Bruna Tiussu
Mulheres-artesãs em Kigali, Ruanda
Alguns dos produtos à venda na loja da ONG

O “deste tamanho” de Mary quer dizer um total de 55 artesãs empregadas e uma estrutura voltada para capacitar outras mulheres, a partir de aulas gratuitas de costura, computação e inglês. O sustento dessa verve de empoderamento feminino vem, em parte, do turismo. Pois as amigas moram em um dos bairros mais tradicionais e antigos de Kigali, e logo notaram o crescente interesse dos viajantes pelos seus cantinhos e pelo modo de vida da população. Tiveram a ideia, então, de montar um roteiro para apresentar o local aos forasteiros. Hoje é difícil achar um turista que esteve na capital de Ruanda e não gastou uma manhã na companhia de um dos guias da ONG.

Mulheres-artesãs em Kigali, Ruanda
Crianças brincam nas ruas de terra do bairro Nyamirambo

No TripAdvisor, o tour tem nota máxima e é cheio de elogios deixados por viajantes. Justifica-se. O passeio é a maneira mais autêntica de conhecer um típico mercado africano de frutas, verduras e legumes, de entender a importância de ir ao cabeleireiro para as mulheres locais e de ser apresentado a um bar de leite — sim, são locais de um produto só que ficam lotados ao fim do dia.

A disposição das casas, repletas de roupas compondo um incrível mosaico de varais e com banheiros e cozinhas compartilhados por famílias vizinhas, demonstram o sentido de comunidade vigente no país. Cenas paradoxais, como um homem falando num smartphone e outro passando roupa com ferro a carvão provam que Ruanda é uma boa mistura de passado e presente. E as muitas mesquitas que serviram de esconderijo para muita gente durante o genocídio são frequentadas por famílias e crianças mil, deixando claro que a nação conseguiu se reerguer com surpreendente força do fatídico massacre de 1994.

Mulheres-artesãs em Kigali, Ruanda
A fachada das casas repletas de roupas num varal improvisado
Mulheres-artesãs em Kigali, Ruanda
Um morador passa roupa com ferro a carvão

Depois de muita andança e história, o roteiro termina de volta no “bunker” das mulheres da ONG. É a chance de espiar as artesãs trabalhando, seja na máquina de costura, seja à mão. E de admirar com mais afinco — experimentar também, por quê não? — as roupas, os sapatos, as bijuterias e os demais produtos que levam a assinatura do Nyamirambo Women's Center. Afinal, é muita cor, muita africanidade e muito talento para deixar passar despercebido.
nwc-umutima.org

Mulheres-artesãs em Kigali, Ruanda
Detalhe das frutas e legumes no mercado central