Coluna

Trio-elétrico Cebion

Por Sérgio Roveri -

Natal. Reveillon. Carnaval. Aniversário de São Paulo. Aniversário do Rio de Janeiro. Perceberam a conexão? Todos os feriados bacanas, destes em que a gente viaja, bebe e fica praticamente pelado sem remorsos, rolam no verão.

É uma divisão injusta e desproporcional. E o que temos no outono-inverno: Tiradentes, Semana Santa, Corpus Christi, Dia de Nossa Senhora Aparecida… Um punhado de dias cinzentos, carregados de culpa cristã e com um ou outro mártir envolvido na história. Não bastasse tudo isso, dificilmente dá praia. A gente vai se divertir e pensa: nossa, alguém precisou morrer lá atrás para que hoje eu pudesse pegar a estrada com a geladeirinha de isopor carregada de cerveja.

Se você entrar numa noia dessa vai precisar, para cada gole de cerveja, derramar dois para o santo. Porque é o que mais tem nos feriados de inverno: santo. Em vez de praias lotadas, filas nas igrejas. Em vez de trio elétrico nas ruas, procissão com gente de cara triste. Em vez de topless, missa de lavapés. Agora até rimou. Então eu pergunto: que chance o calendário deu ao inverno de ser uma estação feliz? Nenhuma.

Por isso, eu faço um apelo de coração para que os empresários do ramo unam suas forças para virar este jogo e fazer do inverno, dentro do possível, a temporada mais descolada do ano. Imaginem que sucesso não faria o camarote do Vick Vaporub na Sapucaí. Todos aqueles fortões passando o unguento no peitinho congestionado das atrizes gostosonas. Flashes! Flashes!

E o trio-elétrico Cebion, então: uma multidão de gente espirrando e pulando bem devagarzinho atrás de um gole de vitamina C pura… Ah, o grande baile anual da Sopa de Cebola no Copacabana Palace, com a nata da sociedade carioca em fila indiana segurando na mão um prato da mais fina porcelana chinesa… E que delícia poder ler nas colunas sociais: Sabrina Sato é flagrada com o namorado atrás do panelão de vinho quente… Viviane Araújo tem princípio de overdose de gemada na concentração da escola de samba… blitz flagra jogador do Flamengo com 0,6ml de quentão no sangue. E o auge da festa: a Globo mostrando, ao vivo, o governador do Rio acendendo a lareira gigante na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Para encerrar, depois de transmitir esta festança toda, William Bonner, com aquele sorrisinho maroto, se despediria assim de milhões de brasileiros: “O Jornal Nacional termina por aqui. Agora, sopa e cama”.

Sérgio Roveri é jornalista e dramaturgo com 19 peças encenadas. Como tem constantes crises de enxaqueca e quedas de pressão durante o verão, prefere passar a estação em agências bancárias, cinemas e qualquer outro ambiente fechado que tenha ar condicionado. Sua coluna “Frente Fria” é publicada todas as segundas