Coluna

O inferno não tem cortinas

Por Sérgio Roveri -

A história a seguir é baseada em fatos reais (pelo menos até onde a memória alcança):

Um amigo, que andava sumido havia um bom tempo, me ligou na véspera de um feriado prolongado para fazer um convite que, na opinião dele, e só na dele, era irrecusável: passar quatro dias numa casa de praia que ele tinha acabado de alugar. Nos últimos meses eu já havia dito tantos nãos aos seus convites (talvez por isso o seu prolongado sumiço) que resolvi aceitar, não sem antes perguntar como era a casa. “É uma casa com lugar para seis pessoas, mas que comporta dez. E fica a duas quadras da praia”. Sem argumentar que esta capacidade da casa desrespeitava todas as leis da física, perguntei apenas quantas pessoas iriam. “Não sei, eu ainda estou convidando”. Fui, meio a contragosto, mas fui. Chegamos depois da meia-noite. A casa ficava no mínimo a um quilômetro da praia…e éramos dez.

Assim que entramos, ouvi a primeira ordem, vinda de uma garota que eu conhecera um pouco antes, naquelas duas horas em que ficamos parados num congestionamento da Rodovia dos Tamoios: os dois quartos ficam para as meninas (as seis pessoas que cabiam na casa) e os meninos (aquele peso extra que a casa comportava) dormem na sala. Coube a mim um colchonete de no máximo cinco centímetros de espessura. Durante a noite, eu jurava que minhas costas podiam contar quantos vãos havia entre os tacos. Era uma noite excepcionalmente quente – e os dois ventiladores disponíveis, claro, ficaram em poder das meninas.

Eu tinha levado um lençol florido e sem elástico. Assim, todas as vezes em que eu me virava durante a noite, o lençol, grudado no suor das minhas costas, fazia de mim uma múmia envolta em rosas e margaridas. Devo ter pegado no sono lá pelas cinco da manhã – e acordei às seis, com os primeiros raios de sol do dia esbofeteando a minha cara. Não existe maneira pior de descobrir que uma casa não tem cortinas do que acordar com o nariz fritando. Arrastei o colchão para um canto mais escondido, mas às nove e meia da manhã o sol me descobriu ali também. Pensei comigo: bom, uma noite já foi. Agora só faltam mais três.

Levantei acreditando que um banho talvez melhorasse o meu humor. Pela quantidade de calcinhas e sutiãs que vi pendurados no cano do chuveiro e na parte superior do boxe, concluí que pelo menos três meninas tinham tido a mesma ideia. Olhando para o colorido daquelas peças íntimas sobre a minha cabeça, como bandeirinhas de uma festa junina estranhamente erótica, por um momento eu fiquei em dúvida se estava mesmo numa casa do litoral norte de São Paulo ou nas comemorações do São João de Campina Grande.

(Continua na próxima semana...)

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas