Coluna

Ordens médicas

Por Sérgio Roveri -

A partir de uma certa idade, e soaria muito deselegante aqui determinar qual, toda e qualquer visita a um consultório médico passa a ser sinônimo de restrição. Enquanto os anos avançam com seu caminhar implacável, nós temos de, gradualmente, aprender a dizer adeus a uma série de prazeres que os médicos acharam por bem tornar proibitivos: doces, sorvetes, gorduras, frituras, sal, refrigerantes, carne vermelha, pães, biscoitos.

Um dia, depois de constatar aterrorizado que esta lista não parava de crescer, resolvi confrontar o médico: “Doutor, se eu viver até os 90 anos, o que terá restado para eu comer?”, perguntei. “Com um pouco de sorte, uma folha de alface e um antidepressivo por dia”, ele respondeu. Até que, em uma recente consulta médica, eu fui presenteado com uma nova restrição que, ao contrário das anteriores, produziu em mim um verdadeiro frenesi. Depois de me examinar atentamente, com o auxílio de lupas e refletores, a simpática dermatologista decretou de maneira categórica: “A partir de hoje, nada mais de sol. Vamos combinar que o senhor já tomou sol demais na vida. Agora chega”.
Talvez a médica esperasse ver estampada em meu rosto a mais severa expressão de desespero. Para espanto dela, eu senti como se um grande sorriso se formasse em minhas entranhas, subisse pelo esôfago, atravessasse a garganta para finalmente explodir na minha boca no formato de uma única palavra: “Jura?” É provável que ela jamais tivesse visto em seu consultório reação tão efusiva diante de uma recomendação que, para a grande maioria dos mortais, seria o equivalente a uma sentença de morte. Mas não para mim.

Sem saber, a querida dermatologista nada mais fez do que me presentear com uma desculpa que, finalmente, seria aceita e quase respeitada por todos os amigos. Desde aquele dia, sempre que vejo pessoas esturricando ao sol, eu assumo a mais hipócrita das expressões, balanço a cabeça meio jururu e então revelo com os olhos parcialmente lacrimejantes: “Não posso mais tomar sol. Ordens médicas”. As lágrimas, confesso aqui, são de puro contentamento.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas