Coluna

Receita para virar Globeleza

Por Sérgio Roveri -

Nasci e fui criado em uma cidade do interior a duas horas e meia de carro da praia mais próxima. Hoje é o que se gasta, em alguns dias, para ir de um bairro a outro de São Paulo, mas naquela época, pelas minhas contas de menino, era quase como sair do Estado.

Nos meus tempos de garoto, tenho quase certeza de que não havia protetor solar – se havia, eles nunca tinham passado perto da farmácia do bairro, onde só era possível encontrar, e apenas no alto verão, uma ou duas marcas de bronzeadores. Só muito, mas muito depois de o homem ter chegado à Lua, é que fui ouvir sobre a existência dos raios UVA e UVB. E, até hoje, confesso que não sei direito a diferença entre eles e, acima de tudo, se servem para alguma coisa. Se é que servem.

Hoje pode parecer uma temeridade, e de fato é, mas passei parte da minha infância e início da adolescência tendo contato com fórmulas caseiras de bronzeadores. Nunca cheguei perto de nenhuma, mas as vizinhas e as primas testavam alguns experimentos no liquidificador que, asseguravam elas, eram capazes de transformar uma sueca em mulata Globeleza em um único dia.

E Silmara, irmã mais nova do Wilson, um dos meus melhores amigos de infância, resolveu testar na própria pele uma saborosa receita que levava um litro de coca-cola e uma lata de leite condensado.

Modo de fazer: misture a coca-cola com o leite condensado no liquidificador e bata por alguns minutos. Espalhe a mistura de maneira uniforme sobre a pele e deite-se ao sol. Tempo de cozimento: no caso de Silmara, foram três horas numa praia de Caraguatatuba.

No dia seguinte, a garota foi internada com queimaduras de segundo grau. Voltou para casa três dias depois, com o abdome e as pernas enfaixadas. Embora tenha passado ligeiramente do ponto, o bronzeado de Silmara tornou-se a atração do bairro pelas semanas seguintes. Os vizinhos faziam fila para visitá-la e os mais sádicos esperavam para ir bem na hora em que a mãe de Silmara trocava as ataduras da garota.

Lembro de uma vizinha apocalíptica que, ao sair da casa da nossa pequena miss sunshine calcinada, balançou a cabeça e decretou: ela está tão queimada, mas tão queimada, que acho que nunca vai poder ter filhos.

Na época, embora garoto do interior, eu já suspeitava que algumas bolhas nas coxas não deviam inibir o funcionamento de útero e ovários, mas mesmo assim fiquei com aquela profecia martelando minha cabeça por muito tempo. Já adulto, e morando em outra cidade, um dia me recordei da história e resolvi consultar minha mãe sobre o destino de Silmara. “Ela está ótima. Casou com um moço muito bom e já tem três filhos.”

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas