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Rubens Amatto, da Casa de Francisca: um antirrei da noite e seu palacete musical

Por Fabiana Corrêa -

Você jamais verá Rubens Amatto posando ao lado dos artistas que promove há 13 anos, desde que a sua Casa de Francisca começou a funcionar em um pequeno palco, num sobradinho antigo dos Jardins. Nem circulando pela madrugada da cidade. É mais fácil encontrá-lo buscando o filho, Francisco, na porta da escola, aos finais de tarde. Isso não quer dizer que ele não está lá, nos bastidores. Ele está, todos os dias, fazendo da Casa de Francisca um dos principais palcos da boa música independente da cidade. Por ali passam, com frequência, Arrigo Barnabé, Monica Salmaso, Nelson Ayres, Fabiana Cozza, Cida Moreira, Toninho Ferragutti. E os mais novos, Samuca e a Selva, Anaïs Sylla (convidada por Yaniel Matos), Anná, todos eles trazidos pela curadoria que Rubens faz muito bem. O que ele não curte mesmo é aparecer. A gente nem conseguiu que Rubens posasse para um retrato para esta reportagem, pense. “Prefiro promover a Francisca, fazer com que apareça o fruto do nosso trabalho duro aqui.”

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O acordeonista Mestrinho | Foto: Julia Rodrigues

Quando fala em trabalho duro, está dando a real. Rubens está quase todas as noites na Casa de Francisca, faz ele mesmo boa parte da curadoria dos artistas que sobem ao seu palco — em 25 shows por mês —, escolhe alguns deles para se apresentar no bar Baretto, com quem tem uma parceria, ajuda a administrar o restaurante, que agora abre para almoço — de comida simples e bem executada (experimente a polenta com rabada e não se arrependa). E, para incrementar o orçamento, nos dias livres a casa abre para eventos e casamentos. Está, ainda, preparando uma novidade para o segundo semestre, que vai ocupar o segundo andar do prédio. “Vai ser mais uma maneira de viabilizar o local e também de ocupar os espaços, trazer gente para cá, para o centro da cidade”, diz. Nada fácil para quem começou como designer gráfico e, até hoje, não tem muita familiaridade com planilhas. “Sinto um orgulho enorme por ajudar a manter esse lugar vivo e trazendo trocas artísticas e afetivas o tempo todo. Mas tenho que me superar, administrar a casa exige muito.”
Ah, e tem a carreira de designer, que não ficou pra trás. É ele quem faz os cartazes dos shows da casa. Tão bacanas que são uma atração extra.

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Foto: Pedro N Prata

Pois é, Rubens está mais para operário da noite do que para rei dela. Mas, ainda assim, seu palácio é uma beleza. O Palacete Tereza, construído em 1910 pela família Toledo Lara, foi restaurado em grande estilo durante três anos, coisa que os herdeiros fizeram com vistas em abrir as portas para esse novo inquilino. “Foi um trabalho minucioso”, conta, olhando para os janelões que tomam quase todo o pé-direito duplo do salão principal. Eles ficam abertos durante os shows, exatamente como nas décadas de 40 e 50, quando funcionou ali a Rádio Record, com os artistas se apresentando ao vivo nas sacadas, voltados para a rua. Francisco Alves, o rei da voz, dava palinhas para os passantes, vestidos de terno e chapéu.

Essa tradição vai se repetir durante a próxima Virada Cultural, 18 e 19 de maio, quando a Casa de Francisca será um dos palcos com Tulipa Ruiz, Mariana Aydar e Junio Barreto se apresentando no lugar que já foi considerado a esquina musical da cidade. Além da Record, ali funcionou a primeira loja de instrumentos musicais da cidade, a Casa Bevilacqua, e uma editora especializada em música, a Irmãos Vitale.

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Quando trouxe sua pequenina casa de shows para a Praça da Sé, havia a ambição de reaver um pouco do brilho que o centro da cidade já teve, desejo que está em toda a sua trajetória. Começou em Barcelona, quando Rubens, aos 25 anos, foi visitar um amigo, Rodrigo Luz, que passava uma temporada lá. “Cheguei à noite e meu amigo logo me levou para comer algo nas Ramblas. Fiquei louco com aquela energia, todo mundo aproveitando a cidade a pé, não entendia como a gente não tinha isso por aqui.”

Quando Rodrigo voltou, os dois se reencontraram no Brasil, acharam um sobradinho antigo para alugar nos Jardins e começaram, eles mesmos, a reformar. “A Casa nasceu desse encontro de amigos, irmãos. E, no início, eram mesmo os amigos e conhecidos que se apresentavam”, diz Rubens. Logo de cara, percebeu que, se os artistas estavam ali, apresentando seu trabalho, mereciam todo o respeito. E foi aí que tomou uma atitude que até hoje faz toda a diferença na Casa de Francisca. Cinco minutos antes de começar o show, o serviço para. E a atenção a quem sobe ao palco é total.

Casa de Francisca
Casa de Francisca
Fotos: Pedro N Prata

A Casa funcionou ali, com 44 lugares, durante 11 anos, e se tornou uma referência de música boa e de bons encontros. Um dia, Rubens passava na frente do Palacete Tereza e viu uma plaquinha com o retrato de Adoniran, parte de um projeto que identificou na cidade os pontos que tiveram importância na vida do compositor. Descobriu que, na antiga rádio, Adoniran fez um de seus personagens, Charutinho. Procurou os donos e descobriu que eram frequentadores da Casa de Francisca e que pensavam em “devolver o Palacete à cidade”. O interesse de Rubens foi o incentivo que precisavam para começar o restauro, que levou três anos. Nesse meio tempo, Rodrigo resolveu deixar o projeto por um outro estilo de vida. Mudou-se para o interior. E Rubens, para o centro. “A gente tenta sair da bolha e criar uma conexão maior com a cidade, tirar as pessoas de dentro do carro o tempo todo.”

De fato, nem dá pra chegar até a rua Quintino Bocaiúva, 22, de carro. Ela está naquela parte do centro paulistano feita para os pedestres, lembranças de um tempo em que a cidade era curtida a pé. E, de fato, também não deve ser muito fácil fazer a galera sair de casa para encarar uma rua deserta em torno da Praça da Sé às 22h (mas, vai por mim, chegue cedo para o jantar pois vale a viagem). Mas Rubens tem conseguido e sua casa de shows está sempre lotada de admiradores, gente que está curtindo essa possibilidade, a de aproveitar a cidade do jeito que se fazia antigamente, mas que, por isso mesmo, é tão atual e contemporâneo.

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