Coluna

Vestida para latir

Por Sérgio Roveri -

Em uma casa de muro baixo e portão de ferro, nas proximidades do Fórum de Pinheiros, vive um cachorro preto e feroz. Ainda que meu conhecimento sobre cães não seja muito extenso, eu me arrisco a dizer que se trata de um robusto vira-latas, com quem é praticamente impossível estabelecer qualquer vínculo. Minhas poucas tentativas de fazer um cafuné nele foram prontamente rejeitadas com latidos raivosos, pelos eriçados e dentes à mostra.

Na última semana, o cachorro estava especialmente atacado – e ninguém me tira da cabeça que era por causa de uma roupinha cor-de-rosa que o obrigaram a usar. Eu me lembro de ter lido que, ao contrário do que se pensa, os cães não são daltônicos, são apenas incapazes de enxergar tantas cores como nós, os humanos. Ainda assim, eu posso apostar que aquele cachorro desconfiava que o bustiezinho que vestiram nele era rosa-bebê. Estava escrito em seus latidos e no olhar irado que ele me dirigiu quando eu passei pela calçada: “tá estranhando o quê, seu palhaço?”

Como ando muito a pé pelo bairro, na semana passada conheci, no fim da rua Cardeal Arcoverde, mais dois cachorros igualmente alterados em uma casa de corredor estreito e comprido. Um deles trajava uma roupinha cinza, até aí, tudo bem. Já o outro desfilava uma espécie de frente-única azul com uma estampa de folhas verdes. Não sei se foi encanação minha, mas o cachorro de roupinha estampada parecia ainda mais furioso que seu companheiro de trajes sóbrios.

Eu sei que os últimos dias foram de um frio intenso, e seguramente os animais também sofrem com isso. Mas não seria possível comprar roupinhas que traduzissem melhor a personalidade do bicho? Vestir um cão grande e bravo com um casaquinho cor-de-rosa, machismos à parte, não produz o mesmo efeito de obrigar o Mike Tyson a surgir em público espremido num tutu de bailarina? O interior não combina com a embalagem: o resultado disso é bullying canino.

Sobre os cães menores, que agora passeiam em carrinhos de bebê, eu não sei o que dizer. Vi dois deles, um na rua Oscar Freire e outro na frente do Shopping Higienópolis. Embora eles estivessem atraindo – e muito – a atenção de vários pedestres, fiquei com medo de me aproximar e ler em seus olhinhos um pedido mudo de socorro, um “me tira daqui, pelo amor de Deus, que eu estou usando fraldas e sapatinhos de crochê”. Ou, o que seria ainda pior, chegar pertinho para fazer um bilu-bilu e sair com o nariz mordido. Vai ver que, no fundo, nenhum dos cães estivesse realmente bravo – os latidos e a cara de mau talvez façam parte de uma grande campanha publicitária para anunciar a chegada da nova coleção outono-inverno da Cãovalera.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas