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Danilo Valentini criou um projeto para compartilhar cenas das férias solares e da vida noturna do avô

Por
Mariana Weber
Em
11 fevereiro, 2020

Em homenagem ao avô, Danilo resgatou e digitalizou slides perdidos dos anos 1960 e 1970 que provam como eram doces os verões – e as outras estações – de meio século atrás.

De noite, Izidoro Ballesteros de Camargo trabalhava como leão de chácara de casas noturnas no centro de São Paulo. De dia, dormia. E fotografava: antes de comprar pão e voltar para casa, percorria a cidade que amanhecia e registrava as cenas do caminho, como o metrô em construção na Liberdade. Nas folgas e nas viagens, também fotografava como se filme brotasse em árvore. Quando morreu, em 1999, aos 74 anos, tinha caixas e caixas de slides. Ficaram guardadas por duas décadas até que o neto Danilo Valentini, herdeiro do hábito de fotografar na rua, resolveu abri-las no Instagram @asfotosdovo.

O que apareceu foram cenas que contam histórias do vô Izidoro, um sujeito durão, semi-analfabeto, que, segundo o neto, “tinha uma baita coração, mas dava umas respostas atravessadas”. Contam também histórias dos lugares que ele frequentou, principalmente nos anos 1970. Os carros eram outros na paisagem vista a partir do Elevador Lacerda, em Salvador, com o mar ao fundo (abaixo).

Da beirada do Elevador Lacerda: Salvador vista de cima (1973)

Os tabuleiros das baianas ganham tempero extra pelos tons esmaecidos das imagens. Balneário Camboriú não tinha tantos prédios tapando o sol; mas tinha um avô vermelho camarão, sem camisa e com calça, cinto, relógio, sandália fechada, óculos escuros, chapéu. Em Recife, um violeiro no meio-fio se abriga do sol sob um guarda-chuva. Os modelos das sungas e os letreiros de cerveja e guaraná demarcam o tempo nas piscinas lotadas do Corinthians, de que Izidoro foi sócio número 6.957, torcedor fanático e remador.

Foi de ônibus que ele percorreu as distâncias de Sul a Nordeste do Brasil — sem contar as incursões ao Centro-Oeste. “Conseguiu criar a família trabalhando na noite, comprar apartamento, tirar essas férias, passar um mês em três capitais do Nordeste. Mas ia no osso, de busão, e ficava só em pensão mequetrefe”, conta Danilo. “Tem muita foto de estrada, de churrascaria, de paradas.” 

Banho de tanque: emocionante homenagem ao avô Izidoro do neto Danilo

Como turista e fotógrafo amador com sua Olympus Trip 35, Izidoro era um sujeito diurno. Mas seu acervo tem também registros de suas três décadas de vida noturna, com retratos das personalidades que apareciam nos clubes, do estilista Dener, o mais badalado dos anos 1960 e 1970, até o humorista Costinha, passando pelos cantores Erasmo Carlos, Cauby Peixoto, Nélson Gonçalves, Dalva de Oliveira e Carlos Gardel.

Há ainda uma coleção que não passava no carrossel de slides nos encontros de família. São as imagens de apresentações e bastidores de boates como o Harém Nightclub, que mesclava shows de striptease e de engolidor de fogo, atirador de facas, equilibristas, acrobatas. Danilo acredita que a maioria delas não foi tirada por Izidoro, mas alguém a quem ele emprestava a câmera enquanto ficava na portaria (algumas imagens estão assinadas).

Nos anos 1970, Balneário Camboriú ainda não tinha tantos prédios tapando o sol

O neto descobriu a existência das fotos “x-rated” do ambiente profissional do avô na adolescência, mas só adulto é que pode vê-las ampliadas (antes, via no próprio slide, na contraluz). “Quando meu avô morreu, levantei a mão e disse: os slides são meus.” Jornalista, foi então entrevistar a avó e ex-colegas de boate sobre aquelas imagens. Pensou em fazer um livro, uma exposição, mas acabou deixando a ideia de lado, um tanto por medo de causar constrangimento a alguns retratados, um tanto pela dificuldade de trabalhar com slides (nessa altura, o carrossel do avô já estava quebrado).

Quase 20 anos depois, um amigo fotógrafo digitalizou o primeiro lote de 300 slides (ainda não foram todos contados, mas há mais de 2 mil). No Carnaval de 2019, ao ver um tweet com fotos antigas muito loucas do carnaval paulistano, Danilo teve o gatilho para desengavetar o projeto, usando a plataforma do Instagram. Nas publicações, passou a acompanhar o avô nas viagens e no trabalho, algo que nunca fez. E a levar mais gente junto.

Fim de semana no parque: conjunto aquático do Corinthians nos 1970
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