Coluna

Meu passatempo predileto

Por Sérgio Roveri -

Um dos meus passatempos prediletos nestas viagens em grupo é tentar descobrir a quem pertencem (ou pertenceram) os fios de cabelo que a gente encontra na pia e no ralo do banheiro. Naquela manhã, após contemplar as calcinhas e sutiãs que secavam no cano do chuveiro, perdi alguns minutos neste intrigante quebra-cabeças genético. O fio loiro, de uns vinte centímetros, devia ser da menina mandona, aquela que promoveu a reforma agrária na casa e ordenou que os rapazes dormissem na sala…

O outro fio, ainda mais clarinho, só podia ser daquela menina que passou a viagem toda enviando mensagens pelo whatsapp, o que me fez crer que seus amigos de verdade não eram aqueles que estavam ao seu lado no carro… Deixe-me ver, aquele fio mais encaracolado devia ser…ah, não, melhor não pensar nisso. Concluí que devia haver um pouco de inveja e masoquismo no meu joguinho de adivinhação, já que nenhum daqueles fios longos tinha caído da minha própria cabeça – pelo menos não nos últimos anos…

Hora de desbravar a praia. Menos para mim. Expliquei ao grupo que eu não tinha dormido nada durante a noite e que se saísse naquela hora os banhistas iam me confundir com algum figurante de The Walking Dead. Com a debandada geral, fiquei com uma casa inteira para desbravar sozinho. Mas desisti disso também assim que encontrei uma mancha gigante de mofo debaixo da pia. Arrastei meu colchonete para um dos quartos, liguei o ventilador e, ainda que já fossem onze da manhã, desejei boa-noite a mim mesmo e engatei no sono. Fui acordado por volta das 15h pela menina mandona. “Já que você dormiu a manhã inteira, bem que podia ir comprar gelo. Tem um posto de gasolina na outra esquina”. Outra coisa legal em feriado na praia é que as padarias não tem pães e os postos não tem gelo. O que me salvou foi um mercadinho, a pelo menos cinco quilômetros da casa.

Ao voltar, deparei com um cenário estranho, uma espécie de déjvu. Todos ao redor da mesa, que estava posta com o mesmo cardápio do café da manhã: leite frio com Nescau, pão Pullmann com queijo e presunto, dois vidros de requeijão, dois de geleia e uma caixa grande sucrilhos. Enquanto descascava tranquilamente uma banana, a garota mandona explicou que o gás tinha acabado – e aquela era a refeição possível. O resto do dia cada um preencheu como quis: soneca, livros, passeios na praia, caipirinha no quiosque e, no caso da menina do cabelo clarinho, finalmente encontrar o pretê com quem ela não parava de falar pelo whatsapp.

Pelo menos alguém na casa já tirara a sorte grande. Tudo bem que ela não precisava ter escolhido a nossa casinha já tão superpovoada para conhecer melhor o rapaz, mas a gente não deixa de torcer pela felicidade alheia! E, pensando bem, claro que este primeiro contato poderia ter sido um pouco mais silencioso também. Mas, pelo menos no meu caso, que mal podiam fazer alguns gemidos noturnos? Eu não conseguia dormir mesmo por causa do calor e, afinal das contas, os tais gemidos até que quebraram a monotonia do ronco dos meus companheiros de sala. Quando o dia clareou e o sol voltou a iluminar o meu cenário de colchonetes suados, potes de requeijão sobre a mesa, mais cabelos na pia e uma trilha de areia que começava na rua e se espalhava por todos os cantos da casa, pensei que aquele era um dos momentos em que a vida nos exigia pulso firme: botei minhas coisas na mochila e deixei um bilhete, debaixo de uma latinha de Nescau, com uma desculpa daquelas bem esfarrapadas. Ao lado do bilhete, dez reais para ajudar na compra de um outro botijão de gás. Afinal, eles tinham mais três dias pela frente e seria bom uma comida quentinha.

Quando o ônibus me deixou no terminal Tietê, chovia em São Paulo. Olhei para aquela cidade cinzenta e finalmente compreendi que o lar do homem é seu castelo.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Suacoluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas