Lifestyle

Tá difícil arranjar namorad@? Experimente encontrar um roomate

Por Eloá Orazem -

Pareço legal, mas estou no cheque especial – e é só por isso que eu divido. Viver no limite da conta bancária faz da gente um ser bem mais generoso, porque a gente compartilha tudo. Na marra. A gente reparte as alegrias e as tristezas, mas também racha o estacionamento e as batatinhas do Mc Donald’s.

Eu já to virando uma espécie de Madre Teresa de Calcutá de tanto que parcelo: as desculpas, as refeições, as faturas do cartão de crédito e, agora, o teto também.

Pra ser bem sincera eu AINDA não tenho um roomate, porque Los Angeles é a capital mundial de pessoas loucas. Tem tanta gente pirada aqui que eles deviam exportar!

E como tragédia não vem a conta-gotas, além de não ter grana, eu ainda encontrei todos os lunáticos da cidade na minha busca pelo roomate ideal.

Minha pesquisa aconteceu basicamente dentro do Craigslist – aquele site de anúncios americano que faz fãs de pornôs corarem, lembram? Eu sei bem que você deve estar pensando que eu tô procurando no lugar errado, mas é basicamente a única ferramenta que disponho, então é preciso paciência e gingado para desviar das putarias e dos malucos. Ah, e pra quem acha que Airbnb é uma alternativa, deixa eu dizer a real: esse site é caro pra chuchu aqui. Não vale a pena, tá? Quando você vier a Los Angeles, não caia na tentação de alugar um quarto ou apartamento por lá sem ter CERTEZA de que é um bom negócio – e, por experiência própria, aqui na Cidade dos Anjos, quase nunca é.

Mas voltando ao inferno da realidade, vem conhecer os Exus que me assombraram nessa minha jornada dantesca.

O primeiro era um senhor de uns 50 e poucos anos e muitas plásticas. Tinha olhos e lábios (re)puxados, e parte do supercilio ainda protegido por um curativo da última cirurgia. As roupas extremamente justas que vestia se mostraram a minha melhor dieta: perdi o apetite instantaneamente. Pela entonação na voz do tiozinho, senti que ele gostava muito do Brasil – eu cheguei a achar que ele tava sorrindo, mas depois descobri que os músculos do rosto dele estavam meio paralisados mesmo.

Bom, eu estava certa quanto empolgação na fala do indivíduo. Ele contou que namorou uma brasileira de Campinas e depois desandou a falar que Campinas é a melhor cidade do planeta para qualquer coisa. Apontei um ou outro serviço de boa qualidade em outras capitais e o nego rosnou feio pra mim. Disse que eu não sabia o que falava e, para provar que ele era o dono da verdade, começou a listar todos os bens que tinha: uma bmw, uma Ferrari, não sei quantas casas e muito dinheiro.

A lição de moral veio na sequência, e o cara confessou que era um pão-duro de marca maior. Todas as roupas “de grife” em seu armário vieram de brechós, ele não terceiriza nenhum serviço e paga tudo em dinheiro, nada em cartão de crédito ou parcelas. A conversa durou APENAS quatro horas, e eu só não definhei de tédio porque o velhote soltou umas pérolas muito boas: “assim que a falência bate porta, o amor sai de casa e é divórcio na certa”; “ter um coração custa muito caro, então eu não tô nem aí se você teve um problema de saúde ou se sua avó morreu, eu quero o aluguel em dia”; “namorei uma brasileira parecida com você, mas muito bonita” – essa última me fez gargalhar, porque o tio me chamou de baranga descaradamente.

Bati a porta e nunca mais olhei pra trás e tive a certeza de que tínhamos ambos entendido que aquilo de sermos roomate jamais iria funcionar pro motivos de MEDO e bom senso. Então, dois dias depois o véio me liga e me chama pra jantar, usando um puta discurso machista de que homens têm que ser mais velhos que as meninas e que eu fazia o tipo dele (?). Deixou claro, na ligação, que não queria nada sério, só uma curtição – mas que pagaria a conta do jantar pra gente.

Bloqueei o número do maluco e ele ainda teve a audácia de me deixar duas mensagens na caixa postal, que eu deletei sem ouvir.

Meu desejo era explodir a casa do veio

Voltei à Porta dos Desesperados, a.k.a. Craigslist, e encontrei outra boa oportunidade de custo x benefício x localização. O roomate seria um rapaz de uns 30 anos, gay e vietnamita. No anúncio dizia que era importante gostar de cachorros – e eu amo esses peludos de quatro patas.

A casa era linda e bem organizada. Organizada até demais, eu diria. Minha mãe ficaria orgulhosa daquele rapaz. E eu também, se ele não tivesse TOC: “gosto que minha casa pareça sempre um showroom. Esse sofá aqui não é pra se jogar e ficar deitado, é pra sentar na pontinha e depois colocar todas as almofadas no lugar”, explicava.

Entre morar na rua da amargura e aguentar as pontas de um control freak, preferia a segunda opção – até porque seria uma forma de matar a saudade lá de casa (te amo, mãe).

Então chegou a hora de conhecer o quintal. De fato, é preciso amar cachorros, porque o cara tem S-E-I-S pastores alemães gigantescos. Talvez sejam pôneis disfarçados. E os nomes dos bichos? Legend, Hero, Victory, War e… não lembro os outros dois, mas eram bem gays também.

Todos os bichos ali eram machos, e viviam em gaiolas na garagem. Antes de ligar pro PETA e denunciar o vietnamita com a estatura de um Minion, deixa eu te dizer que ele realmente se dedica a cuidar dos cachorros. Os cavalinhos saem para brincar quatro vezes ao dia, por uma hora e meia. O problema é que o aluguel camarada tinha seu preço: o roomate deveria ajudar no cuidado dos bichos, e isso significa abrir suas jaulas religiosamente no mesmo horário: 12h30 e 17h30. Todos os dias. Que vida teria essa pobre alma, se toda a sua tarde seria bloqueada para supervisionar esses animais?

A rua da amargura parecia mais incrível que nunca.

Mas antes de conhecer a vizinhança amigável daquele aluguel inexistente, fiz uma última tentativa – dessa vez, com uma moça.

Ela parecia bem normal ao telefone e, conhecendo-a pessoalmente, tenho certeza que foi a musa de um clássico: ela inspirou a Wandinha, da Família Adams, sabe?

eloa_familiaadams

A franja oleosa colada na testa era a parte mais higienizada de todo aquele ambiente e daquela pessoa. Queria dar o fora antes de contrair alguma doença, mas ela foi tão bacana que achei chato sair do nada. Sentamos no sofá e começamos a falar de viagens e de coisas da vida. Ela me falou de sua recente visita a Porto Rico e ficou me explicando como os bancos americanos são os grandes vilões do planeta. Eu balançava a cabeça concordando com tudo, porque já era tarde e rolava uma preguiça monstra de ter discussões complexas em inglês. A nega fiou meio brava que eu não fumava maconha e tentou me convencer de que eu tinha de provar o vapor caseira. Então ela foi lá pro fogão e eu vivi uma reprise de Breaking Bad, com direito a receitas, pesquisas de universidade e citações de estudiosos. O vapor da erva ao fogo encheu um saco plástico, que teve a boca “amarrada” em volta de um canudo.

eloa_breakingbad

Voltamos a conversar no sofá e, a cada intervalo, a moça baforava sua maconha orgânica e artesanal. Viajou mais alto que o padre no balão. Num dado momento, ela começou a acariciar meu ombro. Até aí, de boa, cada um com a sua brisa e a dela era ser um ursinho carinhoso. Aí o chamego passou pras minhas pernas, quando eu só queria usá-las para sair correndo dali. O negócio ficou sério quando o papo enveredou para atividades físicas, e eu explicava que gostava muito de alguns esportes quando mais nova, mas que há anos só pratico o ócio. “Ah, para, você tá aí, toda em forma”, ela dizia soltando a fumaça da boca. Retruquei falando que aquela saliência na minha barriga não era pochete, era gordura mesmo – e a nega começou a tentar levantar a minha blusa para passar a mão na minha barriga. Aí pediu pra eu fazer a dança do ventre.

E assim, amiguinhos, eu descobri o meu limite. Desde então eu só procuro quitinetes.