Coluna

Tem temaki na quadrilha

Por Sérgio Roveri -

Imagine o tamanho da frustração do turista que viaja até Campina Grande, na Paraíba, curioso para conhecer aquela que é apontada como a maior festa junina do mundo e, ao chegar lá, doente por uma fatia de bolo de milho e uma tigelinha de canjica, é surpreendido com barracas de temaki, tacos mexicanos, pizzas e crepes. Pois é este o cardápio que, segundo os jornais e a televisão, as tradicionais festas juninas nordestinas estão oferecendo este ano. Ao olhar para tudo aquilo, o pobre turista deve pensar: não precisava ter tomado um avião e vindo até aqui, bastava que eu fosse a qualquer food truck de São Paulo que daria na mesma.

É muito triste ver que Santo Antonio, São Pedro e São João, um time de vingadores juninos que eu acreditava imbatível, tenham sido atropelados tão descaradamente pela cultura da fast food. Que história é esta de permitir que entre os mais de 400 pontos de alimentação na festa de Campina Grande, somente três ou quatro oferecessem pinhão, bolo de milho, paçoquinha e pé de moleque, enquanto que todo o resto se convertesse numa réplica gigante de praça de alimentação de shopping?

As festas juninas são, de longe, a melhor coisa do inverno – e não há estação de esqui em Bariloche ou Las Leñas capaz de apagar todas aquelas memórias de infância que uma simples fogueira consegue reanimar. Que atire a primeira batata-doce assada na brasa quem não tem um bom caso de festa junina para contar. Meu primeiro porre, causado por vinho quente de garrafão, foi numa festa junina. O primeiro brinde que ganhei, tirando os presentes de Natal, foi um frango assado na roleta da quermesse do bairro onde passei a infância.

A primeira (e única) vez que me casei diante do altar foi na quadrilha da escola primária. A primeira vez que ouvi a voz de Michael Jackson, ela escapava com chiados do alto-faltante de uma festa junina – eu não entendia sequer uma palavra da canção “Ben”, aquela música do ratinho (Ben, the two of us need to look no more) mas fiquei ali, boquiaberto diante daquela incompreensível beleza. A primeira festa que dei quando me mudei para São Paulo foi uma festa junina – e o cheiro do quentão e vinho quente preencheu cada canto do apartamento de 60 metros quadrados onde se espremiam mais de 30 pessoas. Me pergunto se todo este universo teria existido se no cardápio fossem oferecidos temakis e sushis. Duvido.

As festas juninas também foram, durante anos, a única oportunidade em que os vizinhos, os amigos e os amigos dos amigos lotavam o quintal da casa em que eu nasci, ao redor de uma grande fogueira que começava a ser erguida à tarde e que deveria arder até a manhã seguinte. Os copinhos de quentão e as pipocas estouradas nas panelas (estávamos a anos-luz dos microondas) saíam ininterruptamente da cozinha da minha mãe e cruzavam, sempre equilibrados na cabeça de alguém, um pequeno portão de madeira até chegarem área de chão batido do quintal onde cada um se acomodava como podia naquelas noites que, tenho quase certeza, eram mais frias que as atuais, mas, com perdão do paradoxo, também mais calorosas que as atuais.

Na época, havia uma crença, e em algum lugar ainda deve haver, de que era possível caminhar descalço sobre as brasas da fogueira sem queimar os pés desde que o aventureiro tivesse muita fé nos três santos. Um tio, com os neurônios encharcados de quentão e os ouvidos entupidos de sanfona, tentou – e passou a semana seguinte de cama com dois metros de atadura envolvendo as bolhas no calcanhar. Decerto, não tinha fé. Depois minha família se mudou daquela casa para uma outra, com quintal menor e cimentado, e as fogueiras nunca mais foram acesas.

Já adulto, e no último ano da faculdade, a casa em que eu nasci, e que foi cenário de todas aquelas festas juninas, pegou fogo. O filho do casal de inquilinos que vivia ali, um garoto de cinco ou seis anos, riscou um fósforo no colchão do beliche, as chamas atingiram o teto e se espalharam com tamanho apetite que, quando os bombeiros chegaram, não havia mais nada a ser feito. Felizmente, ninguém morreu, ninguém saiu ferido. Só as memórias de infância se perderam – e hoje, um pouco feliz até, vejo que nem todas.