Coluna

A Mercearia São Pedro e o inverno que escapa da boca

Por Sérgio Roveri -

Nestas últimas semanas, em que o inverno vem sendo pisoteado por uma massa de ar quente que decidiu fixar residência sobre o Sudeste, deixando o mês de agosto com jeitão e temperaturas de fevereiro, a Mercearia São Pedro, uma espécie de restaurante-boteco-livraria da Vila Madalena frequentada por quem faz de tudo um pouco, voltou a colocar mesinhas nas calçadas. Nos poucos dias realmente frios desta temporada, que coincidiram com uma pequena reforma na parte interna, as mesinhas haviam sumido, deixando o local com ares mais intimistas. Se é que se pode empregar um adjetivo como este no caso da Mercearia, onde a happy hour começa às quatro da tarde e nunca termina antes da uma da manhã. Mas já que não se pode lutar sozinho contra uma massa de ar quente, dia desses coloquei uma bermuda, ignorei as pernas brancas e me sentei em uma daquelas mesinhas de calçada para almoçar.

Era uma dessas tardes (já ando preocupado, porque acho que são muitas) em que a gente decide que não está com pressa e, por isso, não se incomoda com prováveis demoras no atendimento. A mesa ao lado já estava ocupada por um cara de barba grande, vestindo camiseta de grupo de rock e sandálias de couro nos pés. Um tipo que lembrava muito o Marcelo Camelo, do Los Hermanos. Mas sem o romantismo do Marcelo Camelo. A namorada dele chegou alguns minutos depois. E já chegou bastante alterada.

A única maneira de eu não presenciar a situação espinhosa que já se anunciava era mudando de lugar. Mas quando a gente sai de casa para almoçar sozinho, não quer apenas comida, quer também um pouco de aventura. Resolvi ficar por ali mesmo. E o que veio a seguir não foi exatamente uma briga, já que é praticamente impossível brigar sozinho. O rapaz de barba não abriu a boca um instante sequer. Nem para engolir a cerveja que já esquentava no copo. Tudo o que foi dito partiu dela, uma sucessão de queixas sobre abandono, a falta da presença dele em momentos importantes da vida dela e a injusta distribuição de tarefas entre o casal. Sobrou até para o telefone celular do rapaz que, segundo a garota, àquela altura já com lágrimas nos olhos, estava sempre desligado.

E então ela disparou a frase mais triste que eu ouvi nos últimos tempos. E que foi exatamente esta:

“Eu sei que você não se interessa mais por mim. Mas pelo menos finja. Eu preciso tanto de você”.

Chegou meu almoço. E, com ele, a certeza de que uma frase assim é capaz de trazer o inverno de volta.