Solar People

Em busca do prazer de ler, aqui, ali e em qualquer lugar

Por
Rafael Bittencourt
Em
3 junho, 2016

A Rachel é uma daquelas pessoas que gosta de descobrir arte nos lugares mais improváveis e tem como um dos seus principais prazeres passar horas entre os livreiros que se apinham em torno da estação Carioca do metrô, imersa em histórias que, muitas vezes, ninguém conhece. Esse é apenas um dos inúmeros traços de sua personalidade envolvente e de seu olhar encantador, que fez com que sua estante de livros se transformasse em uma editora, que nasceu entre brincadeiras com bolhas de sabão em Chicago – daí o nome, A Bolha Editora – e que está presente nas mais diversas feiras e tem até uma bike-livraria. Conversar com ela, mesmo para quem não a conhece, é como bater um longo papo com aquela velha amiga que tem várias histórias incríveis de viagens e te transporta para um hotel de artistas em Nova York, por exemplo, com a mesma facilidade que te leva para seus tempos de estudante de filosofia em Paris. Nascida em Minas Gerais, erradicada em Brasília e criada pelo mundo, Rachel escolheu o Rio de Janeiro, mais especificamente o terraço da antiga Fábrica da Behring, no bairro de Santo Cristo, para sua nova empreitada em que trabalho é sim, sinônimo de prazer.

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Você está há bastante tempo circulando pelo mundo… Como foram essas experiências?
Foram oportunidades que surgiram justamente quando eu saí da escola. Na época de entrar na faculdade, muitos dos meus amigos iam estudar nos Estados Unidos e eu não tinha tanta vontade de estar na América do Norte, então eu decidi ir pra Paris, onde eu passei quatro anos fazendo Bacharelado em Filosofia e Política Internacional na Universidade Americana de Paris. Sempre tive esses ciclos: fui pra Paris e fiquei quatro anos, depois voltei pra Brasília onde fiquei por mais quatro anos – quando comecei mestrado na UnB (Universidade de Brasília) e fiquei trabalhando paralelamente na Unesco –, depois disso fui para os Estados Unidos fazer outro mestrado em Belas Artes na Escola do Instituto de Artes de Chicago e por lá fiquei mais três anos. Em 2010 fui fazer uma residência artística em Escrita em um hotel em Nova York, onde eu também fiz estágio na Ugly Duckling Presse, uma editora independente e um coletivo fundada por uns professores russos.

E como foi esse mestrado em Chicago e logo depois experimentar Nova York num contexto tão icônico?
Fui pra Chicago aos 28 anos. Nessa época eu estava mais madura e o bom de estar num mestrado com tanta liberdade é que existe um outro tipo de comunicação entre você e os professores, então as pessoas que eu conheci eram muito abertas e puderam me dar o tempo e o espaço que eu precisava pra produzir e experimentar. Até porque, depois de um certo tempo, eu quase não tinha aulas. Era uma escola de arte e os professores estimulavam: “Se aventurem! Qualquer processo artístico é complementar!”. Inclusive, foram nessas aventuras que eu conheci a Stephanie, co-fundadora d’A Bolha.

E de onde veio o nome A Bolha?
Toda essa liberdade do mestrado nos deu uma possibilidade muito grande de brincar. A gente estava muito bem na própria carne, muito à vontade, de modo que eu e a Stephanie circulávamos e brincávamos muito pela cidade. E nos Estados Unidos é tudo enorme, do pote de geleia à batata frita, e até as bolhas de sabão são colossais! Em Chicago tinham uns apetrechos para fazer bolhas de sabão que a gente brincava muito. E numa dessas brincadeiras surgiu o nome Just a Bubble Press, em inglês mesmo, por que era um reflexo linguístico do momento que eu estava vivendo. Mas, claro, o nome no Brasil tinha que ser em português, por isso virou A Bolha, com o artigo mesmo, por que tem uma sonoridade interessante, que lembra o nome inicial.

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Essa liberdade artística, com tanta ludicidade, mudou muito sua visão sobre como eram as coisas no Brasil?
Há muito tempo eu já tinha vontade de trazer outras coisas pro Brasil. O que eu estava acostumada a ver publicado aqui era algo, normalmente, muito limitado em relação ao que eu entendia como literatura, como narrativa visual. Não existia muito risco por parte das grandes editoras. Por outro lado, tinha muita coisa interessante que durante o tempo em Chicago eu tive tempo de descobrir. Foi nessa época também que eu decidi que eu queria fazer só aquilo que me dava prazer, pra tirar essa construção social de que “onde tem trabalho não tem prazer”. Eu não acredito nessa fragmentação do que é pessoal e o que é profissional. É tudo uma coisa só. Por isso, eu queria tentar arrumar uma maneira pra que eu pudesse ficar escrevendo, mas também podendo trazer e dar oportunidade para outros artistas que não tinham espaço para o mercado editorial tradicional brasileiro. Foi assim que surgiu a ideia da editora.

E chegando ao Brasil, houve algum choque cultural ou alguma novidade com que vocês não estavam contando?
Em nenhum momento pensei que não havia espaço no Brasil. Tanto que a gente assinou o contrato daquele espaço, que não passava de duas casinhas destruídas e cheias de pombos na Antiga Fábrica da Bhering pra abrir A Bolha, em novembro de 2010, antes mesmo de ter um apartamento no Rio. Eu só me mudei oficialmente pra cá dois meses depois, mas mesmo assim era um apartamento desses de temporada, onde eu ficava revisando os primeiros livros que íamos publicar, andando de pijama pela casa naquele calor absurdo! Eu já tinha a ideia de que as coisas publicadas aqui eram mais por decisão das editoras, como se o leitor brasileiro não estivesse aberto a se habituar a uma linguagem de risco. Você não via coisas muito diferentes, como as que estavam sendo publicadas lá fora. Eu não tenho nada contra best-sellers, mas eu sempre soube que havia espaço pra outras coisas, outras linguagens, coisas diferentes do que as grandes editoras pensavam.

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De onde vocês tiram todos esses autores e essas obras?
Eu me sinto num parque de diversões quando estou vasculhando uma livraria desconhecida. E me traz uma felicidade enorme como leitora quando eu estou descobrindo esses mundos. Este é o sentimento que a gente publica. A Bolha é um trabalho de abertura de espaço e vem mostrar que no mundo há outras movimentações: “olha, tem outras coisas aqui que merecem espaço!”. Além disso, eu não acredito em escrita que não é corpo, em uma linguagem que não é física, e eu vejo muito isso, por exemplo, no livro “Seu Corpo Figurado”, do escritor americano Douglas A. Martin e traduzido pelo Daniel Galera.

Interessante isso, por que as escolhas dos livros parecem ter histórias bem próprias também. Quando olho pra seleção de vocês, parece que estamos olhando pra estante de alguém…
E é bem isso mesmo. Fico feliz de saber que as pessoas têm essa percepção. Parece óbvio, mas a gente foi descobrindo esses livros, lendo mesmo – e diversas vezes! – e vasculhando livrarias desconhecidas pelo mundo num processo orgânico, que, como eu disse, são os momentos de maior felicidade pra gente. O que dá prazer, a gente corre atrás, né?! E, de fato, são todos livros que estão na minha estante, livros que eu tenho e que eu achei que mereciam ter espaço no Brasil.

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Tem alguma história de descoberta que mudou sua visão sobre alguma coisa?
Uns dias antes de fazer uma viagem de trem de dois dias entre Chicago e Sacramento, na Califórnia, eu, que nunca fui uma pessoa que consumia arduamente narrativas visuais (prefiro chamar assim pra não estimular qualquer estigma negativo que a palavra quadrinho geralmente carrega pra algumas pessoas), comprei diversos títulos e, de maneira orgânica, entrei naquele mundo e esse hábito naturalmente cresceu. Aos poucos fui descobrindo coisas extraordinárias, de um nonsense inteligentíssimo, e a minha reação era de “meu Deus! Como eu não conhecia isso antes?! Isso é muito bom!” E essas narrativas, muitas vezes subversivas e provocadoras, acabaram virando parte da minha estante e que a gente leva pr’A Bolha.

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Você fala muito sobre “abrir espaço” e vocês fazem isso não só por meio dos livros, mas também com os contextos que estão inseridos. Não é todo dia que a gente encontra uma livraria em uma feira orgânica de produtores locais ou num terraço de uma antiga fábrica de chocolates, por exemplo. Como tem sido abrir esses espaço no Rio?
Nosso objetivo é trazer uma movimentação na cultura de modo geral e o Rio de Janeiro é culturalmente conservador, então fazer isso no começo acabou sendo muito solitário. Mas nesses contextos que a gente foi chegando, as pessoas eram muito abertas e então acabaram virando amigas e parceiras. O legal é que você começa a ouvir falar de pessoas fazendo coisas muito legais com propostas de mudar uma realidade cultural como o Norte Comum, a Comuna, a Junta Local, etc. É difícil, e seria difícil em qualquer cidade do Brasil, mas a gente sempre achou essa dificuldade necessária pra desconstrução de um conservadorismo que está na pele das pessoas que moram aqui. É problemático, porque existe uma questão de falta de incentivo, uma visão por parte dos governos que desumaniza muito o cidadão. Por outro lado, tem muita gente tentando abrir outras realidades. O importante é não romantizar, é desconstruir esse idealismo, pois só assim vamos conseguir fazer muito mais com o lugar onde a gente vive.

Essa abertura de espaço também significa uma reformulação do que a gente conhece por “mundo profissional”?
Esse formato do mundo profissional é extremamente impessoal, não há conversa, não há diálogo, as informações são simplesmente passadas friamente para o outro lado, como um robô de gravata. Não existe o interesse em ouvir o outro. A gente está cada vez mais atrás de uma tela, escondido nas sombras das redes sociais. As pessoas estão cada vez mais sentindo falta de humanidade: de diálogo, de contato, de troca. Isso é muito mais saudável em diversas camadas, não à toa que estão cada vez mais abertas a uma busca por uma maior consciência em termos de consumo.

Da forma que você fala, passa uma sensação de que estes são contextos em que A Bolha está inserida, algo muito humanizado. E isso só se confirma ao lembrarmos da reação das pessoas com o incêndio no loja de vocês dentro do Comuna, no final do ano passado…
Foi muito bonito de ver que as pessoas tinham um carinho tão grande pela editora, de que não estávamos sozinhos e de que a editora representa alguma coisa a nível pessoal mesmo. As pessoas estão cansadas dessa desumanização. Eu estou cansada disso. Acho muito problemático quando a gente não vê ou sente o fator humano nas instituições. Eu acho que a perda do fator humano é a perda da alma da personalidade daquilo que foi construído. Então, no fim das contas, aquilo tudo mostrou que a gente está fazendo alguma coisa certa, mesmo com todas as dificuldades nessa nossa abertura de caminho. Isso é igual quando uma criança brinca: quando a gente cai, a gente levanta e continua a brincadeira.

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