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Luis Fernando, da Peixaria Mitsugi, e o porquê de todo esse hype

Por Fabiana Corrêa -

“Tenho horror a essa história de empreendedorismo, acho que é um sintoma extremo do capitalismo”, diz Luis Fernando Santos, 33 anos, o dono da Peixaria Mitsugi, na Liberdade, bairro japonês de São Paulo. Mas o fato é que, em março de 2017, Luís comprou uma tradicional peixaria, que estava no fundo de uma galeria sem grandes atrativos, e a transformou em um dos restaurantes mais desejados da cidade. Sem contar as festas disputadíssimas. Foi lá que Gavin Rayna, que comanda os sintetizadores do LCD Soundsystem, tocou depois do show que fizeram no Lollapalooza, só pra começo de conversa.

Eu insisti mais um pouco, mas ele detesta rótulos, por isso não atribui todo esse sucesso à sua veia empreendedora. "Então o que foi, networking?”, pergunto. Também não. “Networking é coisa de um estrato social do qual nunca fiz parte. Vim de uma família classe média baixa do Sacomã, não estudei em escola cara. Antes da Peixaria, meus posts no Facebook tinham 10 likes”, diz, quase como uma declaração de originalidade. Para Luis, as filas para almoçar em seu restaurante têm a ver com uma coisa só: amor. “Eu sou muito coração e sentia isso nesse lugar. O amor do seu Mitsugi pelo que fazia estava decantado na comida, em cada filé de peixe”.

O peixeiro e sushiman Antonio, parceiro antigo | Foto: Thays Bittar

Entre dois copos de uísque & tônica e alguns cigarros, fechado em uma salinha sobre a galeria que virou seu escritório, Luís conta que foi cliente do lugar durante dez anos. Era na peixaria do seu Sozaburo Mitsugi que ele procurava o melhor peixe fresco quando queria preparar um jantar para os amigos em sua casa, na Bela Vista, bairro vizinho à Liberdade. "Em 10 anos, nunca comprei um peixe mais ou menos. Era tudo de muita qualidade.”

Durante essa década, ficou amigo de Antonio Silva, o peixeiro e sushiman maranhense que começou a trabalhar lá há 20 anos e, no início, detestava sushi. Mas virou peça essencial na história da peixaria e indispensável na equipe atual. “Valorizo quem trabalha comigo, são eles que fazem o lugar. O Antonio é parceiro, a Peixaria existe porque ele está aqui”, diz.

A ideia do negócio surgiu exatamente depois de uma conversa com Antonio, durante um churrasco de final de ano na casa de Luis. Depois da morte do fundador, em 2012, o maranhense herdou a peixaria, mas não entendia nada de gestão. Cinco anos depois, decidiu que era o momento de fechar, antes que as dívidas viessem. “Perguntei o que ele precisava para manter aberto", lembra.

Contas feitas, Luis decidiu investir suas economias, os 300 mil reais que havia separado para dar um bom tempo do trabalho, no novo negócio. “Coloquei tudo o que eu tinha juntado na vida aqui, simplesmente porque não conseguia imaginar esse lugar fechando. Comprei o restaurante para continuar comendo nele, basicamente”.

Foto: Thays Bittar

Ainda que não se defina como empreendedor, teve que virar empresário às pressas, contrariando os planos que havia traçado um ano antes, quando deixou o cargo de diretor de planejamento da agência de publicidade Africa. "Pensei em tirar um tempo para estudar e atender meus pacientes. Quando vi, estava comprando azulejos para a reforma".

Luis é psicanalista e atende em um consultório em Pinheiros duas vezes por semana. Ao tirar um sabático, no ano passado, a ideia era trabalhar menos e estudar muito, buscar seu caminho próprio na psicanálise já que, obviamente, ele não queria seguir os rumos tradicionais. "Gosto de pensar a partir do meu próprio conteúdo e de minhas próprias experiências. Sou um rebelde."

Foto: Thays Bittar

No começo, decidiu que faria um restaurante e botou oito mesinhas de frente para o balcão. Antonio, além de peixeiro, seria o sushiman. Os pratos eram muito simples: peixe bom, bem cortado, vendido por peso. E dois novos produtos foram acrescentados ao "cardápio" original: arroz e missoshiro, com uma receita que aprendeu no Aska, restaurante vizinho de lámen. E o sucesso foi imediato. Aos finais de semana, chega a ter 100 pessoas sentadas por turno – ou mais de 300 comensais no período de almoço.

Foto: Thays Bittar

“Mas o problema é que eu adoro uma festa”, diz, rindo e dando mais uma tragada. Um dia, havia 400 garrafas de cerveja perto da data de vencimento no estoque do restaurante. “Pensei: faço uma festinha e o que sobrar eu levo pra casa, não vou jogar cerveja boa fora”. Postou o convite no Facebook e o evento bombou. Luis vendeu 1.000 garrafas de cerveja e não parou mais. “São festas democráticas e atraem todo mundo que importa. Outro dia olhei e a Léa T. tava aqui. Gente, a Linn da Quebrada fez show aqui! E vou dizer: não tem VIP. Aliás, tem 10 VIPs: meu pai, minha mãe e mais 8 amigos. De resto, todo mundo paga barato e entra. Sem frescura”.

Foto: Danila Bustamante

O ingressos custam em torno dos R$ 20, mas se você não chegar cedo pode esquecer – os eventos chegam a ter mais de 1000 pessoas confirmadas no Facebook, mas o lugar comporta pouco mais de 200.

Se o sucesso nas mesas tem a ver com Antonio, o sucesso das festas tem participação de Gustavo Abreu (no pick-up, acima), o DJ Goos, amigo de Luís que faz a curadoria de pequenos shows e DJs que passam por ali. “Outro dia ele tocou no Orfeu e o cartaz dizia 'DJ Goos (Peixaria)'. Achei um barato, a gente já está tendo essa visibilidade”, diz Luis.

Foto: Thays Bittar

Para provar que não tem nada a ver com a onda de empreendedorismo que toma conta do mundo, Luís diz que agora não sabe exatamente seus próximos passos. "A Peixaria aconteceu comigo e o Antonio sonhando juntos e gosto muito de estar aqui, de comer no balcão, de fazer as festas. É um baita prazer. Não sei o que vai ser no futuro, só sei que quero continuar servindo o melhor sashimi de São Paulo para sempre."

R. Galvão Bueno, 364
@peixariamitsugi