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Coluna Frente Fria: "não me engane, Solange!"

Por Sérgio Roveri -

Não entendo por que, de uns tempos para cá, os vendedores de loja de roupa passaram a correr para perguntar o nosso nome assim que nos veem parados diante da vitrine. Eu sinceramente prefiro a impessoalidade das farmácias e papelarias, em que você entra, diz o que quer, paga e vai embora – sem muitos salamaleques. Nas lojas de roupa, ao contrário, você é intimado a dizer seu nome ao vendedor e, depois que ele disser o dele, pronto, ficou estabelecida uma certa cumplicidade que só irá dificultar as coisas. No meu caso, fica muito mais tranquilo dizer que eu não gostei de um produto se a pessoa não souber o meu nome e nem eu o dela – o excesso de intimidade já é meio caminho para a compra, às vezes desnecessária.

Nesta época do ano, a situação costuma ficar bem mais complicada. No verão, basta apontar para uma camiseta e uma bermuda expostas na gôndola e o problema já está resolvido: às vezes a gente leva sem nem mesmo experimentar. As compras de inverno, no entanto, exigem um ritual mais detalhado. Você entra na loja, diz que está procurando uma calça, apenas uma calça, e uma simpática vendedora, depois de perguntar seu nome, diz chamar-se…sei lá… Solange. Então a Solange quer saber do que mais você precisa. “Do que mais você precisa, Sérgio?” Pronto, foi só chamar pelo nome, e de forma carinhosa, que você já começa a pensar em tudo aquilo de que precisa na vida, mesmo que nada esteja à venda naquela loja. Você se controla e diz que não precisa de nada, só mesmo uma calça número 42. Ela apanha a calça e o acompanha até o provador.

Você nem bem tirou os sapatos e ela pergunta, atrás da cortininha, se a calça ficou boa. Antes que você consiga responder que ainda não experimentou, ela já atira mais duas calças por cima do provador. “Olha, aproveitei também para trazer um modelo 44 e outro 46”. É óbvio que com isso ela quer comprovar que se você já não entrava numa calça 42 no verão, não é agora no inverno que vai entrar. Você agradece, ainda que contrariado, e pede mais alguns minutos para provar. “Claro”, ela responde. “Se precisar, é só chamar. Estou aqui”. É mentira. A Solange não está ali. Ela voltou às prateleiras para escolher várias peças que você não pediu e que nem tem dinheiro para comprar naquele momento. Segundos depois, você é atingido por uma tempestade de blusas, camisas de manga comprida, echarpes e casacos. “Eu trouxe algumas coisas para ajudar você a compor com a calça”. Eu não componho nada, eu não sou o Tom Jobim, você tem vontade de dizer. Eu vim aqui apenas para comprar uma calça e não para compor coisa alguma. Você olha ao redor e o provador, minúsculo, está tão entulhado de modelos e cores diferentes que você se sente mergulhado em uma caixa da campanha do agasalho – há roupa por todos os lados e você nem sabe mais quais são as suas.

Por último, a Solange pergunta se você quer ver uma gravata. “Não, gravata, não. Eu trabalho em casa e na maioria dos dias ainda estou de pijama às quatro da tarde”, você consegue dizer. Ela ri e diz que você é engraçado. Mas você não é engraçado. Você só quer sair daquele provador com uma única calça e não sabe como dizer isso para a Solange, porque ela vai ter de dobrar novamente todas aquelas peças com as quais ela tentou te afogar. Se você não soubesse o nome da moça a quem vai dar todo este trabalho, doeria menos. Mas você sabe. Ela se chama Solange. Enquanto você toma coragem para abrir a cortina do provador e comunicar que só vai comprar mesmo a calça, ela ainda encontra tempo de dizer que você pode pagar no cartão, em até quatro vezes sem juro. “Que bom, Solange, mas… olha… desta vez vou levar só a calça mesmo, viu… Eu gostei de tudo, mas é que…que… eu só queria a calça mesmo… e ainda estou passando por um mês difícil, viu. Mas da próxima vez eu prometo levar mais coisas”. Romper um relacionamento de três anos parece ser bem mais fácil.

Então você chega ao caixa e diz que quer parcelar no cartão. A moça do caixa, que pelo menos não pergunta seu nome, informa que o valor da calça, de uma única calça, não permite o parcelamento. Seus olhos procuram a Solange para pedir socorro, mas ela já está na porta da loja, acenando sorridente com sua sacola na mão. Você paga a vista, apanha a sacola e despede-se da Solange.

E só então percebe, já no corredor do shopping, que podia ter sido pior. Pelo menos o alarme da loja não apitou quando você saiu. E a calça que está na sacola é número 42, tá? Chupa, Solange.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Suacoluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas