Coluna

No meio do caminho tinha um poste

Por Sérgio Roveri -

Fazia um calor escaldante (eu sei que este é um clichê imperdoável, ainda mais no início de um texto, mas que culpa têm os manuais de redação se realmente fazia um calor escaldante) no meio da tarde daquela sexta-feira em que, para azedar ainda mais as coisas, o trânsito se mostrava duas doses acima do impossível. Eu estava na esquina das ruas Bela Cintra e Fernando de Albuquerque, mantendo uma postura enviesada para poder encaixar o corpo na sombra estreita de um poste. Como se fosse um dançarino de butô, eu realizava movimentos curtos e vagarosos para acompanhar o trajeto da sombra. As pessoas observavam aquela estranha coreografia. Mas, paciência, as pessoas sempre observam.

Eu estava ali à espera de um amigo, iríamos juntos para uma reunião no centro da cidade. Ele vinha do Morumbi e me prometeu carona. Estava mais de meia hora atrasado. A cada dois minutos ele compartilhava sua localização pelo whatsapp, como se isso fosse fazer o trânsito fluir mais rápido ou o sol parar de nos lamber com sua língua de fogo. A cada nova localização, eu percebia que ele tinha percorrido no máximo dois quarteirões, mas entendi que aquele gesto representava um pedido de desculpas pelo atraso. Era como se ele dissesse: estou tentando, mas o trânsito não ajuda.

Neste momento, um morador de rua, que vinha subindo lentamente pela Bela Cintra, decidiu posicionar-se ao meu lado na minúscula faixa de sombra que restava desocupada. Éramos nós dois a dividir a sombra de um poste magro e bastante esfolado. Ele olhou para mim fixamente. Constrangido diante do inesperado da situação, e talvez numa tentativa antecipada de me desculpar, eu disse que não tinha trocado. “Eu pedi alguma coisa?”, ele perguntou. “Eu só queria dizer que cara feia envelhece. Eu acho que sou mais novo que o senhor e pareço bem mais velho”. Ele perguntou a minha idade. Sim, era mais novo. Dez anos mais moço. “Viu só, eu era pra ficar de cara feia, não o senhor”. Não tive outra alternativa a não ser concordar com ele e começar a rir. Ele também abriu os lábios num sorriso em que despontavam não mais do que quatro dentes.

Continuamos à sombra do poste por mais alguns segundos. Ele voltou a olhar para mim. “Agora que o senhor está com a cara melhor, me dá aí dois reais”. Depois de pegar o dinheiro das minhas mãos (sim, eu tinha alguns trocados), ele continuou a subir a Bela Cintra. Meu amigo chegou dez minutos depois. Eu permanecia encaixado na sombra da poste, mas bem mais feliz.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas