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Do candomblé ao miami bass: a inquietude de Ubunto

Por Peu Araújo -

João Gabriel Pereira está a mil por hora na vida. Com a inquietude que seus 22 anos proporcionam, o músico, produtor e DJ é incansável na noite de São Paulo. É possível ver o seu set com frequência em festas como Ajayô, Baile Profano, Venga Venga e Sudaka. Dá pra sacar também sua performance ao vivo tocando percussão e as bases para a MC Tha e Jeza da Pedra, para quem também tem criado coisas novas. Além da produção para o próximo álbum do cantor Bruno Capinan, entre outros artistas. Ubunto, alcunha que assumiu em 2012, tem músicas em parceria com nomes como Sants, Mauro Telefunksoul e Marginal Men e três EPs. O último deles, lançado há um mês, se chama Careta.

Ele fala sobre a origem deste trabalho. “Os Caretas é uma manifestação folclórica da Bahia, tanto do recôncavo, do litoral norte quanto do interior. Antigamente, os ex-escravos, na época do Carnaval, se fantasiavam pra assustar os filhos dos donos de engenho que zombavam deles o ano todo. Era a época em que o povo estava com a aristocracia na rua também, então eles se fantasiavam com adornos de saco de lixo, luva que eles trabalhavam na roça e a máscara do Frankenstein da vendinha. Era uma mistura de elementos que é um processo muito parecido com o meu som, que é a junção de coisas regionais com elementos externos.”

Ubunto
Fotos: Vtao Takayama

O músico conta ainda como essa expressão cultural está próxima de suas convicções musicais. “O som deles é feito com tambor, enxada da lavoura e concha do mar. Não há coisa mais parecida com o que eu faço, porque é miami bass, com vogue e samba reggae. É lindo. E foi a sonoridade que eu quis buscar.”

Baiano de Salvador, se mudou para São Paulo há quatro anos para um curso de produção cultural e um monte de ideias – que vem realizando – na bagagem. Sua formação musical, aquela mais tradicional, passa pela bateria e pela escola de música Pracatum, de Carlinhos Brown, e seus gostos já eram sinalizados desde a infância. Um exemplo: o tema de sua festa de 7 anos foi a banda grunge Nirvana. “Ninguém entendeu nada”, ele se diverte.

Ele fala sobre essa busca pelo beat e pelo desconhecido na música. “Eu tinha banda e, com meus amigos, tínhamos o costume de procurar músicas obscuras e subgêneros musicais que eu ia guardando em HDs. Tenho músicas que eu pesquisei quando tinha 15 anos.”

Todas essas influências, junto de suas visitas frequentes ao Olodum e o candomblé, sua religião, foram batidas num liquidificador que nos é apresentado em cada uma de suas empreitadas. “Os produtores vivem o dilema de 'toco o que eu faço' ou 'faço o que eu toco' e na verdade eu acho que você tem que assumir que é uma coisa só. Eu ficava muito no medo das pessoas associarem o que produzo com o que toco na pista, mas com o tempo estou tentando alinhar tudo”, conta. E com bom humor resolve a crise existencial. “Eu sou um CNPJ, me contrate pra qualquer coisa.”

Ubunto

Alinhado, assim como as pessoas pessoas que não viram o Brasil ser tetracampeão no futebol, João Gabriel sabe que seu trabalho não é só a música. É também sua roupa, seu post, seu corte de cabelo, sua imagem. “50% do trabalho sonoro é imagem. Não adianta nada você fazer uma música foda se você não pensou no Instagram, no vídeo, em nada.”

Quer saber mais sobre o trabalho do Ubunto? Então confere aí que a agenda é extensa. Neste sábado (9/6) ele se apresenta com MC Tha no Baile Profano, no sábado (16) ele está no MECASpot (R. Artur de Azevedo, 499). No domingo (17), estreia do Brasil na Copa do Mundo, ele toca com a Ajayô no Orfeu. Tudo em São Paulo. No dia 27 de junho tem Sudaka em São José dos Campos. Em julho, no dia 6, ele volta ao Orfeu para a festa Grave Mundial, do Dago Donato. No dia 13 de julho se apresenta com Jeza da Pedra no Circo Voador, no Rio de Janeiro, e no dia 4 de agosto toca com o cantor baiano Hiran em São Paulo.

Ubunto