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54 horas em Caraíva: o vilarejo mais rústico #sóquenão do sul da Bahia

Por
Adriana Setti
Em
13 fevereiro, 2020

Desde a chegada da energia elétrica, em 2007, quase tudo o que se esconde por trás das fachadinhas singelas de Caraíva ficou mais sofisticado – e caro, muito caro. Mas longe do Réveillon e Carnaval ainda dá para brincar de rústico, caminhando nas ruas de areia e lanterinha na mão rumo ao forró.

Você ainda chega de canoa, anda só de chinelo e tudo tem a mesma carinha de sempre. Mas a verdade é que, nos últimos 13 anos, Caraíva mudou na velocidade da luz. Desde a chegada da energia elétrica, em 2007, quase tudo o que se esconde por trás daquelas fachadinhas singelas e coloridas ficou mais sofisticado. Caraiveiros-raiz, da era dos geradores, gostam de cultivar a nostalgia – principalmente dos precinhos amigos e da tranquilidade. Mas comemoram (em segredo) o wi-fi, a substituição da cerveja morna por aquele gim tônica, além do prazer de dormir no ar condicionado e tomar banho quentinho. E, afinal de contas, ainda dá para brincar de rústico, caminhando nas ruas de areia fofa sem iluminação pública, de lanterninha na mão, a caminho do barzin ou do forrozin. A seguir, um roteiro de 54 horas com muito banquinho-violão, rastapé, peixe na folha de patioba e boiadas épicas.

DIA 1

17h
Saravá!

Cruzar o rio Caraíva de canoa é como um ritual. Ficam para trás os carros, o 4G e as agruras da humanidade. Depois, é só pagar penitência carregando a mala na areia fofa (ou delegá-la a uma charrete) e se jogar no mar para aquele banho de descarrego. Um ótimo lugar para isso é a chamada “zona sul” de Caraíva, um trecho de praia tranquilo onde fica o novo Saravá. Estiloso, mas despretensioso, este bar pé na areia é uma ode ao jeitão deliciosamente roots que fez Caraíva ser o que é. Os drinques e comidinhas saem de um quiosque com teto de palha e, para se largar, há vários lounges com esteiras, almofadinhas e almofadões. Na praia, não faltam as típicas cabaninhas de pano ao estilo caraivano e o garçom não há de deixar faltar aquela cervejinha trincando no seu baldinho.

Banana, arroz de coco e o famoso peixe na folha de patioba | Foto: Divulgação

21h
Muita calma nessa hora

O hit do Patioba é o peixe na brasa preparado na folha da palmeira que dá nome à casa. A iguaria leva uns 45 minutos para ficar pronta. Então sente-se numa mesinha à beira do rio, peça uma geladinha com a porção de lambreta (sorria, você está na Bahia e este molusco só tem aqui) e entre no clima pausado de Caraíva. O banquete vem à mesa numa bonita travessa de madeira, acompanhado de banana assada, farofa e arroz. 

23h
Suave, suavecito

Um dos mais agradáveis de Caraíva, o Bar do Porto tem iluminação sutil, terracinhos em vários níveis – alguns cobertos e outros ao ar livre – e MPB sussurrante ao vivo. Suave e ventilado, é uma alternativa zen ao Beco da Lua, um corredor onde pequenos bares (e um grande número de pessoas) se enfileiram.

1h
Rastapé de lei

Agora tem ar condicionado. Tem lençol de mil fios. Tem influencer tirando selfie. Tem cerveja de 20 reais. Mas, algumas coisas não mudam nunca. Anota: quarta, sexta e domingo é dia de Forró do Ouriço. Quinta e sábado o que arrasa é o Forró do Pelé. E nem precisa ficar olhando o calendário. Lá pela uma da manhã, siga o fluxo e seja feliz. 

DIA 2

As ruazinhas de Caraíva: areia fofa no lugar do asfalto. E nada de carro | Foto: Kali Justine/iStock

9h
Salgado e doce

Na alta temporada, a Barra pode ser o pior lugar de Caraíva em termos de muvuca. Mas, fora da loucura de Réveillon e Carnaval, o encontro entre o rio e o mar é beleza pura. É certo que o excesso de barraquinhas causa certa poluição visual. Mas, entre um mergulho no mar quentinho e outro no rio fresquinho, a gente valoriza o coco gelado ao alcance de um aceno. 

