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Paulinho Moreira, da Oriba: moda para mudar a vida e o mundo

Por Fabiana Corrêa -

Paulinho Moreira faz moda quase que por acaso. Aliás, moda não, roupa. Sua marca masculina, a Oriba, com três lojas em São Paulo, não tem coleções ou peças que sigam as tendências da estação. As araras têm camisetas, camisas, calças e suéteres em modelagem e cores básicas — branco, cinza, marinho e preto — e um leque reduzido de peças. Na verdade, fazer roupa foi apenas uma maneira de realizar o que ele os dois sócios, Rodrigo Otani e Marcelo Collis, sonhavam em primeiro lugar. "Quando nos unimos, sabíamos que queríamos trabalhar de um jeito diferente, em ter uma vida mais flexível e criar algo que trouxesse alguma mudança para o mundo”.

Seria natural ter uma Ong mas, como Paulinho diz, “ninguém aqui é herdeiro. Precisamos nos sustentar”. Veio então a ideia de fazer a marca no modelo 1 para 1, como a americana Toms, que doa um par de sapatos a cada um vendido, para crianças que moram em lugares carentes. Na Oriba, a cada peça vendida, seja um casaco seja um pacote de café, é doado um um kit escolar com lápis, borracha e canetas para as crianças da Obra do Berço, Ong da comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo.

Antes de criar a história do 1 para 1, os donos da Oriba foram pesquisar a qual dos problemas brasileiros eles queriam dar sua contribuição. “Vimos escolas em que os professores tinham que comprar lápis para os alunos pois eles não tinham nenhum material. Daí veio a ideia de montar um kit simples, mas que fosse doado com qualquer compra”.

A entrega dos kits é levada a sério. Perguntei a ele sobre um dia em que cheguei na loja e as portas estavam fechadas. “A gente convida todos os funcionários para fazer a entrega do material duas vezes por ano. Esse ano abrimos espaço também para que dessem palestras sobre algo que curtem. Falaram de fotografia, estilo, empreendedorismo.”

Para a galera da Oriba, a sustentabilidade está na maneira como a marca foi pensada. "A gente quer fazer uma roupa bonita e de qualidade, com materiais e modelagem que durem. Isso já é um motivo para poluir menos porque a pessoa vai ter - e usar - a roupa por muito mais tempo", diz. A modelagem básica e também ajuda a não incentivar o consumo desenfreado. As fábricas, o mais perto possível das lojas, são escolhidas entre as que melhor remuneram os funcionários. "Nossa roupa não é barata. É um preço justo para quem faz e para quem compra. A gente quer trazer essa forma de pensar diferente, de não querer vender pelo preço mais barato, mas pelo mais justo com todos os envolvidos na produção."

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Foi por essa vontade de mudança — no mundo e na própria vida — que Paulinho deixou a carreira em publicidade e a agência onde atuava como diretor de arte há quatro anos. “Hoje a gente trabalha o mesmo número de horas, mas com flexibilidade. É bacana sentir-se dono de seu tempo”.

De vez em quando um amigo liga e pergunta: "Você está em Pinheiros? Tô passando aí pra tomar um café!”. Como flexibilidade não significa férias, ele tenta explicar que está trabalhando — mas muitas vezes não dá muito certo. “Aí acabo recebendo as pessoas em nosso café (risos). Essa troca também faz parte do trabalho e, já que agora sou dono do meu tempo, posso fazer essas pausas de vez em quando.".

E quando Paulo fala café, ele está falando sério. Com a criação da marca veio a ideia de vender um blend próprio de grãos que pode ser provado no balcão ao fundo da loja de Pinheiros, onde Paulo nos recebeu, e nas mesinhas perto da vitrine. "A gente fez um ambiente exatamente para ter essa interação, para que as pessoas não venham aqui só para comprar”, diz. "Posso não ter férias longas todo ano, mas encontro esse tempo para fazer outras coisas que me dão prazer.”

Entre essas coisas que dão prazer, está a música. Paulinho é filho do cantor William Sant'anna, da banda Placa Luminosa, que nas décadas de 80 e 90 fez sucesso com trilha de novela e chegou a se apresentar no Rock in Rio (quem assistiu a novela Top Model, com Malu Mader no auge da fama, vai lembrar do refrão “O nosso amor é lindo/Tão lindo/ Nada pode ser mais lindo/ Do que o nosso amor"). E, ainda que Paulinho atue mais como “conselheiro" do pai, como gosta de dizer, chegou a escrever a letra de duas canções de seu novo disco, Idas e Vindas, em que William apresente músicas com um ar de rhythm'n'blues e a voz potente de sempre. “Fora isso, ajudo na produção do show, cuidei da parte gráfica, da capa, dei palpites (risos)", conta. "Eu cresci em um ambiente bem artístico. Meu pai cantava - e minha mãe costurava o figurino dos shows pois a gente não tinha muita grana para isso", diz. Hoje, quem faz o trabalho de figurino é Paulinho - com peças da Oriba, claro. Um pouco mais básico e minimalista que no passado. E elegante como ele.

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Fotos: JP Faria