Coluna

Sérgio Roveri: a cigarra, a formiga e a intolerância

Por Sérgio Roveri -

Flávia morava a apenas trinta metros do trabalho. Pode parecer pouco, mas quando se é uma formiga de apenas um centímetro, esta distância equivale a dois ônibus e um metrô. No caminho do trabalho – na verdade, o caminho era o seu trabalho – Flávia costumava recolher partículas microscópicas de galhos e folhas. Depois de várias viagens, desabava exausta no chão do formigueiro e não tinha ânimo para conversar com ninguém. Embora vivesse entre formigas, uma espécie notória por sua abusiva e autoimposta carga de trabalho, ainda assim Flávia era considerada uma workaholic pelas amigas. Odiava churrascos – talvez por ter queimado as costas naquela vez em que tentou transportar uma pequena brasa para casa – feriados e as tardes de domingo. Mas Flávia odiava, acima de tudo, a propensão para o ócio da vizinha Silmara, uma cigarra que se punha a cantar quando o sol surgia e só sossegava a garganta quando via as primeiras estrelas. Em sua ingenuidade, Flávia achava que cantar era moleza, coisa de gente de braço curto. Aliás, Flávia também odiava esta comparação, pois ela, dona de braços curtos, trabalhava feito um burro de carga.

À medida que as semanas passavam, Flávia se deu conta que o objeto do seu ódio não era exatamente Silmara, e sim seu limitado repertório, composto apenas de duas canções de Ivete Sangalo, uma do Latino e outra do Chiclete com Banana, artistas que, na opinião da cigarra, eram o que de melhor o verão tinha a oferecer.

– Por que você não canta alguma coisa do Dorival Caymmi? – Flávia um dia perguntou. – Ele tem muitas canções que exaltam o trabalho e qualquer uma delas é mais bonita que essas porcarias que você canta.

– Dorival quem?, disse Silmara, assim que terminou de executar uma versão acústica de Festa no Apê.

Flávia concluiu que não valia a pena perder tempo com a cigarra. Até porque, o verão estava mesmo chegando ao fim e era muito possível que toda aquela cantoria terminasse quando os dias fossem mais curtos e cinzas. Porém, os dias que vieram não foram apenas curtos e cinzas, foram acima de tudo frios, o que obrigou Flávia a trocar sua carga de folhas e galhinhos por bitucas de cigarro. Com 85 bitucas recolhidas no Parque do Ibirapuera, Flávia construiu no formigueiro uma lareira tão magnífica que suas amigas começaram a chamá-la de Gaudí sempre que ela passava. Já Silmara, muito mais descolada, enrolou-se na lona de um caminhão que transportava uma carga para Trancoso e passou seis meses por lá, cantando todos os sucessos da Banda Eva em ordem cronológica numa árvore do Quadrado.

Flávia e Silmara se perderam de vista e foram se reencontrar quase um ano depois, na fila de um postinho do SUSI (Sistema Único de Saúde para Insetos). Flávia se queixava de uma tosse seca e persistente, enquanto Silmara trazia uma manchinha na asa que não parava de coçar e ainda mudava de cor. Elas puseram a conversa em dia na sala de espera. Flávia, como obviamente amanheceu na fila, foi a primeira a ser atendida. Mas decidiu esperar pelo término da consulta da amiga. Assim, poderiam terminar o assunto. Na saída, as duas amigas compartilharam os diagnósticos.

– Estou com uma bronquite crônica que pode evoluir para um enfisema pulmonar se eu não abandonar as bitucas de cigarro – disse Flávia.

– E eu tive a asinha esquerda cauterizada. A dermato disse que se eu não parar de tomar sol, isso ainda vai virar um melanoma.

Preocupadas com a saúde e o avançar da idade, Flávia e Silmara decidiram morar juntas, para que uma pudesse tomar conta da outra. Flávia abandonou o hábito de recolher bitucas e Silmara, em apenas uma semana, já estava cantando Maracangalha, de Dorival Caymmi, sempre na sombra. Eram felizes assim, com Flávia trabalhando e Silmara cantando. Até que a felicidade das duas chegou ao conhecimento da ala evangélica e conservadora do formigueiro, que viu naquele relacionamento tão harmonioso um grande perigo para a formação do caráter da nova geração de formiguinhas e cigarrinhas. Flávia e Silmara foram expulsas do grupo por meio de uma ação promovida pela BIE (Bancada dos Insetos Evangélicos), mas não se deixaram abater. Flávia entrou para o programa Minha Cigarra, Minha Vida e em duas semanas já havia construído para Silmara uma linda casinha orgânica nos fundos de uma loja do Boticário. Onde tentariam viver felizes para sempre, sem saber que, no caso dos insetos, o para sempre pode terminar amanhã.

Moral da história: cigarra ou formiga, não está fácil para ninguém.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas