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Coluna Frente Fria: Pão de Açúcar ou joanete?

Por Sérgio Roveri -

Depois da abençoada queda de temperatura registrada nas últimas semanas, passei a ver alguns amigos com bem mais frequência. Não que eu esteja saindo mais de casa, nada disso, pois sou incapaz de resistir à combinação de noites frias e Netflix. Estou vendo mais alguns amigos porque, depois de quatro meses em que eles só postaram fotos dos próprios pés nas redes sociais, agora com o frio eles voltaram a postar fotos dos rostos. Já estava com saudades deles.

Durante os meses de verão, meu Facebook e meu Instagram pareciam um catálogo da Clínica de Pés do Doutor Scholl. Mas isso não era o pior. O pior é que eu não sabia onde os amigos estavam passando as férias: seus pés, agigantados no centro das fotos, ocupavam praticamente todo o quadro, sem deixar nenhuma dica de paisagem à vista. Restava a mim perguntar, então, se aquele relevo que despontava em primeiro plano era o Pão de Açúcar ou só uma joanete. Nunca tive coragem de reclamar com nenhum deles, mas durante minhas orações noturnas eu pedia a Deus que os libertasse daquela síndrome de Abaporu que atacou a todos independentemente do sexo, raça ou idade.

Por um momento, eu cheguei a pensar que, sem dinheiro para viajar, alguns amigos começaram a postar fotos de qualquer pé em um cenário ensolarado. Depois, era só criar uma legenda bacaninha e pronto: o sujeito passou o verão inteirinho aqui na cidade, mas aqueles pés, cujos donos ninguém sabe até hoje quem são, passearam por toda a luminosa costa brasileira. Convenhamos: mesmo os nossos melhores amigos são um enigma do joelho para baixo. Cheguei a desconfiar que vários amigos recorreram à imagem dos mesmos pés para me convencer de que estavam em Trancoso ou Jericoacoara, quando na verdade se encontravam presos num congestionamento da Avenida Paulista. Com sapato e meia.

Sei que não deveria, mas confesso que eu próprio, naquela semana do fim de janeiro em que a cidade mais parecia um pedaço de queijo na ponta de um garfo de fondue, não resisti à tentação e também tentei bancar o descolado. Durante um passeio de bike no Parque Villa Lobos (sei que não era o cenário mais hypado, mas era o único disponível no momento), interrompi as pedaladas, deitei na grama e fotografei meus próprios pés. Não tive coragem de postar, porque as imagens revelaram um par de canelas tão finas e dois pés tão brancos que, se eu tivesse coragem de pendurar uma etiqueta no dedão, todos poderiam jurar que eu estava passando as férias numa maca do IML.

Agora que o verão terminou, eu assumo que fiquei a maior parte do tempo em São Paulo. Mas de corpo inteiro. Pode parecer um pouco triste, eu sei. Mas, no futuro, ninguém vai poder me acusar de ter passado a temporada de férias gozando com o pau…ops, com o pé alheio.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Suacoluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas