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Rafa Mon conta como é ser ativista LGBTQIA+ no Brasil e o que já conquistou comprando essa briga

Por
Adriana Setti

Lutando para trazer respeito e igualdade à pessoa que mais ama, seu filho Davi, uma criança agênero, a muralista se tornou uma das artistas mais influentes da cena de arte urbana carioca.

Em meados de 2017, a artista visual Rafa Monteiro (@rafamon) foi surpreendida por seu filho. Aos 10 anos, Davi se declarou agênero. “Naquele momento, tive certeza de que proteger as crianças LGBTQIA+ seria a minha principal bandeira”, diz a mineira de Monte Sião que, até então, tinha no feminismo a sua causa. “Para trazer respeito e igualdade à pessoa que mais amo nesse mundo, soube que teria que lutar muito”. Radicada no Rio de Janeiro desde 2004, Rafa Mon se tornou uma das artistas e ativistas mais influentes da cidade, colorindo paredes com seus traços caleidoscópicos e cores gritantes, de Botafogo ao Boulevard Olímpico, passando por Santa Teresa, onde vive e acaba de inaugurar o seu ateliê. Casada com o cartunista e humorista Arnaldo Branco, a muralista acaba de concluir a obra mais importante da sua carreira até agora: um retrato do garoto Alexandre Ivo, vítima da homofobia aos 14 anos em 2010. Aqui, ela conta como é ser ativista LGBTQIA+ no Brasil de Bolsonaro e o que já conquistou comprando essa briga.

Você se tornou ativista por causa do seu filho, Davi. Quando isso aconteceu e como isso começou influenciou a sua arte?

Eu era ativista feminista quando o Davi me trouxe essas questões de gênero e sexualidade, em 2017. Aos 10 anos, ele queria usar saia, fazer maquiagem, gostava de meninos. E sabia com clareza que não se encaixava em nenhum gênero. Ou seja, se considerava agênero. Naquele momento, tive certeza de que, a partir daquele dia, essa seria a minha principal bandeira: “protejam as crianças LGBTQIA+ porque elas existem e precisam ser protegidas”. Várias dessas crianças morrem de maneira brutal nas mãos de pessoas intolerantes, que muitas vezes são parentes. Para trazer respeito e igualdade à pessoa que mais amo nesse mundo, soube que ia ter que lutar muito.

Rafa e o filho Davi, que se declarou agênero aos 10 anos, em 2017 | Créditos: Arquivo pessoal

O que você acha que conquistou com o ativismo desde então?

Conquistei muitas coisas no sentido de diálogo e de trazer exposição para a causa das crianças LGBTQIA+. Acho que consegui abertura para falar desse assunto que, durante muito tempo foi, e ainda é, um tabu. Pra mim, isso é fundamental.

Teve algum momento marcante em que você pensou: “isso está valendo a pena”?

Tive esse momento de pensar que vale a pena em vários trabalhos. Um deles foi dois anos atrás, quando pintei um autorretrato ao lado de Davi, com a palavra orgulho, no Boulevard Olímpico. Essa obra me trouxe bastante exposição e oportunidade para discutir essa pauta. Mas, sem sombra de dúvida, meu último trabalho foi quando realmente pensei: “sou muito feliz por fazer o que faço e estou no caminho certo”. Pintei o Alexandre Ivo, uma criança de 14 anos que foi brutalmente assassinada em 2010. Ele foi torturado durante três horas por três homens homofóbicos ao sair de uma festa onde amigos dele já tinham sido agredidos por serem gays. Até hoje esse crime não foi julgado, porque a justiça do Brasil é extremamente lenta. Esse mural me trouxe muita gratidão, porque a mãe dele, que convive com o peso da perda brutal do seu filho, e também é ativista LGBTQIA+ e pela diversidade, me mandou uma mensagem dizendo que, depois de onze anos, pode viver a morte dele de uma forma diferente. Depois que pintei o Alexandre colorido, de uma forma que ele vai durar muito tempo, ela ressignificou esse dia. Transformar a dor dessa mãe com a minha pintura foi muito importante. A obra também acabou rendendo uma matéria na Globo cobrando o Ministério Público, o que pode fazer com que o caso seja reaberto. Pra mim, isso foi o melhor reconhecimento.

O mural pintado no Rio em homenagem a Alexandre Ivo, uma criança de 14 anos que foi brutalmente assassinada em 2010 vítima de homofobia

Qual é a importância do dia internacional do orgulho LGBTQIA+?

Não é um dia feliz. A importância desse dia é realmente relembrar e quantos Alexandres Ivos já morreram pela intolerância, trazer visibilidade para a causa e chamar a atenção do poder público.

Por falar em poder público, como é ser ativista LGBTQIA+ no Brasil de Bolsonaro?

Não sei nem explicar. O Davi me tornou ativista no meio de 2017 e, no fim do ano, Bolsonaro já foi eleito. Eu disse: “ferrou, vou morrer”. É difícil, é suado, porque vemos todas as políticas públicas relacionadas à causa LGBTQIA+ deixando de existir. Então temos que lutar ainda mais. Na próxima segunda-feira [hoje, dia 28], vou receber uma menção honrosa na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, da vereadora Tainá de Paula, pelo meu trabalho no ativismo. São passos de formiga, mas, pouco a pouco, a gente abre espaço, mesmo com Bolsonaro. Quando a gente consegue avançar, é muito maravilhoso.

Como você se protege, do ponto de vista da saúde mental, dos ataques que sofre por se posicionar?

Estou acostumada com ataques de haters. Quando decidi comprar essa briga, me preparei psicologicamente. E, obviamente, faço análise. O que mais me desestabiliza, na verdade, é ter que brigar dentro da minha bolha, quando sofro ataques sutis de pessoas intolerantes que achava que não eram. E nisso incluo os pais do colégio do Davi, por exemplo. Daí fico arrasada, porque penso: “se estou tendo que explicar o óbvio dentro da minha bolha, imagine como está a coisa fora dela”. É difícil, mas sigo em frente.

Rafa Mon

Existe machismo no universo muralista? Como ele se manifesta?

Existe muito machismo nesse universo da arte urbana. E ele se manifesta tanto para deslegitimar o nosso trabalho, dizendo que uma mulher está copiando um homem, ou nos vetando de eventos e festivais. Melhorou um pouco, porque atualmente as pessoas pelo menos têm vergonha e estão procurando se informar. Mas é uma cena que vem da rua e do hip hop, que é um ambiente patriarcal. Só agora as mulheres estão começando a ser protagonistas.

Por qual obra sua você tem mais carinho?

Costumo dizer que sempre a última. E, neste momento, sem sombra de dúvidas é mesmo. Pintei o Alexandre Ivo como se ele fosse meu filho e, sempre que penso nessa história, tenho vontade de chorar [voz embargada]. Estou até conversando sobre isso na análise, porque foi muito dolorido e ao mesmo tempo maravilhoso. Me entreguei totalmente a esse trabalho por tudo o que ele representa.

Como você lida com o caráter efêmero do grafiti?

Eu acho isso bonito. Você tem que trabalhar o desapego a partir do momento em que termina uma obra. É um trabalho psicológico, porque um grafiti pode sofrer vandalismo, a ação do tempo e várias outras coisas. Já tive obras minhas apagadas e meu trabalho mais grandioso, O Canto da Sereia, em um edifício da praia de Botafogo, está praticamente caindo. Você entrega pro mundo e é isso. Não costumo refazer. Quando fica muito velho ou sofre algum tipo de vandalismo, eu não arrumo, crio outro. Sempre digo nos meus workshops: terminou um trabalho? Fotografa, porque amanhã ele pode não estar mais lá. Às vezes dói, mas não tem o que fazer.

O que você acha mais irritante que falem sobre a sua obra?

A arte está aí pra isso, pra ser interpretada de diversas maneiras, inclusive negativas. Faz parte. Eu até me divirto com alguns comentários, não me irrito.

Rafa e o marido, o cartunista e humorista Arnaldo Branco

Desde quando você mora em Santa Teresa? Por que escolheu o bairro?

Estou com 42 anos e, quando pisei no Rio de Janeiro pela primeira vez, aos 20 anos de idade, decidi que ia morar no bairro. Me apaixonei profundamente por diversos aspectos. Como nunca tinha viajado pra fora do país, Santa Teresa me encantou por trazer um registro histórico em cada casa. Achei isso muito maravilhoso. E, ao mesmo tempo, tinha cara de cidade do interior, como eu estava acostumada. Ao me mudar para o Rio, em 2004, vim direto pra cá. Quando me casei com o Arnaldo, nascido e criado no Leblon, tive que fazer todo um trabalho de convencimento, porque rola um preconceito da Zona Sul com Santa Teresa, porque o acesso é difícil e não tem metrô. Mas isso não é verdade. Comecei a trazer ele aos poucos para o bairro até que rolou. Alugamos uma casa e, no meio do ano passado, convenci ele de que a gente deveria comprar a nossa. Agora só saio de lá se for para viver em Barcelona, outro lugar que, quando pisei, disse que moraria um dia. E, como sou persistente, pode ser que isso role mesmo. Risos.

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