Solar People

Gregorio Duvivier: “O Brasil precisa muito da gente”

Por
Thais Tavares
Em
17 março, 2016

Atenção: esta entrevista foi feita em março de 2016, ou seja, antes de Bolsonaro, antes da Covid-19, antes da Giovanna Nader, antes da Marieta, antes do Greg News, antes de tanta coisa. Mesmo assim, o papo se mantém atual, fresco e repleto de revelações.

Foi de lá, do fundo daquela vila escondida entre a calmaria da Mata Atlântica e a confusão da cidade, que ele veio em nossa direção. Seu passo tranquilo — na contramão do que acontece para além do portão — diz muito sobre a forma com que busca levar a vida: na delicadeza. Sem o intuito de atropelar o tempo ou relógio, Gregorio Duvivier, 29, (pega fôlego) ator-roteirista-cronista-poeta-diretor-músico-desenhista-e-um-amor-de-pessoa (ufa!) abriu as portas de sua casa, uma antiga e charmosa construção cercada de verde por todos os lados no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, e compartilhou histórias, alegrias e angústias. A bagunça na pia, a purpurina sobre a mesa e os instrumentos musicais espalhados eram um convite para que aquela tarde — assim como aquela vila — parasse um pouquinho no tempo e trouxesse à tona o que há de mais inspirador: o humano.

O Carnaval acabou, o ano oficialmente começou. Quais valores e costumes não deveriam ser perdidos ou engessados quando a farra termina?

Tenho pensado muito sobre isso. O Carnaval tem o seu momento e é fundamental que seja só uma vez por ano, com data pra acabar. A graça é justamente esta: a expectativa. Reside aí a grande beleza — e a grande tristeza — do Carnaval: a vida vivida intensamente, pois uma hora esse estado de exceção acaba. Mas tem algumas coisas que dá pra levar pra vida como, por exemplo, a ocupação das ruas na época da folia. E essa ocupação é feita da melhor forma possível: com alegria, com festa, com música. O fato de você encher a rua de música é muito legal. Os blocos que eu mais gosto têm música ao vivo, têm fanfarra e têm batuque. E é muito bom você ver que isso basta para uma festa acontecer.

E tem alguma coisa nisso tudo que você consegue levar para os seus projetos, pessoais e profissionais?

Totalmente! Essa coisa da liberdade afetiva, de a gente estar juntos mas não precisar estar grudado, sabe? Eu também acho lindo essa liberdade corporal das pessoas se vestirem como quiserem — ou não se vestirem, se assim quiserem. Acho incrível ver várias pessoas peladas, sobretudo as mulheres, porque os homens já estão mais acostumados a estar assim — não pelados de pau de fora, mas sem camisa. Mas as mulheres não, e você desmistificar isso é algo fundamental. E neste Carnaval eu puder ver isso acontecer várias vezes. Essa liberdade afetiva e corporal é uma forma de não exercer biopoder sobre ninguém. O Foucault fala muito de biopoder como a relação do Estado com as pessoas. Proibir o aborto é um exemplo de biopoder. O Estado está dizendo o que a mulher tem que fazer com o corpo dela. Ou quando o Estado proíbe as drogas. Por que uma pessoa não pode ingerir drogas se ela não está fazendo mal a ninguém? Ainda mais se for uma droga que ela planta? O mais curioso, no entanto, é que não é só o Estado que faz isso. As pessoas fazem também. Em casamentos, por exemplo, a pessoa diz como o corpo do outro tem que ser. O cara diz como a mulher tem que se vestir. E vice-versa. E até essa coisa de ficar com outra pessoa: se o jogo for limpo, se for alguma coisa clara e combinada, qual é o problema? O corpo dos outros não nos pertence. E hoje em dia eu tenho pensado cada vez mais nisso. Tenho tentado não exercer nenhum tipo de biopoder sobre ninguém e isso me deixa muito mais feliz. E livre. E leve.

Você se considera um feminista? Acha que dá pra se colocar na pele da mulher mesmo tendo nascido no “gênero opressor”?

Eu tento muito ser pró-feminista. Acho um movimento fundamental, dos mais fundamentais hoje em dia no Brasil. No entanto, eu não me sentiria a vontade para falar sobre o feminismo, levantar essa bandeira porque uma das grandes barreiras do feminismo é justamente a questão da voz: das mulheres terem menos voz do que os homens. Logo, ao falar sobre o feminismo eu estaria reproduzindo esse velho problema. Eu ia estar, de novo, reproduzindo o machismo, porque só se ouvem os homens.

Fotos: Olivia Nachle

E como você entende que pode ajudar nesse movimento?

Tento dar voz, compartilhar, retuitar e, sobretudo, ouvir as mulheres. O problema do machismo é um problema de escuta. Não só do machismo, mas dos preconceitos em geral: não se escuta, e quando se escuta não há empatia. A palavra-chave, aqui, é empatia. Eu tento ao máximo ter uma grande empatia com as lutas das minorias. Seja a do feminismo ou a do racismo, seja a luta dos transgêneros e também a dos homossexuais. Tem uma coisa que eu ouço muito hoje em dia que é mais ou menos assim: “cara, como o mundo tá chato, hoje em dia você não pode falar mais nada”. Eu fico tão feliz quando eu ouço isso, quando eu ouço amigos machistas falando que agora não podem falar mais nada. Eu penso: “que bom, o mundo progrediu! Que bom que você não pode falar o que você pensa!”. Porque eu acho que um dos grandes problemas do mundo é que certas pessoas falavam besteiras e nunca dava em nada porque era legitimado. A liberdade de expressão já foi muito usada como desculpa para racismos e machismos, entre outros retrocessos. Embora eu seja um ferrenho defensor da liberdade de expressão, eu também sou um ferrenho defensor da responsabilidade por tudo aquilo que você diz.

E o que você diria se, por acaso, tivesse uma filha e ela quisesse posar nua?

“Vai, faz o que você quiser!” Mas diria pra ela tomar cuidado com o fotógrafo, ainda mais se for homem. Conheço inúmeros casos de fotógrafos abusivos. E não só de fotógrafos — também vejo isso acontecer muito entre atores e diretores. Há diretores que abusam do poder. Não é nada diferente de um chefe que abusa da secretária. Porque a relação é de poder entre um fotógrafo e uma modelo. Trata-se de uma relação de poder na qual ela está fragilizada, entregue. A única coisa que eu diria, portanto, é que ela não fizesse nada, absolutamente nada, que não tivesse vontade. “Olha, faz o que você quiser, mas você não é obrigada a fazer nada. O cara que está te fotografando não tem nenhum direito sobre o seu corpo.”

 “O Congresso é uma versão mais branca, mais masculina, mais hétero e mais velha do Brasil. Ou seja, ele não é a cara do Brasil, é a cara do dinheiro do Brasil.”

Gregório Duvivier

E você, já posou nu? Faria um ensaio sensual?

Já posei uma vez pra Folha de S.Paulo, mas nunca de forma sensual, porque eu sou comediante e nunca saberia ser assim. Eu não sou modelo, eu só sei ser eu e então eu acho que não posaria com este propósito [sensual]. Mas encarnando um personagem, isso sim. Eu também já fiz uma peça nu. Fiquei quase a peça inteira sem roupa. Não tenho nenhum tabu em relação ao meu corpo.

Falando sobre trabalho: você sempre soube o que queria fazer?

Eu ainda não sei o que eu quero fazer [risos]. Sempre gostei de um monte de coisas: de escrever, de teatro, de música. E sempre rolou uma grande salada mista na minha cabeça. Gosto também de política, mas da participação política, e não de seguir uma carreira de político. Sempre gostei de humor, mas também de poesia, que são coisas muitas vezes vistas como opostas. Gosto de tanta coisa…

Mas como as coisas foram se desenhando pra você chegar onde está?

Minha família sempre me incentivou a colocar a mão na massa. Meus pais são músicos, e sempre incentivaram a mim e aos meus irmãos a criar, desenhar, tocar. Gosto muito de colocar em prática a arte, acho muito lúdico o fazer artístico. E escrever é uma puta diversão. Desenhar, então, nem se fala. Eu amei fazer o meu último livro, Percatempos. Eu amo fazer o artesanato, que é algo que sinto falta na escrita, pois é muito ligada ao computador, àquela luz branca na cara. Eu tenho uns dez cadernos. As pessoas estão perdendo a manufatura das coisas e isso não pode acontecer.

E este sujeito politizado, quando e como ele surgiu?

Meus pais não são muito ligados em política. A geração deles cresceu na ditadura e política, pra eles, era assunto de militar. Quem se metia com política se fodia. Então, lá em casa não era uma coisa que se falava muito. Mas eu, desde a escola, sempre fui meio envolvido: eu era representante de sala, depois representante do grêmio… Não sei exatamente o porquê. Eu acho fascinante esse universo da representatividade, entender como funciona um coletivo. O Brasil é um país muito fascinante nesse sentido. Se você parar pra ver como as coisas se organizam — ou não se organizam — é sempre um baita aprendizado. Carregamos um infinito de contradições: somos um país ultralibertário e por outro lado ultraconservador; somos ultracorruptos mas também ultratrabalhadores. Os clichês podem todos ser desmontados.

Você tem medo da abrangência e influência das suas opiniões?

Me dá medo quando eu vejo pessoas que não me conhecem me odiarem. Ocorre que, na verdade, elas acham que me conhecem. Eu, como ator, me sinto muito no abrigo da opinião das pessoas, porque elas criticam um trabalho seu. Agora, quando você escreve, elas criticam você, o que você é. Não tem como fugir. Toda coluna é uma autopsia, você tá abrindo seu peito. Já falei de tudo lá: da separação dos meus pais, da minha separação, da minha relação com drogas… Na coluna você abre seu peito e algumas pessoas te odeiam. E isso dá medo.

Mas o quanto isso te atinge?

Olha, eu evito ter contato com o ódio, me faz muito mal. Então eu não leio os comentários da Folha, por exemplo. A internet pode ser muito nociva e eu evito ter contato com isso. Não quero maré de ódio, nem veneração extrema. As duas são mentirosas e não levam a nada. Isso me assusta, me faz mal, faço até psicanálise. Trata-se de algo muito pesado. Ódio é destruidor. Na minha infância eu ficava tardes inteiras passando trotes por telefone. Eu amava aquilo. E é a mesma coisa. Quando você passa trote, o sonho é que a pessoa te responda. Se ela desliga é uma merda. Eles querem atenção. E eu não vou dar. Estou aprendendo que responder comentários é a pior coisa do mundo.

E mesmo assim vale a pena se posicionar nas suas colunas?

Ainda assim, vale. Primeiro, eu acho que a crônica é um gênero muito nobre e muito pouco explorado hoje em dia. Nos anos 1960, 1970, todo mundo escrevia: Drummond, Rubem Braga, Manuel Bandeira. A crônica se distancia do resto do jornal porque o resto é um oceano de ódio, de notícias ruins, pesadas, tragédias, merdas de todo o tipo. A crônica vem como uma ilha de poesia num oceano de tragédias. Mais do que opinião, eu gosto de dar impressão. Crônica tem que surpreender, inspirar, e não te convencer.

E falando em Brasil: ama, deixa ou tem uma terceira opção?

Eu amo o Brasil, mesmo. Agora, claro que eu fico muito assustado com os Brasis que existem por aqui. Dá pra achar muito ódio e muito conservadorismo. Mas eu tenho muita fé na mudança positiva. O Eduardo Cunha tem uma tese, muito reproduzida, que é mais ou menos assim: quando falam que o Congresso é reacionário, ele diz “o Congresso não é reacionário, o povo brasileiro que é. O Congresso é eleito pelo povo, logo, nós somos legítimos representantes do povo”. Só que o Congresso é a cara de que povo? Ele é 91% homem e 9% mulher; 98% branco e 2% negro; a média de idade lá é de 60 anos, enquanto a média do brasileiro é de 30 anos. Ou seja, o Congresso é uma versão mais branca, mais masculina, mais hétero e mais velha do Brasil. Ou seja, de novo: ele não é a cara do Brasil, é a cara do dinheiro do Brasil. Quem elege um deputado não é o povo, são as empresas. E as empresas são muito conservadoras, o dinheiro brasileiro é conservador. Eu não acho que o Brasil seja conservador. No dia em que as minorias do Brasil perceberem que, juntas, elas são a maioria, tudo vai mudar. Na verdade já está mudando.

Então você não moraria fora?

Já morei e queria ter morado mais tempo. Já fiquei uns meses aqui, outros ali, mas o teatro sempre me trouxe de volta. Tenho vontade de ir, mas sempre temporariamente. O Brasil precisa muito da gente. Precisa muito de artes, de narrativas que empoderem o povo, que façam um humor que acompanha as mudanças. O Brasil já mudou nos últimos dez anos. E o humor precisa mudar também. O problema aqui é que muitas vezes o humor ri de uma sociedade que já não existe. Quando você objetifica a mulher, quando o agente da comédia só é o objeto da comédia, isso é fruto de uma sociedade que não tem sentido. O país precisa muito de pessoas interessadas em operar mudanças, é um país fresco que está se inventando. E eu quero estar aqui pra isso.

O Porta dos Fundos colabora pra esta transformação que o Brasil precisa?

Acho que o nosso principal motivo em fazer o Porta é, sim, fazer um humor mais condizente com o mundo de hoje, menos jurássico. O humor que a gente via na televisão brasileira não nos fazia rir, de modo geral, e não era porque era ofensivo e tal, mas porque era velho. E se tem uma coisa que a gente tem como maior compromisso no Porta é não fazer piada velha. Nosso principal problema com piadas ofensivas não é tanto a ofensa em si, mas o fato de elas serem velhas e não verdadeiras. O humor tem que ter uma ligação forte com a verdade. Humor só é engraçado se for verdadeiro. Muito mais do que fazer humor político que vai mudar o mundo, a gente quer fazer humor de verdade, que ilustre as coisas do jeito que elas são, com uma âncora menor e mais longe do mundo tradicional, conservador.

Volta e meia você assume, em sua coluna na Folha, que fuma maconha. Qual a sua posição sobre a descriminalização e legalização das drogas?

Legalização, claro. Mais do que isso: regulamentação. Não é só função do Estado legalizar, mas também — e isso vem junto com a legalização — produzir e vender. A gente não sabe o que tem nelas e ninguém vai deixar de consumir porque é proibida. As drogas precisam ser regulamentadas. Esta é a regra número um. Os investimentos na guerra contras as drogas subiram 3500% nas últimas três décadas. Em 1989 o lema da ONU para o mundo era: Um Mundo Sem Drogas. Mas não existe o mundo sem drogas. Multiplicou por 350 os gastos na guerra contra as drogas e sabe o que aconteceu? Aumentou o consumo. Porque não faz sentido, você não luta contra a droga. Você tem que lutar por drogas melhores, drogas menos nocivas, drogas que não matem.

Você pensa em ter filhos?

Sim, muitos!

E como gostaria de ser lembrado por eles?

Eu acho que como um pai presente, algo que eu tive muito em casa. Eu tive um pai muito disponível em termos de afeto. É uma pessoa que sempre esteve presente. E eu quero muito ser este pai também, uma pessoa disponível, uma pessoa presente fisicamente.

Quem são hoje os seu heróis?

[Olha para cima como quem busca uma resposta dos céus] Difícil dizer… Meio cafona o que eu vou falar, mas é verdade: são as pessoas ao meu redor. Minha mãe sempre foi guerreira. Foi morar sozinha aos 16 anos e já se sustentava. Teve quatro filhos sendo cantora. Uma vida foda. E o meu pai a mesma coisa. Meu irmão, João, que hoje tem 35 anos, nasceu com uma síndrome raríssima que lhe custou, logo no primeiro ano de vida, algumas dezenas de cirurgias. Ele me faz lembrar, diariamente, a importância da simplicidade. Ele precisa tomar uma dúzia de remédios todos os dias e pingar mais sei lá quantos no olho. Tudo para ele é trabalhoso e ainda assim é um cara que acorda às seis horas da manhã para ir remar. Tenho ao meu redor pessoas muito brilhantes, muito geniais. São eles os meus heróis.