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Como ganhei 50 doletas pra passar o dia na piscina

Por Eloá Orazem -

A pobreza é mãe da criatividade e madrasta do desespero. Conheço bem a família, porque tenho a visitado com mais frequência que gostaria. Esta semana fui lá de novo, na Pindaíba, saldar essas quase gêmeas Ruth e Raquel – uma boa e outra má.

Enquanto Ruthinha me pegou pela mão e me levou até Malibu, Raquel fez de mim Tonho da Lua, procurando emprego feito retardada por Los Angeles. Apelei pro Craigslist, que é um site de classificados bem popular nos Estados Unidos. Lá tem gente anunciando carro, casa, dente, fígado, emprego e macumba.

Na parte de “gigs” – “bicos”, na melhor tradução – encontrei as coisas mais loucas que você pode imaginar, a maioria relativa a sexo. Uma das postagens mais bizarras foi a de um ser humano procurando mulheres dispostas a tosar suas partes íntimas em formas e formatos variados, como um raio, um coração, um Minion ou o que mais passar pela sua cabeça. Não lembro da remuneração oferecida aqui, mas fiquei interessada mesmo por uma vaga de hostess, que pagava 100 doletas por hora.

O trabalho é moleza: se equilibrar em um salto alto por algumas horas (isso eu já faço. De graça.) e receber os convidados de um eventinho VIP. “Passa pra cá essas verdinhas com a cara do tio Benjanim Franklin que essa vaga é minha, neném”, pensei, na minha ingenuidade. Veja bem, eu fui selecionada, o carinha dono da festa me ligou. Ele só não mencionou na publicação que o salto alto era a única peça de roupa que a hostess deveria usar, porque os convidados, que estão sempre nus, poderiam se incomodar com os trapos escondendo a mixaria aqui.

Voltei a navegar pelas páginas do Craigslist que fazem corar os usuários de sites pornôs, e tentei ao máximo desviar das putarias. Finalmente achei duas oportunidades de trabalho: uma produtora procurava jovens para ser figurante na gravação de um clipe de música de uma famosa banda brasileira (ó que coincidência, gente!) e a outra era para ser figurante em um reality show da MTV.

Mandei mensagem para os dois e fui selecionada por ambos – cof cof. As duas filmagens estavam agendadas para o mesmo fucking dia, na mesma fucking hora. Optei pelo programa da MTV por uma simples questão de preço: os brazuca pobretões pagavam 20 dólares pelo dia de trabalho (no post, eles GRITAVAM em caixa alta que também teria refeição, mas os tolinhos talvez não saibam que aqui é lei ter comida no set, durante toda a gravação); já o lance do *reality show *oferecia 50 dólares para gravar a cena de uma pool party.

Então, ó, fica a dica: quando em Los Angeles, corra atrás desses bicos de figurante, porque tem comida na faixa e você ainda pode curtir uma piscina durante o dia todo.

A filmagem rolou numa mansão lindinha perto de casa (não precisei gastar o cachê com gasolina, yes!), e eu fui uma das primeiras a chegar. Todos os outros extras, como são chamados os “artistas” no background, eram horríveis e isso me fez pensar que a seleção para esse trabalho era pela feiura – fiquei bem mal. Mas foda-se, eu queria meus 50 dólares. Tem gente que ganha pela beleza, eu bem poderia capitalizar a falta dela.

eloa_set da gravacaoEssa era a mansão

Ao todo, nós éramos uns 25 extras – dos quais apenas 3 eram homens.

Momentos depois de entrarmos no “set” ficamos quase todos de biquíni – eu continuei de vestidinho – e começamos a gravar as cenas da festa. Foi ridículo!

Eles me deram uma taça de suco de maçã para fingir que era champanhe, e eu tive que brindar a vida umas sete vezes. Depois nós dançávamos ao som do nada e chacoalhávamos os bracinhos no ar. A risada era a parte mais real desse reality, porque eu me sentia tão imbecil que tinha um ataque de riso.

Aí o diretor escolheu sete moçoilas para dançar na varanda. E advinha se eu não fui uma das “sortudas”?

Pensei que aqueles 50 dólares seria um tanque de gasolina todo e mais duas refeições na minha lanchonete favorita e subi as escadas. Para a minha alegria, a Valeska Popozuda estava ao meu lado e ela não veio a brincadeiras, minha gente: a nega de biquíni branco virou a buzunfa para a câmera e começou o seu show particular de twerking. Eu conseguia ver o cameraman dando zoom nas nádegas dessa criatura, acho que na TV vai ser possível ver as marcas da depilação da mina. Enquanto isso eu só pensava que, se ela estava disposta a tanto por algumas dezenas de dólares, imagina o que não faria por mais? Virgi!

Depois de pagar esse zoológico inteiro (porque mico é muito pouco), o protagonista, Steve Jay, entrou em cena. Era um rapper que eu nunca ouvi falar na vida, mas é dono de dois Grammy (até aí, até a Maria Rita já ganhou um). Ele caminhava pela mansão olhando as meninas e cumprimentando os caras, como se a “festa” estivesse animadíssima. A pedidos do diretor, em um momento X, eu e uma loira nos aproximaríamos do “astro” e interpretaríamos o seguinte diálogo:

– Oi, Steve! – nós falaríamos

– E aí meninas!

– Oh, meu Deus, o Steve falou com a gente!

Por favor, um minuto de silêncio pelo meu diploma de jornalismo e pela minha carreira. Até onde mais eu teria de ir para conseguir alguns punhados de dólares, senhor?

Voltamos pra piscina e eu caí no sono. Dormi algumas horas, enquanto algumas meninas nadavam e outras avançavam nos sanduíches, lá atrás. Desencanamos de ser figurantes para apenas ser. Só uma gordita não deixava o personagem e seguia dançando na beira da piscina, segurando uma taça quase vazia.

Fui acordada para gritar “uhuuulll!!!” quando Steve, o protagonista, caia na piscina. Depois voltei a dormir mais um bocado.

Quando abri os olhos pela segunda vez, já era hora do pagamento, olha que beleza!

Ganhei 50 dólares e um bronze beleza.

Depois dessa experiência, mudei um pouco o meu mantra de vida: em vez de falar “se tudo der errado, eu viro hippie”, agora vou de “se tudo der errado, viro figurante”.

Aguarde as cenas do próximo capítulo 😉

PS: Não tenho fotos porque é proibido entrar com câmeras e celulares na gravação. Todas as nossas bolsas foram revistadas.