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Fora da Rota: a exuberância da natureza de Belém, no Pará, inspira o trabalho da designer de joias Barbara Müller

Por
Heitor Flumian
Em
28 outubro, 2019
Em parceria com

A cultura pulsante da capital paraense e experiências exclusivas pra você curtir um lado da cidade que não está nos guias de viagem

Em 2018, ao chegar à loja que tinha aberto há pouco em um ponto nobre de Belém, a designer de joias Barbara Müller, 30, topou com uma cliente filmando a vitrine do estabelecimento fechado, mais especificamente, a plaquinha que havia deixado com o recado: “Fui ao igarapé”. A mulher parecia não conseguir entender como alguém, em pleno horário comercial, podia deixar o trabalho de lado para se jogar em um curso d’água que brota refrescante no meio da Amazônia. “Olhei para ela e falei: ‘olha, o igarapé é uma delícia, aliás, as joias que faço são concebidas nestes momentos de lazer amazônico’”, conta, rindo, se referindo aos anéis, brincos, braceletes, colares e clutchs que cria desde a adolescência. O flerte com a transgressão se estende à sua obra. “Tradicionalmente, é quase proibido misturar o metal nobre com matérias-primas naturais, mas meu trabalho vai justamente na contramão dessa coisa careta”, afirma a designer, que combina ouro e prata com elementos locais, como casca de cupuaçu, chifre de búfalo, chita e madeira certificada. A produção é manual e feita em pequena escala, o que garante a exclusividade. O preço de cada acessório vai de 250 a 12 mil reais. 

Barbara manteve o endereço por um ano, período em que também se ausentou por conta de consultorias e vivências que volta e meia promove com mulheres artesãs em comunidades ribeirinhas no entorno da capital paraense. Mas mesmo reforçando à clientela que o espaço funcionava com horário agendado, se deu conta de que não tinha como tocar uma loja com um formato convencional. Além disso, não gostava da sensação de estar desempenhando um papel de empresária. “Precisei aceitar que a minha dinâmica era outra e que necessito de tempo e ócio para ser uma artista e criar as coisas”, conta. 

O mercado Ver-o-Peso: matéria-prima inspiradora para os trabalhos de Barbara Müller | Fotos: Victor Affaro

Desde então, a belenense de alma – nasceu e morou até os quatro anos em Ji-Paraná, em Rondônia –, formada em design de produtos pela Universidade do Estado do Pará (Uepa), fez do seu quarto o ateliê em que espalha pelo chão materiais e folhas repletas de desenhos, põe música no volume que bem quiser, e devaneia em meio às plantinhas que purificam o ar e o ambiente sem ousar retocar a bagunça, que adora. Detalhe: o apartamento fica a poucos passos do mercado Ver-o-Peso, cartão-postal da cidade e um dos mercados públicos mais antigos e movimentados do Brasil, inaugurado em 1625 à beira do rio Guamá. “Belém é uma cidade muito generosa em relação às referências estéticas. É um lugar pulsante, de cor, danças, cheiros, texturas. Basta um passeio no mercado de peixe do Ver-o-Peso para se deparar com uma infinidade de formatos de escamas de peixe e de geometrias. Isso é extremamente rico e acaba transbordando no meu trabalho’’, diz Barbara, que já lançou coleções inspiradas no pôr do sol visto desde o Ver-o-Peso e dos peixes amazônicos descarregados no mercado toda madrugada. 


A garota que cresceu ressignificando, de forma lúdica, objetos encontrados nas ruas e no quintal – usava as folhas de árvore grandes como sombrinha e galhos de madeira como telefone – já participou de exposições internacionais  como “Arte Brasilis”, em Roma, e, em Milão, recebeu uma menção honrosa entre 100 designers do mundo inteiro na mostra “Artista Jewelery”. Por aqui, desenvolveu projetos para marcas como Mara Mac e Martu, e fez consultorias para Farm, Grendene e SPFW.  Este mês lança no Rio de Janeiro e em São Paulo a coleção Iaguara, inspirada em felinos. A campanha conta com a atriz Maria Flor como modelo. “Os braceletes de felinos esculpidos à mão com metal nobre são peças místicas, mutantes, e os meus preferidos da coleção. Assim como os animais são diferentes, a onça, o gato, a pantera, nenhuma peça é igual a outra, têm formatos, tipo de madeira e composição de gema e metal distintas, feitas minuciosamente”, diz. Para saber mais, vá ao instagram @b.muller_

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Ver-o-Peso na madruga

“Para viver uma coisa única, algo que mesmo quem mora aqui não conhece, vá ao mercado na madrugada, na hora em que os pescadores chegam carregando os pescados; é peixe caindo pelos ombros e uma luz maravilhosa. É uma experiência antropológica ver as coisas acontecendo, aquele submundo, é outro mercado comparado ao que se vê de dia. De quebra, ainda dá para comprar peixes com preços melhores. Às 5h da manhã, quando chegam trazendo o açaí, também forma uma cena muito linda, cinematográfica.”

Iacitatá 

“O lugar, comandado por um casal, só usa produtos vindos de comunidades locais. Não usam sal para temperar os pratos, por exemplo. Tem uma proposta muito interessante: dizem que não são um restaurante e, sim, um centro cultural. É muito bacana e pouca gente conhece. O almoço é uma delícia, tem bom preço, e dá para comer sem peso na consciência sabendo que é uma comida livre de agrotóxicos.”

Bar do Parque 

“Fica em frente ao Theatro da Paz, em uma praça bastante arborizada. Já foi o lugar onde artistas do passado iam tocar música e tomar uma cerveja, hoje está um pouco mais gourmetizado; mas ainda assim vale muito conhecer. Gosto de pedir o bolinho de maniçoba, de entrada, e o risoto de camarão ou o peixe, de prato principal. Os drinks também são ótimos.”


Sair da rota. Descobrir endereços que nem sempre estão presentes nos guias de viagem. Locais que entregam experiências diferentes e conectam o viajante com a verdade de cada destino. Aproveite mais e melhor o seu tempo nas principais cidades do Brasil.