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A maré trouxe e a chef Gisela Schmitt ficou pra cozinhar num barco em Paraty

Por Mariana Weber -

Publicitária paulistana que se descobriu cozinheira profissional em Nova York, Gisela Schmitt encontrou em Paraty (RJ) o porto e o mar de que precisava pra levar uma vida mais solar. Ali criou o projeto Gastromar, com um barco que faz passeios gastronômicos, um restaurante numa marina e um espaço cultural no centro histórico. E ali trabalha descalça, vê os filhos crescerem, compra direto de quem pesca, prepara com ingredientes locais e sazonais pratos que atraem gente de longe.

“Sempre fui superurbana, mas em busca do sol”, diz a chef. “Em São Paulo, amava a sensação de saber que tinha tudo 24 horas e delivery. Disso sinto falta. E do supermercado Santa Luzia. De andar pelas ruas e respirar multidão, ideias, diferenças, contrastes. Mas isso também é o lado sufocante que me faz amar a escolha de me mudar pra cá. Muita informação pode ser brutal pra quem quer viver bem.”

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Pra sua relação com Paraty evoluir de namoro para relacionamento sério, Gisela transformou em negócio o barco em que ela e o marido, o empresário Miguel Borges, costumavam – e ainda costumam – reunir amigos, filhos e o cachorro Gin. A traineira de 50 pés, construída em 2009 por artesãos locais com madeira de reflorestamento, era um antigo sonho de Miguel, que a batizou de Sem Pressa em uma alusão ao tempo que esperou por um transplante de rim. Ele tinha um problema congênito e foi operado em 2012.

Hoje o barco recebe gente que paga pelo pacote de horas do Gastromar. Tem mesão, deck com almofadas, banheiro. E, o mais importante, uma cozinha onde Gisela prepara frutos do mar sobre o mar e à vista dos clientes, que se revezam entre comes, bebes e mergulhos nas águas verdinhas da região – é algo normal a prancha de stand-up paddle virar mesa flutuante.

“A melhor parte de ter uma cozinha no mar é estar em contato com a natureza, com uma vista linda e mutável, cada dia um céu, um mar, um peixe”, diz Gisela. “A pior é a tensão permanente da previsão do tempo.” Coisas de uma existência ao sabor do vento e do sol.

A história de Gisela com Paraty começou 12 anos atrás, quando foi contratada para ajudar a montar um restaurante na cidade – os clientes eram os sócios do extinto bar Dry, nos Jardins, de que ela também participou do projeto. A chef na época se dividia entre um buffet na capital paulista e serviços de consultoria. Apaixonada por cozinha, tinha abandonado a carreira de publicitária durante uma temporada em Nova York, quando conseguiu um emprego no restaurante Barolo. Depois vieram outros, nos EUA e no Brasil.

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Nesse primeiro trabalho na cidade fluminense, Gisela conheceu a chef Lauretta da Martinica, que virou sua grande amiga e a contratou pra mais uma consultoria. Na casa de Lauretta, conheceu o marido, cuja família tem negócios na região, incluindo a marina Porto Imperial.

Maré vai, maré vem, em 2013, o casal teve uma filha, Gloria, mais ou menos na mesma época em que Gisela começou a oferecer um serviço de catering de alta gastronomia para barcos. Ela vivia entre São Paulo e Paraty quando veio o segundo filho, João Miguel, em 2015. “Eu estava trabalhando pra caramba e via os filhos das minhas amigas em São Paulo doentes por causa de poluição. Um dia, na cozinha de casa, depois de fazer um carbonara, olhei para o meu marido e disse: vamos morar em Paraty de vez? Em 20 dias fizemos toda a mudança. Só da minha cozinha foram 65 caixas.”

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Com a âncora lançada no litoral, o Gastromar cresceu. Além do barco próprio e do serviço de catering pra embarcações, em 2017 ganhou um restaurante em terra firme, na marina Porto Imperial, e, durante a última Flip, a Casa Gastromar, espaço cultural montado nas ruínas de um casarão colonial no centro histórico. Na inauguração, Gisela chamou o grafiteiro Speto para fazer uma intervenção e instalou ali carrinhos do Gastromar que servem gim tônica, vinhos e comida de rua, como sanduichinhos com atum que ela mesma defuma.

Na vida que escolheu, a chef acorda às 5h da manhã para ler mensagens do pescador sobre a pesca da madrugada (que às vezes ela vai buscar de barco). “Na sequência vem o bom dia da Gloria e do João Miguel, cheios de energia.” Os dias são ao mar ou no escritório e no restaurante. As férias, de preferência no concreto. Em agosto, a família partiu para Londres, “para uma semaninha de imersão cultural in english para fazer o equilíbrio com as nossas crianças caiçarinhas na cidade grande!”.

Não é exatamente uma rotina sem pressa como as horas dos clientes no passeio de barco. Mas, como diz o neon que decora a entrada do Gastromar, com uma frase da atriz Martha Nowill, amiga de infância de Gisela: “Se a maré te trouxe, fica”.

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