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Quando se é pobre, tudo é milagre – mas os meus são mesmo, eu juro!

Por Eloá Orazem -

Certeza que em um desses “li e aceito os termos dos contratos” que eu tiquei sem nunca ler porcaria nenhuma tinha uma cláusula em que eu fazia voto de pobreza.

Minha vida franciscana em Los Angeles é um morde e assopra divino, porque Deus, duendes, ninjas ou sei lá o que destilam na minha vida todo o sarcasmo que pouparam quando escreviam os destinos da Taylor Swift, da Beyoncé e de toda essa gente sortuda que não precisa se preocupar com a cotação do dólar.

Digo sarcasmo porque o Cara (minha família é católica, então vou na deles porque é meu modus operandi) me tortura uma semana inteirinha e, quando eu tô pra desistir, solta um pequeno milagre.

E como eu virei expert na arte de fazer migalhas virarem banquetes, encaro tudo isso como um sinal e continuo seguindo a cenoura diante dos meus olhos.

deus

Desde que cheguei nessa cidade eu camelo atrás de um cantinho meu, porque eu prometi pros meus pais que não dormiria em praças e praias e que não viraria sem teto.

Confesso que faltou muito pouco (muito mesmo!), para quebrar o pacto – e eu até cheguei a visitar o acampamento de uns ripongas em Venice, pra ver se dava pra encarar.

E, olha, o estilo de vida deles até que tá na moda e ficaria lindo na minha biografia (o.k., no meu Instagram mesmo), mas a catinga da rapaziada não perdoa quem tem nariz. Acho que o lugar é seguro pelo mau cheiro mesmo: ladrão ali tem que chegar com máscara de gás.

Descartada essa hipótese, intensifiquei a busca por um roomate e, como já contei aqui, não deu certo. Era quase escolher entre perder a sanidade e a “sanitariedade”.

Fui pro ataque das quitinetes, mas, porra, com tanto pobre nessa cidade a competição tava foda. Cheguei a me apaixonar por um studiozinho um pouco maior que o meu corpo, numa região o.k. da cidade, e me enchi de esperança quando preenchi a papelada, porque fui a primeira a chegar.

escrevendo a coluna na minha casa minuscula

Mas como alegria de pobre dura pouco, até o final do dia éramos 35 (TRINTA E FUCKING CINCO) pessoas disputando aquele projeto de apartamento, que não tinha garagem, segurança e nem armário. Perdi, playboy.

Gastei mais uns tanques de gasolina batendo de porta em porta, fazendo um intensivão com os Testemunhas de Jeová, e, assim como eles, só ouvia “não” como resposta. Aparentemente a minha falta de histórico de crédito seria uma barreira intransponível.

Aí, depois de gargalhar um bocado com o meu desespero e pobreza, o Fanfarrão celestial colocou um apezinho pra locação na região mais bacana da cidade. O preço era o.k. – tava no limite do que eu queria/podia gastar.

Já antecipando o “não”, desencanei de ir, mas mudei de ideia quando pintou um frila no bairro vizinho. Eu seria babá de um filhotinho de cachorro por algumas horas e resolvi aproveitar a viagem (leia gasosa; leia dinheiro) para dar o tiro da misericórdia.

Estaciono a minha charretinha branca na esquina e começo a andar na direção da quitinete. Tô cinco minutos adiantada, então resolvo esperar na mureta a chegada do cara que “guiaria” a minha visita. Avisto uma Mercedes conversível taxiando a região e conferindo a numeração.

Já penso que é concorrência e… batata!

O cara é um rapaz canadense que veio estudar em UCLA e acabou ficando, graças a um bom emprego. Tento nem olhar muito os detalhes do apê, pra não sofrer, e vou embora em 5 minutos, mas pego a papelada mesmo assim.

Preencho, assino e encaminho os benditos dos contratos, deixando vários campos em branco por falta de histórico. Encaminho tudo pro email descrito nas instruções e espero. Na terça-feira o telefone toca e a moça pede para que eu vá até o apartamento assinar o contrato formal de locação: fui a escolhida!

Com um sorriso que não cabia em mim (menos ainda na quitinete), cumprimento e agradeço à senhora japonesa que me escolheu. “Minha filha, sei bem o que é chegar nesse país e não ter toda a documentação necessária. Recebi várias propostas e tava entre você e outra moça, mas você precisa mais de ajuda”, explicou a Yoko Ono versão “love is all you need”.

Mudei faz alguns dias e desde então durmo em um colchão de ar. Não tenho garfo, colher, cadeiras nem nada. Mas pelo menos tenho um teto e um banheiro para chamar de meu. Ah, e eu já falei que tô num bairro todo paquito de Los Angeles? Disseram que o Ben Affleck mora aqui, e eu tô sassaricando pelas ruas para saber se, depois da babá, ele encara a vizinha!

E como Deus tá de bom humor esta semana, ontem eu fui lavar as roupas pela primeira vez na casa nova. Esqueci os trapos todos na secadora por quase duas horas. Quando fui ao resgate dos meus únicos bens nesse país, o que eu encontro? DEZ doletas!!!!!!!!!

Esse monte de ponto de exclamação sim, porque eu fiz uma puta festa. Seria isso um sinal divino de que eu tô no caminho certo? Seja como for, eu vou resgatar a minha experiência como Testemunha de Jeová e sair por aí batendo na porta da galera pra levar a mensagem do Senhor.

Quem sabe assim eu não dou a sorte de bater na porta da mansão do delícia do Ben? Já pensou?