diversão & arte

Entrevista: Duda Beat é o sol da sofrência pop

Por Bruno Dieguez -

Eduarda Bittencourt ilumina a dor cantando hits de amor não correspondido com humor e empoderamento. Radicada no Rio há quase 15 anos, a recifense deixou o Nordeste com o sonho de estudar medicina porque achava lindo o poder de fazer alguma coisa pelo outro. Mudou de rota pra chegar ao mesmo destino com a persona Duda Beat. Ao lado de Gilberto Gil e Céu, ela é uma das headliners do MECAInhotim, que acontece entre os dias 17 e 19 de maio. Fã da autenticidade e da força de Chico Science e do movimento manguebeat, é uma artista que valoriza o trabalho em equipe e as parcerias musicais. Ama a pluralidade e rejeita a intolerância. “Diversidade é fundamental pra gente ser o que a gente é”, diz. Ela sofre sim, mas de cabeça em pé e sorriso no rosto.

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Sofrência tem uma aura down, meio dark. Mas a sua figura imprime uma outra leitura.

Eu sempre fui uma pessoa muito solar, mesmo quando tava sofrendo. Era aquela pessoa que tava triste porque o cara não queria estar comigo, mas tava fazendo piada da situação. É óbvio que nas letras das músicas eu tô sofrendo, chorando, resmungando aquele amor. Mas tive uma preocupação muito grande em deixar todas as músicas do disco solares, porque é o que eu sou. É pra sofrer dançando.

Por que é bom rir de si mesmo?

Você deixa as coisas mais leves, não se cobra tanto, não fica tão na merda.
Tem que ir ao fundo do poço e aproveitar a sofrência. Transformar essa dor em alguma coisa. Porque depois, quando você se levantar, vai ser foda. O sofrimento é chuvoso, mas também é solar, porque na hora da reviravolta o sol
brilha de novo.

Qual foi sua pior “Bédi Beat”?

Foi quando eu era apaixonada por um cara. A gente ficou durante sete anos e eu sempre na esperança de namorar. Um dia ele disse que uma outra ficante dele tinha engravidado. E eu achava que ele tava só comigo. Queria morrer. Eu peguei as minhas coisas e fui embora pro Recife. Dos 14 anos que tô no Rio, por seis meses eu voltei pra casa dos meus pais pra me curar dessa dor. Voltei, acabei ficando com essa pessoa de novo e terminou dois anos depois.

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Você acessa as memórias do tanto que já sofreu pra fazer música?

Foi horrível reviver as minhas dores e as coisas que eu passei ao longo dos dois anos fazendo o disco. Já não é tão ruim, eu tô superbem. Quando é pra reviver, eu fecho os olhos e lembro o que aconteceu. Uma das coisas mais legais é a quantidade de mensagens dizendo como o meu disco ajudou a superar um amor que não rolou, o fim de um casamento. Eu consegui o que eu queria: tocar as pessoas com a minha arte.

E como a sua arte vai evoluir agora que você não tá sofrendo?

Não tô sofrendo, mas tenho um monte de coisa pra contar (risos). Foram dez anos de sofrimento, imagina se um disco ia dar conta. Eu tenho ainda muita música de sofrimento, mas também tenho feito de amor recíproco, de conquista, de como foi o início com o Tomás [Tróia, namorado, produtor musical e guitarrista da sua banda]. Ele era o meu melhor amigo e eu não sabia o que fazer com isso, foi difícil me entregar completamente. Posso contar um pouco dessa fase. Meu próximo disco vai ser de transição, da Duda que tava muito triste e ficou feliz de novo.

Você começou cantando em igreja...

Igreja é fundamental, mas as pessoas que estão dentro dela estragam tudo. Eu sou formada em ciências políticas e o título do meu trabalho de conclusão foi “Vote em mim em nome de Deus” — trata-se de uma análise da base religiosa dentro do Congresso. Rola uma verdadeira lavagem cerebral. Não sei se Deus aprovaria isso.

E se a gente ampliar o leque pra espiritualidade?

Todo mundo tem que ter alguma fé, em qualquer coisa. É o que faz a gente parar pra pensar. É aí que a gente evolui.

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Aonde você quer chegar como artista?

Sou ambiciosa e quero sempre mais. Me sinto muito feliz com o resultado do trabalho da minha equipe. Sofri muito, e não só amorosamente. Trabalhei muito. Limpei muita parede, muito chão pra conseguir dinheiro pra acabar meu disco. Agora tô colhendo os frutos. Mas não tô nem na metade do trabalho que tenho pra fazer.

O que é verão pra você?

Short jeans, regata, praia, calor, felicidade, alto-astral, festa na rua, picolé, sorvete. O verão no Recife era o verão de menina, onde eu curtia com a minha família. No Rio eu patino na Lagoa, dou um tchibum no Leblon, almoço num restaurante gostoso com meu namorado...

Algum lugar no Rio que você esteja mais apegada ultimamente?

Fui morar em Laranjeiras, que é o bairro do Tomás. A gente vai muito no Maya Café, na General Glicério. Toda vez que não estou viajando a gente vai na feirinha de rua de sábado comer pastel e ouvir chorinho.

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E qual é a memória mais forte do Recife?

É da feirinha do Recife Antigo aos domingos com a minha família, comendo acarajé, arrumadinho e vendo o Carnaval passar.

Qual o valor do seu sotaque?

Não vou perder nunca. Faz parte de mim, é a minha formação. Cada vez que
eu volto pra casa eu só faço refrescá-lo na minha cabeça, enraizá-lo mais.

O que você quer gritar pro mundo agora?

Tanta coisa. Amem mais, quebrem a cara e reconstruam de novo. É bom também amar e não ser correspondido. O sofrimento é importante pra gente evoluir. Sofra, porque depois disso vai vir alguma coisa muito melhor para você.

Você também pode ler esta reportagem na segunda edição da revista do The Summer Hunter

Créditos de imagens: Duda Beat foi fotografada na piscina do Hotel Arpoador, no RJ | Foto: Bruno Machado e Juliana Rocha | Direção de arte e styling: Luiz Wachelke | Beleza: Zeca Magalhães