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A baiana Anna Luísa Beserra inventou um jeito de limpar água usando o sol — e ganhou um prêmio da ONU por isso

Por
Mariana Weber
Em
18 novembro, 2019

Aqualuz é um equipamento que usa a radiação solar pra purificar a água de cisternas e que rendeu pra biotecnologista, agora em 2019, o prêmio Jovens Campeões da Terra da ONU na categoria América Latina e Caribe.

Desde criança, Anna Luísa Beserra brincava de cientista — que o diga a formiga que ela manteve numa casinha pra observar como o inseto bebia água. Queria entender o azul do céu e o funcionamento do tempo, ficava amiga dos professores de ciências e lia revistas como Scientific American. Aos 15 anos, pediu aos pais um microscópio de presente de Natal. Com a mesma idade, em 2013, montou a primeira versão do Aqualuz, um equipamento que usa a radiação solar pra purificar a água de cisternas e que rendeu pra biotecnologista, agora em 2019, o prêmio Jovens Campeões da Terra da ONU na categoria América Latina e Caribe.

A premiação da ONU reconhece empreendedores de 18 a 30 anos que tenham “ideias inovadoras e arrojadas para solucionar os desafios ambientais mais urgentes do nosso tempo”. No caso do Aqualuz, a solução é uma tecnologia barata, fácil de usar e durável pra fornecer água potável a moradores do semiárido nordestino — ou de qualquer lugar do mundo.

Anna discursa durante a premiação da ONU em Nova York, em setembro deste ano | Fotos: Divulgação/ONU

Não é pouca coisa, mas Anna, agora com 22 anos, não foi atrás de pouca coisa. Ainda no ensino médio, quando se decidiu pela faculdade de biotecnologia, colocou na cabeça que faria algo grande. “Eu queria um projeto pra mudar a vida das pessoas, como achar a cura do câncer ou resolver outro problema de saúde pública.”

Quando o prêmio Jovem Cientista, do CNPq, anunciou que o tema de 2013 era água, Anna se pôs a estudar e encontrou a peça que faltava pra definir seu campo de atuação. Baiana de Salvador, filha de uma enfermeira das obras sociais de Irmã Dulce e de um empreendedor que hoje trabalha com turismo, ela não sofria com a escassez de água do semiárido nordestino, mas era vizinha do problema. 

“Eu queria um projeto pra mudar a vida das pessoas, como achar a cura do câncer”

Pesquisando o assunto, soube que uma questão crítica eram as doenças causadas por contaminação da água da chuva estocada pelas famílias da zona rural. Também soube da existência de um sistema que usa radiação solar pra desinfectar água dentro de garrafas PET. Mas havia problemas nesse método, como o risco de geração de substâncias tóxicas pelo plástico aquecido e a falta de indicadores pra avisar quando o processo de purificação estava finalizado.

A estudante resolveu então criar seu próprio dispositivo de desinfecção solar, com uma caixa de vidro, papel alumínio e cortiça. O equipamento não ganhou o prêmio Jovem Cientista, mas tornou-se o foco de Anna, que faria dele uma startup, a Safe Drinking Water for All (SDW), e seu objeto de estudo na faculdade. Por causa dele, também fez um curso de liderança de novos empreendimentos no MIT, em Cambridge, e partiu sertão adentro pra entender melhor com o que estava trabalhando.

Anna e os demais jovens vencedores do prêmio da ONU, entre a cantora beninense Angélique Kidjo (esq.) e o ator e ativista americano Alec Baldwin (dir.)

“Eu me sentia cega”, lembra. “Estava desenvolvendo uma solução pra um problema que eu não tinha e de uma realidade que eu não conhecia. Ir a campo fez toda a diferença.” 

Depois de aperfeiçoamentos, o Aqualuz se tornou uma caixa de inox com tubos de PVC e “um vidro do tipo mais simples, que se acha em qualquer vidraçaria” — a ideia é que dure por 20 anos e que qualquer um, em praticamente qualquer lugar, consiga fazer reparos. Com capacidade pra tratar dez litros de água por vez, o equipamento é acoplado diretamente às cisternas em que casas da área rural armazenam água da chuva (essa água, coletada dos telhados, pode conter microorganismos e outros resíduos, como pedaços de insetos). 

O Aqualuz filtra as partículas sólidas e, com seu tampo de vidro, deixa a radiação ultravioleta passar e destruir os microorganismos (“É a mesma que causa câncer de pele e por isso precisamos de protetor solar; os vírus e as bactérias não têm essa sorte”). A radiação infravermelha também passa, aquecendo e acelerando o processo. De duas a quatro horas depois de entrar na caixa, a água está potável e um indicador muda de cor pra avisar que o consumo é seguro. 

No fim da faculdade, em 2018, Anna fez as primeiras implantações do Aqualuz no semiárido — o estudo foi apoiado pelo Instituto TIM, com um programa voltado pra estudantes que querem transformar o trabalho do conclusão de curso em negócio. A ideia, agora, é vender a ideia pra empresas interessadas em implementar projetos sociais. Um deles já está em andamento e, na semana passada, a biotecnologista viajou a comunidades quilombolas da Bahia pra fazer 60 de 200 instalações previstas.

É um piloto, que pode render um contrato maior. Mas o plano é ir bem além — tanto com o Aqualuz como com outros produtos, como um biodigestor doméstico que transforma restos de alimentos em gás de cozinha. “Em dez anos, vejo a SDW como uma empresa global, com forte atuação na América Latina e na África e com centros em várias cidades do mundo.” A julgar pelos primeiros anos da carreira da cientista, quem duvida?