Solar People

All you need is love, surfe e malemolência

Por
Eloá Orazem
Em
14 fevereiro, 2016

Pedro Perdigão é mais um no meio da multidão: camaleão à sua maneira, o publicitário se funde a paisagens e pessoas sem mudar. A técnica que lhe veio de berço é o grande trunfo do cara que tem nas mãos a Void, uma general store que, assim como ele, consegue, sem querer, se moldar ao seu público – do hipster à patricinha, do comuna ao coxinha. Mas não se deixe enganar pela fala mansa e o carisma desse cabeludo convicto, porque, acredite se quiser, seu currículo é ainda mais extenso que as madeixas desgrenhadas que cultiva in natura, no topo de sua mente brilhante. A mesma genialidade que lhe garantiu ingresso na faculdade ainda no segundo ano do colegial, também o levou a palestrar no Massachusetts Institute of Technology (MIT) e, anota aí, vai fazer com que o mundo se perca no emaranhado – de cabelo e de talento. Mas estejam avisados: não há nada nem ninguém – e nem tesoura – que segure, aos 26 anos, o nosso Sansão à carioca.

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Tenho a impressão que todo mundo no Rio de Janeiro, de alguma forma, se conhece. Você também acha isso?
A zona sul é muito pequena. Existem várias cenas: a galera do surfe, da moda, da música… Mas são cenas pequenas e, para fazer um evento legal e maior, é preciso uma integração e acaba que todo mundo se esbarra o tempo todo.

E qual é a sua cena? A do surfe?
Eu sou mais do surfe porque eu pego onda, mas eu transito muito também. Dialogo bastante com o pessoal da moda, até porque eu comecei com um blog de moda na faculdade, quando comecei a dirigir alguns filmes de moda [além de idealizador, Pedro também é um dos produtores da Mimpi Film Fetival, dedicado ao skate e ao surfe]. Então eu comecei a me relacionar com isso também, além do surfe – tanto que passei a trabalhar com moda: participei de todo o reposicionamento de branding da Redley. Estudei publicidade, aqui mesmo no Rio, e no meu projeto final eu desenvolvi uma metodologia de pesquisa que trabalhava com influência social. Eu tinha que identificar pessoas e marcas e aproximá-las. O que eu desenvolvi foi uma metodologia que encontrava essas pessoas e as engajava em uma causa. Fui pro MIT apresentar essa história. Sempre gostei muito de observar o comportamento humano. Aí eu abri a minha agência. Eu tinha uns 19, 20 anos e o empreendimento começou a crescer muito rápido, pegando grandes clientes, como Melissa, Pepsi, Itaú… Eu tinha 22 anos e gerenciava uma empresa com mais de 30 funcionários.

E tudo isso nasceu desse seu projeto?
Isso, porque já existiam outras empresas pop research, mas eu apliquei neles mesmo o que eles faziam.

Você ainda tem essa agência?
Não. Comecei a me frustrar com a publicidade, porque alguns clientes não queriam um trabalho no longo prazo – estava todo mundo atrás de resultado imediato. As pessoas adoravam o discurso, mas na prática todo mundo queria os números para gerar resultado e mostrar para a diretoria. Algumas marcas até topavam esse desafio, como a Redley, que me convidou para assumir o branding da marca. Aí os caras da Void, que eu já conhecia há tempos, me ligaram, porque eles queriam vir ao Rio e me convidaram para fazer parte do negócio. Durante um tempo eu dividia a atenção entre Redley e Void, mas chegou um momento que eu precisei ficar só com a segunda. Na Void assumi toda a direção criativa e de comunicação.

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Você sempre teve esse talento natural de se socializar? Era o garoto popular do colégio?
Eu era o cara que era amigo de todo mundo: do zelador ao moleque que sofria bullying. Minha mãe conta que meu irmão, que é mais velho, ficava falando: “mamãe, porque que todo mundo fala com o Pedrinho?”. E ela respondia: “é ele que fala com todo mundo!”. Sempre fui e continuo sendo assim. Eu fiz PUC aqui no Rio e são poucas as faculdades com campus por aqui, onde você tem a chance de interagir com a galera de outros cursos. Na faculdade eu agitava os eventos de moda. Nunca fui parte do diretório acadêmico, mas era eu que unia a galera.

Então não era uma coisa que você fazia pensando em empreender, era você sendo você mesmo.
Sim, tudo muito orgânico. Eu queria fazer as coisas, então na faculdade eu tocava os eventos, mas nunca associado a causas política – eu queria era entretenimento. Aí eu criei um desfile lá na faculdade.

E o pessoal não te enchia o saco por ser um garoto liderando os eventos de moda?
Não. E foda-se se alguém enchia, eu não estava nem aí. Tinha amigas e amigos que ficavam com a parte da moda propriamente dita enquanto eu cuidava da produção dos filmes fashion.

Você não era, então, um cara centralizador, né? Sempre tocava a bola pros outros…
Exatamente. Era uma coisa de fazer junto e unir a galera. Até os meus sócios da agência eu conheci na faculdade. Eu tinha um grupo de amigos que viraram meus sócios e até hoje somos muito próximos. A agência acabou, cada um tomou seu rumo, mas continuamos unidos.

Você parece ser uma mistura de muitas cenas…
Eu cresci na Barra da Tijuca, na verdade, que é um bairro muito ligado ao esporte. Não tem tanto o edge de moda e cultura, mas é uma galera muito solar, que curte se cuidar. Na faculdade eu fui morar na Zona Sul, e foi aí que eu me relacionei com outros mundos. Sempre fui do surfe e do skate, mas a faculdade me abriu um mundo cultural. Eu me apaixonei e entrei. Eu tenho todos esses lados, sabe?

Parte das suas relações duradouras tem a ver com o fato de elas serem espontâneas e verdadeiras?
Com certeza. Por conta do meu trabalho, eu tinha que me relacionar com muita gente, e embora o approach seja profissional, eu acabava virando amigo da galera. Eu sou muito aberto – e às vezes isso pode ser até um defeito. Eu me entrego muito. Amizade é isso: ceder, abrir, trocar…

Você acha que essa coisa da empatia, de sociabilidade, é um talento?
Acho que é uma facilidade, não sei se um talento. Acho que as marcas onde eu trabalhei consideravam isso importante para o time.

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A Void tomou grandes proporções, mas você não tem o look e o discurso do empresário tradicional. As pessoas, em algum momento, não te levam a sério por isso?
É muito engraçado, porque eu comecei tudo muito novo. Entrei na faculdade com 16 anos – passei no vestibular no segundo ano do colegial. Minha família nunca teve muito dinheiro, então eu sabia desde novo que eu teria que fazer o meu corre. Sempre tive esse foco de querer ser bem-sucedido cedo, então eu comecei a me levar a sério demais porque precisava passar credibilidade pras pessoas. Disputei uma concorrência no Itaú de terno e cabelo preso… Mas chegou um momento, durante a transição pra Redley, que eu pensei que eu não deveria me levar tão a sério, que a vida deveria ser mais leve. Foi quando eu comecei a deixar o cabelo crescer e usar as minhas próprias roupas. É muito louco que, depois que eu me assumi e falei “eu sou essa pessoa, se você quiser se relacionar comigo, vem, se não tá tranquilo também”, as coisas começaram a fluir muito mais. E a Void casou muito com a minha personalidade, porque a característica número um da empresa é não se levar a sério, é ser auto irônico, se zoar o tempo todo. Nunca me senti tão à vontade na minha própria pele como agora.

A publicidade também está caminhando nessa direção. Você acha que a propaganda segue o fluxo da sociedade ou é o contrário?
Acho que esse movimento é muito maior do que a publicidade: a moda não está se levando a sério, a arte contemporânea não está se levando a sério. A galera tá entrando num grau de zoeira meio louco. Tenho certeza que a publicidade acompanha o fluxo da vida. Ela chega depois da arte, da moda… chega por último. Claro que a galera estuda muito o comportamento para fazer publicidade, mas a publicidade sempre tem essa missão de ser mais ampla, capaz de atingir o maior número possível de pessoas, então tem que ter um discurso mais aberto. A moda pode ser mais nichada, pode falar com um único grupo. E na Void eu vi a oportunidade de criar um movimento. Tudo o que os meus clientes não queriam fazer porque ia demorar, eu encontrei na Void gente falando: “cara, faz o que tu quiser. Faça. Crie o movimento da Void”. Criar essa vibe Void, de não se levar a sério, me fez comprar essa briga.

Você recebe bem as críticas?
Claro, a gente tem que crescer. Eu peço muito a opinião dos outros, porque é claro que a gente erra também. É tudo um processo. Eu comparo muito marcas com pessoas, sabe? Quando a Redley fez 30 anos, eu pensava nela como uma pessoa de 30 anos: você já andou com a galera certa, já andou com a galera errada… A gente vai mudando, mas a gente tem a nossa identidade, e isso é o mais importante.

Você tem a pretensão de ganhar o Brasil com a Void?
Quero ganhar o mundo! A gente fez um pacto de vida, basicamente. O planejamento da Void é pensando na próxima década. E o planejamento de 10 anos da Void é o planejamento de 10 anos da minha vida. Eu não acordo e penso “vou trabalhar”, eu penso “vou viver”. Quando você trabalha assim, tudo fica muito leve e muito fácil de fazer.

Então você trabalha sem querer, né?
Eu teorizei toda essa parte de inteligência social. Hoje isso sai pelos meus poros, é orgânico demais.

E como você acha que as redes sociais mudaram o mundo?
Acho que a internet aproximou muito as pessoas de seus ídolos. Eu leio os comentários e vejo como as pessoas se sentem próximas. Ainda mais no Snapchat, que é bem verdadeiro, a realidade crua. O Instagram tem o recorte e os filtros, já o Snapchat é mais aberto a coisas mais reais. Mas as redes sociais tiverem esse papel de aproximar as pessoas, e as pessoas querem se relacionar com gente que não é blasé, arrogante. A arrogância distancia, né? É o inverso do que eu penso para mim e para as marcas que trabalhei.

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Na hora de escolher os seus amigos e parceiros de trabalho, você também se pauta por isso, de que a pessoa precisa ser do bem?
Total. Eu acho que, obviamente, tem gente muito talentosa que é arrogante, mas se eu quero me relacionar com essa pessoa, de alguma maneira, eu vou tentar quebrar essa arrogância, porque, às vezes, é só uma barreira de entrada. Tenho uns amigos que eram meio arrogantes na primeira impressão, mas que se mostraram pessoas doces e legais.

Teve alguém, algum momento, uma troca, que te marcou muito?
Ah, vários. Eu sempre fui uma pessoa que, por ter começado tudo muito novo, e por ter um irmão três anos mais velho, sempre me relacionei com pessoas mais velhas, que acabavam me ensinando muitas coisas. E eu curto isso de ter um mentor, sabe?

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O que o Rio de Janeiro tem que nenhum outro lugar tem?
Um clima despretensioso de viver. De não se levar a sério. O carioca se abre mais: “me dá um abraço aqui”, “vamos tomar uma breja”, “a gente é brother”. E é mais misturada, essa coisa de asfalto e morro. Gosto do Rio porque… [Pega o celular e mostra uma foto linda, de uma paisagem fantástica] Sempre morei na cidade, e a cada momento sou surpreendido. Em dezembro foi aniversário de uma amiga, e ela organizou um café da manhã na Pedra Bonito. Nunca tinha feito essa trilha à noite para ver o nascer do sol. Cara, cheguei lá e dou de cara com isso: nós estávamos acima das nuvens, literalmente. Acho que o Rio de Janeiro é onde, de repente, um lugar muito óbvio vai te surpreende.

Você é um otimista. Acredita que o ser humano é bom?
O ser humano tem seu lado perverso, com certeza, mas também tem o seu lado bom – e é esse lado que me interessa.

Segue ele
@peperdigao

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