Coluna

Para não dar com os burritos n'água

Por Sérgio Roveri -

Em sua recente visita ao México, a presidente Dilma Rousseff anunciou uma série de medidas que podem dar um upgrade nas relações comerciais entre os dois países. Vários especialistas em política externa, e eu já adianto que não sou um deles e por isso mesmo podem me criticar à vontade, atestaram que este novo acordo é o mais ambicioso já firmado entre Brasil e México e suas influências poderão ser sentidas em várias áreas do comércio e da indústria. Tudo muito bem, tudo muito bom, mas vamos ao que interessa. Dilma deixou de lado um assunto que é muito mais grave, urgente e preocupante: que tipo de auxílio oferecer às paleterias mexicanas de São Paulo agora que o inverno está chegando?

Só existe uma razão para que este tema, tão próximo de milhões de paulistanos, tenha sido deixado de fora durante a assinatura desses acordos de cooperação: na certa o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, preocupado com a balança e com a manutenção de sua imagem de galã, viva fugindo daqueles picolés gigantes em cuja estrutura se equilibram leite condensado, sorvete de morango e paçoquinha. Em algum lugar isso tem de desabar, não é possível: se não é no palito, vai ser na nossa barriga.

Enquanto o apoio internacional não chega, as paleterias estão se virando como podem. Várias delas já exibem nas fachadas anúncios de que agora também há comida mexicana à disposição dos fregueses. Hum…pode até ser, mas tenho lá minhas dúvidas sobre esta guinada nos cardápios, viu. Não seria o mesmo que, chegado o inverno, a gente entrasse na Häagen-Dazs para pedir um porção de chucrute com lingüiça na brasa? Ou abrisse o freezer da La Basque no supermercado e encontrasse ali um prato de feijoada?

O fato é que, com ou sem nachos, com ou sem burritos, eu juro que torço para que as paleterias sobrevivam até o próximo verão. Li no site São Paulo Para Curiosos que existem 136 delas na cidade – e agora me sinto culpado por ter passado todo o verão sem ter entrado em nenhuma. A paleteria que funcionou durante alguns meses na rua de casa fechou, e outra, gigante, cinco quadras adiante, teve o mesmo destino e agora apresenta as portas e as paredes já grafitadas. Mas sei que os empresários do ramo são criativos e não vão ser vencidos pelas baixas temperaturas. Nem que tenham de passar os próximos meses vendendo camisetas de Frida Kahlo, postais de Diogo Rivera e sombreros para festa à fantasia. Com um grupo de mariachi tocando na calçada. Está lançada a ideia. E arriba, México!

Crédito de foto: The Glue Society

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Suacoluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas