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Refúgio esotérico: a astrologia e o tarô como alternativas ao trabalho convencional

Por Lilian Kaori Hamatsu -

É certo que os avanços tecnológicos e os novos modelos de negócio alcançaram níveis elevadíssimos de desenvolvimento no curto período de tempo caracterizado pela nossa contemporaneidade. Os custos desse processo, por outro lado, parecem cada vez mais altos e instáveis para qualquer ser minimamente social. Futurologistas e caçadores de tendências indicam que retornaremos aos primórdios do humanismo como caminho para descobrirmos a nós mesmos mais uma vez. Na contramão da vida rotineira e com pouco significado, conversamos com profissionais que conciliam a carreira e o interesse pelo esotérico como forma de aflorar o autoconhecimento e ampliar as perspectivas de mundo. Aqui, o resultado desse encontro.

A assessora de imprensa Mariana Candeias, também conhecida como Piky ou @magaastrologica, seu perfil dedicado ao estudo da astrologia | Foto: Victor Affaro

A maga da comunicação

Tudo nela é um exercício de linguagem: as roupas coloridas, as tatuagens em temática floral, o apelido e a busca pelo esotérico. O último item, ela garante, é algo que nem todo mundo entende. Não à toa, formada em jornalismo, Mariana Candeias encontrou no papel de assessora de imprensa uma vocação. Em meados de 1993, começou a se libertar dos fantasmas: já não precisava mais passar pela agonia de ver seu texto modificado por editores ou fazer duras críticas a álbuns artísticos sobre os quais nem tinha certeza da falta de qualidade. Do trabalho no “tinder de sua época”, a revista Guia do Coração, passou por outras publicações como a extinta Fama e a Contigo, além de MTV, Warner, Abril Music e Trama, já na pele da profissional que gostava de ser. Ao lado de um amigo, fundou a Batucada Comunicação e passou a atuar de maneira independente. “Eu frequentava aulas de natação e um dia fui almoçar com o professor. Decidi contar dos meus estudos astrológicos e ele me perguntou: mas para que você faz essas coisas?”

Sob o codinome Piky, apelido dado pelos pais em referência à palavra pequenina – e pelo fato de já existir outra Mariana na família –, a comunicadora encarna a @magaastrologica ao compartilhar o conhecimento esotérico nas redes e também faz atendimentos em sua própria casa, no Itaim Bibi, em São Paulo. Durante nossa conversa, ela relembrou com carinho da influência das tias astrólogas e das aulas de tarologia com Titi Vidal. Ariana com ascendente em câncer e lua em touro, é pé no chão até demais e abandonou o ceticismo ao encontrar um universo paralelo nas cartas que aprendeu a ler. Hoje, é parte de um grupo espiritual que abraça a energia dos ciganos como elo e se divide entre os trabalhos como assessora de imprensa e taróloga. “Nossos conflitos com o mapa astral tem a ver com coisas que precisamos trabalhar em nós mesmos. Já a tarologia, eu amo pelo mesmo motivo que criticava: não tem explicação, acontece na hora e funciona.”

A síndrome do impostor, uma constante que faz com que Piky duvide de suas conquistas, passou a ser combatida através dos atendimentos que proporciona aos clientes. Embora tenha começado tímida, tirando cartas para amigos e cobrando um valor quase insignificante, foi convencida a investir na profissão e logo criou sua página nas redes sociais. Ao consultar os búzios, recebeu a recomendação de começar a gravar vídeos. De início detestava, mas acabou se acostumando e o hábito passou a ajudar na movimentação de sua “energia parada”. Nas cartas que ilustram o mago e o carro, Mariana encontra sua imagem e semelhança: a primeira atribui ao ato de fazer um aprendizado necessário para que se liberte das próprias dúvidas e a última está em constante movimento, muitas vezes atropelando quem se encontra ao redor. Já a carta da temperança, que estampa o próprio corpo, é um lembrete relacionado ao seu maior objetivo pessoal: ter autocontrole. “Flores são elementos coloridos que saem da natureza e nos dizem coisas. Eu sou tão dura comigo mesma, as flores dão um descanso. Já as cores mostram vários caminhos, enquanto o preto no branco é só isso.”


O musicista Rodrigo Campos, amante dos astros e da corrente filosófica francesa | Foto: Victor Affaro

Áries em dó maior

Garçom, entregador em uma fábrica de calças jeans, office boy, ajudante em um bingo e estudante de direito, tentativas de negar aquilo que Rodrigo Campos sentia: uma inclinação para fazer música. Quem vê o moço de olhos sorridentes descrever com voz suave o amor pelos instrumentos de corda, em especial o cavaquinho, não imagina como foi abandonar o preconceito da família e de si próprio para abraçar uma carreira pouco segura. Ao entender que “não conseguiria acessar uma força vital para direcionar em algo além de música”, deixou a íntima São Mateus e ganhou São Paulo. Isso 20 anos atrás. “O absurdo é quando você encontra a falta de sentido e descobre dois caminhos: ou você se suicida, ou aprende a viver com ela.”

Com quatro álbuns autorais (São Mateus Não É Um Lugar Assim Tão Longe, 9 Sambas, Bahia Fantástica e Conversa com Toshiro) e trabalhos em parceria com Juçara Marçal, Gui Amabis, Elza Soares, Criolo e Jards Macalé, o músico segue apaixonado por composições melódicas e aborda temas como introspecção, sincretismo, mitologia e aspectos imorais do inconsciente em suas obras. No embalo das canções de Elton Medeiros e através de livros como O Mito de Sísifo, de Camus, Rodrigo sempre retorna ao samba. Afinal, segundo ele, “o gênero consiste naquela coisa que você é e tenta negar. Os sambistas são filósofos mais diretos do existencialismo francês”.

“Me sinto em uma corda bamba entre amar o ser humano e negá-lo.” Não bastasse a inserção no mundo artístico, o músico sempre interessado pelo invisível e pelo não dado descobriu nas entrelinhas da astrologia uma “oralidade interessante em transmitir conhecimentos de geração para geração através da fala”.

Ariano pouco tradicional, com ascendente em câncer, regente em peixes, pratica a cautela, o respeito e a tolerância ainda mais desde que passou a estudar a agitação dos planetas. No boteco já não fala mais sobre o tema, pois acredita que o estudo deve ser tratado com seriedade. Ao compreender que as pessoas operam de maneiras diferentes, também entendeu que seu olhar para o mundo era apenas mais um.

“É sobre trazer as crenças para você e fazer o seu próprio balaio de percepções do mundo, não o contrário, de se fundir na crença e se perder na própria visão. A astrologia ocupa um lugar marginal porque as pessoas não conseguem explicar. Sua importância é também confiar naquilo que não se vê, no que se intui, é sobre trazer um olhar não cartesiano para o nosso mundo tecnológico. Isso é tão palpável quanto qualquer outra coisa.”


A estilista Giselle Nasser, que descobriu na simbologia junguiana uma paixão e no tarô uma veia literária | Foto: Luiz Paulin

Pendurada pelos astros

Após herdar da avó costureira o gosto pela criação de vestidos, a vida de Giselle Nasser ingressou em uma velocidade quase meteórica. A menina de 6 anos de idade que desenhava seus pseudo croquis por puro prazer, logo completaria a faculdade de moda para se tornar uma estilista de sucesso. Aos 22, já era proprietária de sua marca homônima e começaria a participar da concorrida São Paulo Fashion Week (SPFW). A partir desse momento, com um ateliê na rua Oscar Freire e uma fábrica na Vila Nova Conceição, dois tradicionais pontos da capital paulista, empregava 17 funcionários e ainda decidiu encarar outro desafio: assumir a direção criativa da Cori. Em busca de equilíbrio, optou por abandonar a rotina frenética e investir em um novo estilo de vida, pautado na espiritualidade e na qualidade das relações humanas. Hoje, atende em um espaço intimista dentro da própria residência e organiza três vendas anuais de vestidos para noivas. Os estudos esotéricos tornaram-se parte fundamental e prioridade na rotina. “Aos 15, busquei uma profissional nos classificados e ela apareceu na minha casa, na época onde eu morava com meus pais, para ler meu mapa astral. Lembro do meu pai ter ficado muito bravo com aquilo. Ele falava que era bobagem, uma vez até jogou um livro meu sobre astrologia fora.”

