Solar Vibes

Como vai ser o after? Viveremos anos de hedonismo após a pandemia. Ou não.

Por
Adriana Setti

Se jogar nos excessos depois de passar um grande perrengue é um clássico do ser humano. Mas a pandemia atual tem várias particularidades, principalmente no Brasil.

Quem nunca afogou as mágoas em uma noite de excessos? Se jogar no hedonismo depois de passar por um grande perrengue é instintivo para o ser humano. “Se você olhar para o que aconteceu nos últimos 2 mil anos, quando as pandemias acabam, há uma festa. É provável que vejamos algo parecido no século 21”, disse Nicholas A. Christakis, sociólogo, médico e professor de Ciências Sociais e Naturais da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, em uma entrevista à BBC. Em seu livro mais recente, Apollo’s Arrow: the Profound and Enduring Impact of Coronavirus on the Way We Live (“A flecha de Apolo: o impacto profundo e duradouro do coronavírus na maneira como vivemos”, em tradução livre), ele recorre à história para fazer uma análise de como a covid-19 deixará marcas na sociedade e prevê: “depois da pandemia, poderemos ter um período de libertinagem sexual e gastança desenfreada”.

Um século atrás, a humanidade começava a recobrar o fôlego após a Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), seguida pela pandemia da Gripe Espanhola (1918 a 1920), que deixou 50 milhões de mortos. Não à toa, a década seguinte entraria para a história como “os loucos anos 1920”. A vibe dessa época, que teve a capital francesa como sua vitrine mais glamorosa – com Picasso, Hemingway, Dalí e Scott Fitzgerald fechando o cabaré – está em Paris é uma festa, de Ernest Hemingway, e Meia Noite em Paris, de Woody Allen, entre muitos outros livros e filmes. Mas não foi só a Europa que pegou fogo. Nos Estados Unidos, os inferninhos ferviam ao som de jazz e blues, enquanto Hollywood inaugurava sua era de ouro do cinema. O Grande Gatsby, de Fitzgerald, dá uma palhinha do que rolava em Nova York nessa época de abundância, liberdade e carpe diem.

Enquanto isso, no Brasil, em meio a diversas rupturas sociais e políticas, também vivemos nossos anos loucos. “Se você fosse no bordel de uma mulher chamada Alice Cavalo de Pau, na Lapa, encontrava Manuel Bandeira, Villa-Lobos, Di Cavalcanti… Essa quase intimidade entre os famosos e anônimos, que é uma marca do Rio até hoje, já acontecia vastamente naquela época, assim como a convivência altamente harmoniosa e produtiva entre os representantes da alta e da baixa cultura”, conta Ruy Castro, autor de Metropole À Beira-mar – O Rio Moderno dos Anos 20 (Companhia das Letras). “O Rio dos anos 1920 era uma cidade em convulsão na imprensa, na literatura, na música popular, na ópera, no teatro, nas artes plásticas, na caricatura, na ciência, na arquitetura, na praia, na luta das mulheres, nos costumes, no sexo e nas drogas”, completa.

 “É recorrente dizer que crises, guerras e pandemias gerem grandes impactos de transformação no mundo”, diz o escritor André Carvalhal, consultor e palestrante de tendências de comportamento e sustentabilidade. “Muitos movimentos de liberdade criativa na moda, na cultura e em outras áreas surgiram depois momentos históricos como esses e, portanto, acabam embasando essas previsões. Mas o que estamos vivendo agora é diferente, porque não teve o mesmo começo, meio e fim para todo mundo, como acontece, por exemplo, em uma guerra. Além disso, falando especificamente de pandemias, a da Covid-19 tem uma série de peculiaridades impostas pelas transmutações do vírus, que tornam muito difícil delimitar um fim e, consequentemente, prever como vai ser o pós”, completa. Segundo o autor de Como Salvar o Futuro: Ações Para o Presente (Paralela), no caso do Brasil, a forma como cada um vem encarando (ou negando) a crise sanitária atual influenciará o que está por vir. Também pesará nessa balança a brutal acentuação da desigualdade social no país gerada pela crise sanitária – dados divulgados recentemente pelo IBGE indicam que os 10% mais ricos perderam 3% dos ganhos com a pandemia, enquanto os 40% mais pobres viram a renda familiar reduzida em mais de 30%. “Aqui temos pessoas vivendo em realidades paralelas.

Para alguns, esse momento de euforia já chegou. Para outros, está surgindo um movimento contrário, de busca por segurança, controle e estabilidade”, diz Carvalhal.Uma pesquisa feita pelas revistas norte-americanas Esquire e Cosmopolitan também sugere que, entre os lençóis, os anos 2020 não devem ser loucos para todo mundo. Dos 2000 homens e mulheres entrevistados, 19% cogitam um relacionamento aberto no futuro e 46% acham que vão sair da pandemia dispostos a viver novas experiências sexuais. Por outro lado, 64% disseram que já não estão mais a fim de uma noite de nada mais. E, entre os solteiros, 52% afirmaram estar em busca de um relacionamento estável. O que aparece quase como unanimidade nas respostas é mais do que esperado. Depois de um ano de escassez para solteiros e intensivão de convivência para casais, trisais e afins, está todo mundo querendo (e merecendo) transar melhor.