13h
Mantendo a tradição

Um dos bastiões de Caraíva, o Boteco do Pará continua do mesmo jeitinho de sempre (mas a minha lista de preços, quanta diferença…), servindo os melhores pastéis do vilarejo em mesas rústicas à sombra de amendoeiras gigantes. Um luxo: logo ao lado do bar, há uma escadinha que leva direto ao rio, implorando por um mergulho entre um pastelzinho de arraia e outro de camarão.

15h
Fiquei boiando

Um dos programas mais caraivanos que há é munir-se de qualquer coisa que flutue, “subir” o rio caminhando até a prainha e descer boiando. Você pode perfeitamente chegar à Prainha com suas próprias pernas. A única lição de casa necessária, neste caso, é estudar as marés para saber quando o fluxo estará na direção desejada (ou seja, rumo ao mar). Mas também há quem alugue câmaras de pneu e contrate passeios para “subir” de barco a qualquer hora, ignorando a maré, para descer rebocado (o que, digamos, tira 99% da graça da coisa). Você decide. 

Boteco do Pará: o melhor pastel de arraia à sombra de amendoeiras | Foto: Divulção

20h
Cachaçaria Caraíva

Numa das casinhas mais bem aprumadas de frente pro Rio, a Caraíva Cachaçaria é uma aposta segura para quando o estômago clamar por uma comfort food. Serve hambúrgueres incrementados (prove o com picles de biri-biri), saladas, massas, risotos peixe do dia e outros pratos. Para finalizar, mate no peito uma das cachaças escolhidas a dedo.

22h
Bob é o cara

Bob, o melhor barman da vila, é um summer hunter veterano. Quanto é verão no Hemisfério Norte, ele leva a vida preparando drinques na ilha de Formentera, vizinha de Ibiza, na Espanha. Já quando a coisa esquenta por aqui, ele inventa os melhores gim tônicas da Bahia (com ervinhas locais, biri-biri e outras mágicas) na venerada Toca do Siri. O bar ferve principalmente aos sábados e segundas-feiras, com música ao vivo banquinho-violão, espalhando gente por toda a pracinha da igreja. 

DIA 3

Caminhada até a Praia do Satu: suas definições de paz foram atualizadas | Foto: Bangalôs da Aldeia

9h
Viagem a Satuland

Besunte-se com todo o protetor solar que estiver ao seu alcance, carregue uma água e saia andando. Depois de cruzar o rio Caraíva de canoa pela Barra, você caminhará uns 40 minutos até chegar à Praia do Satu. Satu, o cara, não está mais entre nós. Mas sua barraca de praia continua matando a sede e a fome dos que empreendem a jornada a um dos trechos de praia mais bonitos da região, abençoado com piscinas naturais na maré baixa (checar a tabela é essencial para o sucesso do seu dia). 

13h
Pê Efe

Depois da caminhada de ida e volta até a Praia do Satu, é bem provável que o PF do Bar do Pelé (acoplado ao forró) esteja do tamanho da sua fome. Considere-se um sujeito de sorte se o prato do dia for a colossal costela cozida com mandioca. Se a sua pegada for vegetariana, eis uma boa oportunidade para comer no Canto da Duca, uma respeitada instituição local. Reserve tempo e rede para uma siesta na sequência.

Barra do Rio Caraíva: fora da loucura de Réveillon e Carnaval, o encontro entre o rio e o mar é beleza pura | Foto: Adriana Setti

16h
Pôr do sol na prainha

A prainha, ponto de partida da boiada no rio, se transforma num lugar mágico no fim do dia. Dá pra ir caminhando (neste caso, uma lanterna é questão de sobrevivência para voltar), de canoa, de lancha ou de bugue. O importante é chegar a tempo de dar um mergulho, secar aos últimos raios de sol na ladeira de areia que avança sobre o rio e, depois, curtir o fim do dia mais fotogênico de Caraíva tomando uma água de coco.

20h
Vale por um bifinho

Saradíssimas, levemente crocantes por fora e generosamente recheadas, as tapiocas da Paty, na beira do rio (pertinho do desembarque das canoas) é a melhor alternativa para substituir uma refeição completa em Caraíva. Tem uma lista enorme de sabores salgados e doce, com mesinhas para comer sossegado. Outra especialidade da casa é o acarajé, igualmente parrudo – coma sem precisar de um banho depois, se puder. 

21h
Ziriguidum balacobaco

Terça-feira é noite de samba no Boteco Mangaba. Uma das baladas mais divertidas de Caraíva, extrapola as mesas de madeira no lado de fora e transforma o gramado em frente ao bar numa extensão da pista, botando todo mundo para suar. Para refrescar, prove a batida de coco ou maracujá.

Foto de abertura: Kali Justine/iStock