O interesse de Giselle pela astrologia, no entanto, é tão precoce quanto a própria carreira. Quando adolescente, despertava a ira do pai ao demonstrar profundo interesse pelo tema e, nesse aspecto, nada mudou. Estudiosa como poucos, participou de uma oficina pautada pela simbologia junguiana, que trata o autoconhecimento, a psicologia e a filosofia como elementos essenciais, e de lá para cá não passou um ano sequer sem que consultasse o seu mapa astral. Já a tarologia surgiu depois, quando adquiriu a casa onde vive atualmente e, ao iniciar as reformas, encontrou um baralho de tarô em um dos armários. “Esse estudo é um resgate das suas próprias ferramentas para lidar com quem se é.”

Geminiana com ascendente em peixes, lua em virgem, Vênus e Marte em áries, a estilista considera as duas vertentes complementares e reforça a ideia de que não existem cartas, signos ou mapas ruins, apenas diferentes interpretações. Com grande apreço pelas cartas consideradas malditas, nutre um favoritismo pela figura do pendurado, tema de uma oficina literária que revelou a ela mesma um apreço pela escrita e uma potência “tão forte quanto o trânsito de Plutão” na imagem que fala sobre vida, morte e renascimento.

Na complexa rotina de Giselle Nasser, que engloba o trabalho como estilista, os estudos sobre astrologia, a dedicação ao candomblé, uma certa simpatia pelo xamanismo e os momentos em que ataca de DJ, também há espaço para pensar o que será do futuro. “A astrologia te transforma em um ser mais tolerante. Entender que as pessoas vêm de universos distintos, de elementos distintos, e que não existe bom ou ruim, certo ou errado, é respeitar as características, as diferenças e encontrar a beleza em cada um.”


O fotógrafo Alisson Louback, que encontrou acolhimento e sensibilidade nas cartas do tarô | Foto: Alisson Louback

O louco e o mundo

Com amplo interesse pelas humanidades, o louco transita entre São Paulo e Salvador enquanto exercita sua fotografia autoral e o olhar apurado sobre as pequenezas do cotidiano. Embora a capital paulista seja a terra onde nasceu e fez morada, as relações despretensiosas, o ritmo praiano e a conexão com a família permanecem estimulando a essência soteropolitana de Alisson Louback. Do jovem que abandonou a faculdade de psicologia para trabalhar com cinema ao profissional dinâmico e capaz de transitar entre o universo do esporte, das colunas sociais e da moda, o fotógrafo encontrou no documental uma experimentação necessária. Em 20 anos de exercício da própria curiosidade a respeito do ser humano, percebeu-se incapaz de passar os dias em frente a uma tela de computador e trocou as produções para grandes veículos, como Vogue, pela oficina onde desenvolve luminárias, cria suas composições imagéticas e faz companhia a si mesmo. “Uma coisa que eu aprendi é que não dá para querer aqui o que eu tenho lá, assim como não dá para querer lá o que eu tenho aqui.”

Filho de pastor de igreja evangélica, muito cedo teve a oportunidade de se aprofundar nos estudos bíblicos, mas pouco se adaptou aos formatos que restringiam a espiritualidade como um todo. Por meio das cartas, descobriu a generosidade, o acolhimento e a clareza da tarologia, uma vertente que demanda de pouco para que se alcance esclarecimento e a resposta sempre vem porque, de alguma maneira, já está dentro de cada um. Assim como em um ensaio fotográfico, onde a ordem das imagens determina a história a ser contada, um jogo de tarô está sujeito a sutileza dos traços e as interpretações lúdicas nas combinações. Deste modo, fica fácil entender porque Alisson é a representação das cartas do louco e do mundo: sua motivação é pura e simplesmente uma vontade de conhecer os caminhos e atingir a concretização de uma totalidade de propósito, vem do desejo de ter tudo o que se pode ter. “Conhecemos as pessoas sempre tentando nos conhecer. O que o outro reverbera de mim mesmo e vice-versa. A busca por pessoas também é uma busca por si mesmo e eu só posso partir de mim mesmo.”