Coluna

O sol, a Soraia e o meu trauma de ir à praia

Por Sérgio Roveri -

– Eu acho que nós precisamos voltar um pouquinho no tempo. Tudo bem?

–Tudo.

–Você se recorda da primeira vez em que foi à praia?

–Claro. Eu tinha oito ou nove anos, no máximo. Meu pai tinha acabado de comprar o primeiro carro. E nós resolvemos visitar a família de um tio, que estava passando férias numa casa de praia alugada.

–E como foi?

–Na verdade, eu acho que fiquei um pouco decepcionado. O mar não tinha ondas. E eu morria de vontade de ver ondas. A areia também não era fofa e clarinha. Era uma areia escura, completamente sem graça. Era tão dura que não dava nem para deixar pegada. O mar também era escuro.

–Sei. E quanto tempo vocês ficaram na praia?

– Quase nada. Minha mãe teve tontura e a gente saiu rapidinho. A gente voltou umas três horas depois.

–E daí foi melhor?

– A gente voltou pra casa, eu quero dizer. Meu pai ficou com medo de pegar a serra à noite. Era a primeira vez que ele dirigia na estrada.

–Mas vocês não podiam ter dormido lá?

–É que a tontura da minha mãe piorou. Ela disse que estava com pressão baixa e que ia ter labirintite se não voltasse logo pra casa.

– E como foi sua segunda vez na praia? Eu acredito que houve uma segunda vez.

–Ô, se houve. Uma excursão do ginásio para o Rio de Janeiro. Quatro dias! Quarenta alunos e três professores. Nada de pais por perto. Nossa, o Rio, que maravilha. Aquilo sim era o que eu imaginava. Mar azul, areia branquinha, gente bonita.

–Quatro dias de praia, então?

– Um pouco menos… É que eu fiquei muito tempo no sol no primeiro dia e tive queimadura de primeiro grau. É que naquela época não se falava tanto em protetor solar, sabe… Daí precisei ficar dois dias sem sair do quarto, só passando pomada. Ardia que era um inferno. Só melhorava quando eu entrava na banheira com a água quase fria… Eu não reclamei porque eu nunca tinha tomado banho de banheira também…

–Então, dos quatro dias no Rio, você passou….

–Isso mesmo, meio dia na praia. Mas no sábado, último dia da excursão, teve uma viagem para Paraty, de balsa. Durante a travessia, eu fiquei numa sombra, assim, meio no canto. O sol estava pegando. Mas daí eu vi a Soraia, a menina mais bonita da classe. Sempre que eu tentava falar com ela, pelo menos em terra firme, ela fugia. Daquela vez, eu pensei, estamos no meio do Atlântico e ela não tem por onde escapar. Cheguei perto dela, com os movimentos um pouco limitados por conta dos ombros queimados, e lancei logo um oi. Ela mal respondeu. Foram segundos de pânico. Eu precisava pensar rapidamente em algo bacana para dizer a ela antes que a balsa atracasse e ela pudesse fugir de novo. Olhei bem para os olhos dela, enchi o peito de coragem e disparei a pergunta que eu julguei ser a mais apropriada para a ocasião: você já terminou aquele trabalho que a gente precisa entregar na segunda-feira? Ela me mandou à merda. Aquilo ardeu muito mais do que os ombros torrados.

O psiquiatra olha para o relógio e pousa a caneta na escrivaninha.

–O senhor acha, doutor, que tem a ver?

–Tem a ver o quê?

–Ah, esse lance de eu não gostar muito de praia até hoje.

–Semana que vem a gente prossegue a partir daí, pode ser?

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Suacoluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas